terça-feira, 19 de abril de 2011

CRISTO, O FILHO DO DEUS VIVO

        Cristo, filho do Deus vivo, confissão feita por Pedro a Jesus, vem mostrar que tipo de pastoreio ele assume. A região de cesaréia de Filipe tinha sido um santuário dedicado ao deus Pã, deus dos rebanhos e pastores, segundo o escritor judeu Flavio Josefo. Andando nesse lugar, com os seus discípulos, Jesus quer saber como o povo vê a sua ação como enviado de Deus. Este lugar também reflete a questão de soberania. O próprio nome, cesaréia, reflete a influencia dos Imperadores romanos denominados césares, e por sua vez a força do poder humano.  É aí que Jesus sente a necessidade de deixar claro que foi enviado para as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15,24), como contraponto aqueles falsos pastores que enganavam e exploravam o povo, os romanos.
        São nestes lugares de poderes de reis, que são afirmados os propósitos de Deus, ao anunciar que venham até Ele todos os que estão cansados e abatidos pelo peso de seus fardos (Mt 11,28). Foi para que as pessoas pudessem entrar em contato com outro tipo de vida que Jesus veio. É vontade do Cristo, trocar os fardos que as pessoas carregam em suas vidas. Para isso precisavam ser fortes e romper com as forças da morte e acreditar plenamente naquele que veio trazer àquelas pessoas um outro tipo de reinado, o de Deus.
       O inicio desse rompimento era a aceitação de uma nova possibilidade que passava por uma profissão de fé: tu és o Cristo, o filho do Deus vivo. A frase “ tu és” era usada antes, para exaltar os imperadores, ela reconhecia a identidade dos imperadores como representantes da vontades dos deuses. Jesus responde a Pedro que para dar essa resposta ele não agiu pela suas potencialidades humanas, mas por inspiração de Deus.
        Portanto, irmãos e irmãs, todos nós podemos transcender nossa forma humana de conceber a vida e buscar na presença do Deus vivo que está em nós, o alivio e o alento para superarmos todos os nossos pesados fardos e carências.

(por Rev Luis Pereira dos Santos - IPU de Caetité)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome." (Salmo 23.3)

Aquele que compreende a profundidade dessa promessa se torna forte, confiante e destemido. Se o Senhor conduz você por vereda plana e pelos caminhos da justiça por amor do Seu nome, como seria possível algo estar errado em sua vida? Jamais! Todas as angústias, todo o mau humor, toda insatisfação e todas as queixas vêm da incredulidade. Permita-me dizer a você particularmente: o Senhor só é honrado e glorificado se você aceita as Suas promessas como sendo dEle para você bem pessoalmente. Se aqui está escrito: "Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome", isso significa por amor ao nome de Jesus. As promessas da Bíblia são garantidas e certas no precioso nome de Jesus, pois está escrito: "Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus." Essa certeza de ser guiado por vereda plana, por vereda de justiça, consola nosso coração. O mesmo Davi que também tinha essa certeza exclamou: "Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando me alegrares o coração." É como um abençoado círculo divino, depois de nos aproximarmos dEle fica mais fácil obedecer ao Senhor.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

ATÉ QUANDO??

Leiam mais esse maravilhoso artigo, escrito pelo rev Claudio Rebouças (click no link):




Por Um Deus Mais Mundano...


Anda!
Quero te dizer nenhum segredo
Falo nesse chão, da nossa casa
Vem que tá na hora de arrumar...
(Sal da Terra)
Temos vivido nestes dias momentos em que outro modelo de comunidade eclesiástica não só é possível como é urgente que se instaure em nossas relações sociais. Assim, a história humana passa necessariamente por dimensões entre os gênesis e os apocalipses, em um processo longo e contínuo de criação e recriação de si mesmo e do outro em uma relação de espanto e encantamento diante da vida, dos caminhos e descaminhos... Desta maneira, acredito que um Deus mais envolvido com o nosso cotidiano, em cada esquina e praças, feira e mercados, praias e ou clubes... tem muito mais sentido e lugar em nosso século XXI. Ou seja, O Deus do templo precisa também ser percebido e vivenciado nas ruas promovendo justiça social e dignidade humana. Logo, precisamos pensar que Deus é esse que invocamos o seu nome, e ou nós como cristãos estamos a serviço de quem?
O que devemos e podemos fazer é contribuir para a construção de espaços de relacionamentos sociais mais igualitários e acolhedores.
Urge então, que nosso relacionamento com o Cristo de Deus nos torne mais humanos e que a religião em nossa experiência seja para emancipação, para liberdade, para celebração, para a vida... Que junt@s possamos viver e proporcionar o Reino de Deus em todo lugar (um reino humanizador), um Deus que conhece e compreende meu caminhar e estende a mão para a caminhada dizendo-me: Tu és meu (minha)! Levanta-te e anda... Pois, caminhar é preciso e hoje farei grandes coisas não só no templo mais no mundo. Portanto, ficai atento (a)!
Partindo dessa mesma proposta foi que o aniversário da nossa IPU em Muritiba desenrolou-se. Tivemos momentos encantadores e desafiadores para nossa caminhada. Fizemos 25 anos de amor, serviço, partilha... Pensamos no tema: Mundo Palco da Glória de Deus e a divisa em Êxodo. 3.5 “Tira os sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa”. Assim, a proposta era pensar na mundanização de Deus que necessariamente implicaria em outras posturas nossas no e com o mundo. Daí, a terra é santa neste momento não em uma perspectiva geográfica, e sim, porque ela é a pachamama (a mãe terra que nos dá o alimento, que nos dá a vida.
Desta forma, no sábado (02/04/11), tivemos uma noite de louvor com participação de uma banda da igreja do Evangelho Quadrangular (Gov. Mangabeira), cantores da Batista (Muritiba), saudação do moderador do PSVD (Rev. Dagoberto), saudação do representante da ICAR em Muritiba (Sinésio Galvão) e outros(as).
Já no domingo pela manhã, uma programação rica e provocativa nos fazia refletir sobre nossa missão neste chão. Novamente tivemos participação de outras igrejas de nossa cidade (o que alguns chamam de ecumenismo cristão). A reflexão ficou com o Pastor Jorge Nery (Feira de Santana), que impulsionado pelo Espírito nos falou do compromisso com o próximo, de quem Jesus de Nazaré ouviu, sentiu, falou e tocou a vida e clamor dos marginalizados e excluídos pelo poder político-religioso do seu tempo. Também nos falou que Deus transcende o templo e que Ele acontece nos lugares mais inusitados e que nem sempre se encontra nas igrejas (às vezes está do lado de fora querendo entrar (Apocalipse 3.20).
Semelhantemente, o texto bíblico de Êxodos mostra um Deus libertador que sente a dor e ouve o sofrimento das pessoas. Assim, quem é Javé? Quem é Moisés? Estávamos ressignificando nossa identidade enquanto cristãos e cristãs. Daí, após uma palavra de vida e libertação nos preparamos para a eucaristia... Um momento lindo! O Rev. João Dias conduziu o primeiro momento lembrando-nos de alguns poetas que falavam da saudade. A ceia é a hora da saudade dizia João Dias e a melhor maneira de matar a saudade é com um encontro. E, o pão e o vinho representam este encontro com Jesus de Nazaré. Nesse momento, eu chamei os pastores presentes para distribuição dos elementos, a saber: Pr. Jônatas (PIB em nossa cidade) Pr. Edvaldo (Evangelho Quadrangular nossa cidade) e o Pr. Jorge Nery (Feira de Santana). Sem dúvida alguma foi um momento encantador. Que maravilha!
Por fim, após alguns cânticos, avisos e abraços comemos um delicioso bolo e bebemos refrigerante. Assim, nos renovamos diante do Criador, da vida e enchemos o coração de esperança para juntos (as) construirmos este reino de Deus que é acolhedor e transformador de estruturas que oprimem e manipulam a vida e o bem comum.
Forte Abraço, obrigado à tod@s que participaram e até o próximo...
Rev. Cláudio Márcio

quarta-feira, 9 de março de 2011

O PRESBITERIANISMO REFORMADO SEMPRE SE REFOMANDO

O PRESBITERIANISMO REFORMADO SEMPRE SE REFOMANDO
Por Rev. Áureo Bispo dos Santos

Apresentarei uma breve história do Presbiterianismo até à sua chegada ao Brasil. Ele pertence a um dos ramos da Reforma Protestante do século XVI.
Os diversos nomes recebidos pelas igrejas que abraçaram  a Reforma estão, em alguns casos, ligados aos líderes que iniciaram esse movimento em diferentes países: Luteranismo ( Lutero ) e Calvinismo ( Calvino ). Este reformador, na sua investigação bíblico-teológica, encontrou os fundamentos para a formulação das doutrinas e princípios de fé e ordem que passariam a guiar as igrejas na sua vivência interna e na sua missão no mundo. Na Suíça e noutros países europeus, as igrejas que adotaram as formulações de Calvino foram chamadas Calvinistas ou Reformadas. Já na Escócia, a reforma liderada por João Knox leva a igreja a receber o nome de Presbiteriana. Os puritanos que se estabeleceram nos Estados Unidos da América do Norte se denominaram como presbiterianos. Posteriormente, as missões presbiterianas iniciaram a obra de evangelização noutros países. No Brasil, Ashbel Green Simonton foi o primeiro missionário a aqui chegar em 1859.
Em resumo, quer sejam chamadas presbiterianas ou reformadas, estas igrejas, em diferentes países, têm a mesma fundamentação bíblico-teológica e os mesmos princípios de fé e ordem guiados por um sistema de governo representativo conciliar, isto é, no qual os diversos cargos são escolhidos pela congregação.
Dentre os grandes princípios protestantes reformados, tecerei alguns comentários sobre o da IGREJA REFORMADA SEMPRE SE REFORMANDO (ecclesia reformata semper reformanda). Por que os reformadores formularam este princípio? Ao fazerem as suas reflexões sobre a Bíblia e a História da Igreja Cristã verificaram que o povo de Deus no Antigo Testamento estava sempre passando por um processo constante de decadência e queda. Só o espírito de Javé é que revivia os ossos secos, de acordo com a visão de Ezequiel, capítulo 37. O Novo Testamento descreve que Jesus, ao longo do seu ministério, mostrou, claramente a situação decadente e esclerosada em que se encontravam os líderes do povo de Israel (escribas, fariseus e saduceus). Os apóstolos foram veementes em afirmar que as lideranças judaicas chegaram a tal decadência e desobediência que não só mataram os profetas como também a Jesus Cristo (Atos 2:23 e 7:51-60). A história registra os descaminhos da Igreja Cristã, através de treze (13) séculos da era cristã, principalmente após o edito do imperador Constantino que declarou a Igreja Cristã como religião oficial do Império Romano.
No século XVI, a igreja tinha chegado aos limites extremos de uma organização rica, poderosa, gloriosa, acima dos príncipes, reis e imperadores a quem ela coroava, evidenciando a sua superioridade sobre todos eles. Porém, ao mesmo tempo, tornou-se fossilizada, viciada, com uma estrutura hierárquica esclerosada, apregada às tradições do passado e decadente e morta espiritualmente, pois rejeitou a força do Espírito de Deus, tão bem descrito no grande Inquisidor do genial escritor e romancista russo Dostoievski, a respeito do deplorável estado em que chegou a igreja Cristã. É também neste contexto que Lutero e Calvino deram o grito de alerta para que a Igreja percebesse o seu estado decadente e partisse para uma reforma urgente. Para eles, ou a Igreja se reformava ou morreria. Todavia, ela não só deixou de ouvir o brado de Lutero, mas também resolveu abafar completamente a voz profética deste monge dominicano condenando-o e expulsando-o como herege e, não só ele como também a todos que o acompanhasse, chegando a tal crueldade de criar a “Santa Inquisição”, para exterminar os hereges, seguidores dos reformadores. Para estes, sem a reforma a Igreja poderia ser chamada de Cristã. Mas, de Cristã só tinha o nome. Conhecedores do que aconteceu com o povo de Deus no Velho e no Novo Testamento e, com a Igreja Cristã de seu tempo, chegaram a conclusão de que qualquer Igreja Cristã, está, constantemente sujeita a se tornar decadente e morrer se não se renovar. Daí, chegaram a afirmar que as igrejas que saíram da Igreja Católica Romana poderiam, também atingir à mesma situação a que chegou esta. Então, partiram para formular o princípio da Igreja Reformada Sempre se Reformando. Para eles, é imperativo que a igreja esteja sempre pronta a passar por um processo de reforma na sua caminhada de fé, pois há sempre a tentação muito grande para a instituição abafar a voz do Espírito e o testemunho interno deste mesmo Espírito.

1.      A Igreja é santa e pecadora ao mesmo tempo. É uma comunidade de santos(as) e pecadores(as).
O Novo Testamento registra, primeiro que Igreja é uma Nova Humanidade (Ef. 2:11-17); Novo Israel (Gal. 6:15-16); Nova Criação em Cristo salva e santificada por Ele. É uma comunidade viva, dinâmica, corajosa, livre, criativa, pacificadora e amorosa. Mas, em segundo lugar, é pecadora, dissimulada e insensata (Gal. 2:1-14 e 5:15), além de conflituosa e insincera (I Cor. 11:18-19) e, também orgulhosa e vaidosa (Apoc. 3:16-17).
A partir da perspectiva sociológica, a Igreja é uma organização e, como tal, busca sempre manter uma estrutura e formas adequadas a fim de permanecer estável e segura na sociedade, tendendo para uma instituição conservadora. A partir de uma perspectiva bíblica-teológica, é o corpo de Cristo, uma Comunidade de fé e província do Reino de Deus. Estas duas situações levam a Igreja a viver uma constante tensão.
O Novo Testamento descreve, em segundo lugar, esta tensão. Jesus adverte aos discípulos: “orai sem cessar para que não entreis em tentação porque, na verdade o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mat. 26:41). É no grito existencial de Paulo que se percebe esta situação angustiante e paradoxal de se ser santo e pecador simultaneamente, quando brada: “miserável o homem que eu sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rom. 7:27) ou, “o bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero este é o que pratico” (Rom. 8:19).
Diante desta situação de grande perplexidade, vem a resposta do perdão e da misericórdia de Deus, que traz a paz interior: “mas, dou graças a Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor. Assim que, eu mesmo com o entendimento sigo a lei de Deus, mas com a carne a lei de pecado” (Rom. 8:25).

2.      A Igreja é mantida pelo Espírito Santo.
Só o Espírito equilibra esta situação contraditória e ambivalente da Igreja. É um estado extremamente difícil de ser sustentado, a não ser que haja uma entrega incondicional e submissão nas mãos do Espírito de Deus.
O escritor Daniel Jenkins, no seu livro “Strangness of the Church” (Igreja uma comunidade estranha), descreve esta estranheza da Igreja no fato de que quando ela mostra-se envelhecida e, prestes a morrer, de um momento para outro, muda o aspecto e se torna renovada e rediviva. Na carta de Pastor HERMAS, há uma descrição semelhante. Aqui a Igreja é representada como uma velha de cabelos brancos, rosto enrugado, cambaleante e esquelética. Então, o autor volta a olhar a velha e, como surpresa, percebe que os seus cabelos estão pretos e a face se torna como de uma jovem de dezoito anos, com muito vigor e firmeza. É o Espírito que transforma este estado de decadência em vitalidade e renovação. Como já se mencionou, são os “ossos secos” revivificados, segundo a visão profética de Ezequiel.
3.      A Igreja é uma comunidade missionária revolucionária.
Jesus, antes de ascender aos céus, fez uma promessa aos discípulos: “...recebereis o poder do Espírito Santo,  que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia, e Samaria, e até nos confins da terra” (Atos 1:8). No dia de Pentecostes, ele cumpriu a sua promessa quando derramou o Espírito sobre todos que estavam reunidos e os tornou uma comunidade missionária (Atos 2:14-36). O livro de Atos registra a obra extraordinária que o Espírito operou através da Igreja. O Espírito, arrojadamente, conduz a Igreja a ser uma comunidade viva, atuante e radicalmente revolucionária, a ponto de próprios inimigos e perseguidores judeus ficarem perplexos, aterrorizados com o fato de revolução que estes homens e mulheres simples, pescadores, pobres e humildes estarem ocasionando uma revolução chegando a vociferar: “estes que andam revolucionando o mundo inteiro chegaram até aqui” (Atos 17:6). Realmente, a intenção dos judeus era perversa e má. Todavia afirmaram uma grande verdade: A mensagem inspirada pelo Espírito e proclamada pelos discípulos não só converteram milhares de homens e mulheres a Cristo, mas também deixaram os inimigos desbaratados e atônicos, chegando a reconhecer o seu caráter revolucionário quando presenciaram a maravilha que o Espírito realizava por intermédio desta comunidade de fé. Queriam, a qualquer custo exterminar um movimento que estava revolucionando o mundo. Só que não tinham forças para extingui-lo, porque era o próprio Deus que sustentava esta comunidade.
Conclusão:
A identidade da Igreja Presbiteriana tem de estar fundamentada no principio protestante:  Igreja Reformada Sempre Se Reformando. Este princípio revela que a igreja deve viver e ser um movimento dinâmico sempre a caminho. Não há lugar para estabilidade e descanso. Mas, para um processo de reforma e renovação constante, radical e transformador.


EVANGELIZAÇÃO NA PERSPECTIVA DA IPU

                                  
Desde a sua fundação, em Atibaia,SP, no dia 10 de setembro de 1978, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil tem refletido  sobre a sua  prática de Evangelização,. vinculando-a com o seu conceito de Missão. 1°) Para a IPU, fazer Missão é fazer presente o Reino de Deus na realidade humana integral, como foi a prática evangelística de Jesus, descrita nos Evangelhos;” percorria Jesus...pregando do Evangelho do Reino” (MT 4, 23) Essa também foi a prática da Igreja de Tessalônica, que  foi acusada pelos que se opunham  a Paulo, a Silas e aos primeiros cristãos daquela cidade: “Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui...afirmando ser Jesus outro Rei.”(At 17, 6,7) A principal ênfase à Evangelização é apresentar o Reino de Deus aos indivíduos, às famílias, às cidades e ao mundo. Assim foi o primeiro sermão evangelístico de Jesus. (Mr 1,15) A IPU percebeu que a ênfase dada à prática da evangelização como a “salvação da alma” não é a ênfase do Evangelho, que inclui o ser humano total e a sua realidade. Em segundo lugar, o conceito de Evangelização da IPU é: 2º) Fazer Missão é transmitir o “AGAPE” trinitário isto é, o Amor do Pai, do Filho e  Espírito Santo, por isso Jesus, quando evangelizava, além de pregar, “ensinava... e curava “toda  sorte  de doenças e enfermidades entre o povo.” Evangelizar é cumprir o propósito principal da Igreja Cristã que é incrementar entre todos os seres humanos a prática do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a si mesmo.” (Mr 12,32)  Evangelizar é uma prática de amor e não pode ter, como alvo o crescimento numérico da Igreja local, nem o aumento da renda e do prestígio social estatístico da Denominação. 3°) Fazer Missão é promover a Unidade, como Cristo planejou em sua Oração  Sacerdotal)Jo17, 21-26) a fim de que todos os seguidores de Cristo sejam “aperfeiçoados  na unidade.” Como o Espírito Santo fez no dia de Pentecostes, quando reuniu pessoas vindas “de todas as nações debaixo do céu”, (At 2,5) para ouvirem as mensagens evangelísticas dos Apóstolos de Jesus, que eram ouvidas e entendidas em uma língua só. Foi o milagre da Unidade. E foi formada a 1ª Igreja “una, santa e apostólica”. . Evangelizar não é produzir divisão entre os que crêem, não é fazer proselitismo para tirar pessoas de outras Igrejas para se tornarem membros de nossas Igrejas, como se a nossa Igreja fosse a única e  a perfeita. Nós estamos aqui no Brasil com o objetivo de convidar todos os brasileiros  para aceitarem o “outro Rei, Jesus” e pautarem as suas vidas pelas diretrizes do Reino de Deus. Alguns membros de nossas Igrejas ainda entendem que não é possível ser ecumênico, ou defender a Unidade e Evangelizar porque essa prática seria contraditória. Eles entendem assim porque só entendem Evangelização como Proselitismo, isto é, tirar pessoas de outras Igrejas.  . Mas desde 1968 temos uma nova compreensão  sobre as populações da América Latina e principalmente do Brasil, porque na Assembléia do CELAM(Conferência Episcopal Latino Americana} , em Medellín, na Colômbia, os bispos católicos romanos do Brasil declaram que “falta à maioria de nossa população uma adesão pessoal ao Cristo, com todos as sua implicações individuais e sociais”,  e mostraram a importância da Evangelização. Para nós, das Igrejas evangélicas isso deve ser uma palavra de alerta que mostra que a no obra de Evangelização devemos incluir os nossos lares, os nossos parentes, os nossos vizinhos, o nosso bairro porque vamos encontrar muitas pessoas que não fizeram ainda a sua “adesão pessoal ao Cristo” dos Evangelhos.

Rev João Dias de Araújo (joaodiasaraujo@uol.com.br)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

QUARESMA: FESTA DA RECONCILIAÇÃO

QUARESMA: FESTA DA RECONCILIAÇÃO

LIÇÃO 01: ANTES DA QUARESMA, A FESTA DOS FOLIÕES.
rev. Cláudio da Chaga Soares (IPU)
Texto base: Ester 9:20-32
LEITURA SEMANAL

SEG
TER
QUA
QUI
SEX
SÁB
“Que bela figura fez hoje o rei de Israel!”
“Dia de alegria e de banquetes e dia de festa”
“Então, a virgem se alegrará na dança”
“Aí está um comilão e beberrão!”
“E começaram a festejar”
“Nós também seremos transformados”
II SAMUEL
6.12-23
ESTER
9.16-32
JEREMIAS
31.1-14
MATEUS
11.16-19
LUCAS
15.11-31
I CORÍNTIOS
15:51-58


INTRODUÇÃO

Alguma vez você parou para refletir sobre a razão de a festa do Carnaval antecipar a quadra da Quaresma no nosso calendário? Já se perguntou se há alguma motivação pedagógica para isto? Como cristãos reformados, o que podemos aprender com tal festividade como crítica à nossa herança puritana de recorte dicotômico – que valoriza as coisas da alma e vê com maus olhos as coisas do corpo – e, por isso, na maioria dos casos, de postura moralista ou legalista? Portanto, nosso estudo desenvolver-se-á em três partes, a saber: 1) A Festa dos Foliões; 2) O escândalo do Deus que dança; e, 3) O Homo Festivus: resgate e antecipação da Ressurreição do Corpo.

1. A FESTA DOS FOLIÕES

Harvey Cox, teólogo reformado e professor em Havard, em seu livro The feast of fools, em português foi publicado com o nome A festa dos foliões[1], apresenta-nos a Festa dos Foliões, também chamada de a Festa dos Loucos, como uma espécie de carnaval da Idade Média em que o lumpesinato e:

[...] até padres geralmente piedosos e cidadãos ordeiros colocavam máscaras grotescas, cantavam insinuantes modinhas e, numa palavra, mantinham todo mundo em suspenso por suas sátiras e folias.

E mais, era incentivado pelos padres que compunham o baixo clero:

Componentes do baixo clero lambuzavam a cara, estadeavam por aí em trajes reservados a seus superiores e arremedavam os pomposos rituais da Igreja e da Corte. Às vezes escolhia-se um príncipe da bagunça, um rei-palhaço ou um bispo-garoto para presidir os eventos. Em alguns lugares, o bispo-garoto até parodiava a celebração duma missa. Durante a Festa dos Foliões, não havia costume nem convenção social que não se expusesse ao ridículo subtrair-se à sátira.

Por seu conteúdo crítico social, COX destaca que:

A Festa dos Foliões não era nunca prestigiada pelas classes privilegiadas, mas antes condenada e critica sem cessar. Mas a despeito dos esforços de gente de Igreja que se via atingida, e duma condenação formal baixada, em 1941, pelo concílio de Basiléia, a Festa dos Foliões sobreviveu até o século dezesseis, quando então, na época da Reforma e Contra-Reforma, foi esmorecendo gradativamente.

Tal festa ocorria em dois períodos distintos. O primeiro, cerca de 15 dias antes da  celebração do Ano Novo Judaico. O segundo, na semana que antecipava o início da Quaresma tendo seu término na Quarta-Feira de Cinzas. Como veremos a seguir, tais datas sofrem influência da FESTA DE PURIM registrada no livro de Ester. No entanto, o que se celebra em Purim? Segundo HAMILTON:

Com base em Ester 9.20-28 fica-se sabendo que o Purim foi uma festa instituída por Mordecai para comemorar o fato de os judeus terem sido livrados da trama de Hamã para matá-los. A observância de Purim foi instituída depois que Hamã lançou sortes para determinar o mês em que devia ocorrer a matança. Ester 3.7 diz que Hamã, já tendo-se decidido pelo pogrom, consultou as sortes apenas para saber o dia mais propício para extirpar a raça dos Mordecai. A LXX acrescenta ao TM as seguintes palavras: “E a sorte recaiu sobre o dia catorze do mês de adar” (março/abril); ou seja, o decreto iria entrar em vigor quase um ano depois de sua promulgação original. Alguém há de perguntar: por que Hamã expediu o decreto com quase 12 meses de antecedência em relação à data proposta para a matança? Seria exagero ver nessa decisão incomum de Hamã a mão soberana de Deus uma vez mais protegendo os seus filhos, muito embora estivessem exilados?[2]

O livro de Ester registra que tais dias deveriam ser de “descanso” (Shabat: cf. Gênesis 2.1-3; Aos Hebreus 4), “dia de alegria e de banquetes e dia de festa e de mandarem porções dos banquetes uns aos outros” (Ester 9.17,19). Dia de celebração pois “se lhes mudou  de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa” (Ester 9.22a) . Dia de tomada de uma profunda consciência e responsabilidade social com os pobres (Ester 9.22b) e de desejo constante de conversão: aqui representados pela prática do jejum e de lamentações (Ester 9.31). Ainda, a Bíblia Sagrada – Tradução da CNBB traz um comentário exegético ao texto de Ester 9.20-32 que ajudar-nos-á a perceber a correlação entre a festa do Carnaval e seu propósito pedagógico com a celebração da Quaresma:

Quinze dias antes do fim do ano persa e judaico, celebrar-se-á a festa de Purim (Sortes), em comemoração da desforra dos judeus. Na realidade trata-se da antiga festa do fim do inverno, fev.-março, que na Europa deu origem ao carnaval. O nome da festa, Purim (= Sortes), significa a inversão das sortes (do tempo meteorológico), agora aplicada aos judeus: antes oprimidos, agora vencedores.[3]

Concluindo, a Festa dos Foliões adapta à sua realidade a Festa de Purim, também chamada de Festa de Desforra, como antessala da Quaresma e apresenta, como personagem principal, o marginalizado agora senhor da sua história (“antes oprimidos, agora vencedores”). Como aperitivo, celebra a ironia, a crítica social, expõe a nudez do rei; despe o que se acha santo ao revelar sua pecaminosidade. Tempo de ir à desforra para na Quarta-Feira de Cinzas se silenciar, calar, pedir perdão: dia de jejum e lamento.

2. O ESCÂNDALO DO DEUS QUE DANÇA                             
Recentemente William Young, em A Cabana, provocou certa inquietação em algumas comunidades evangélicas ao retratar Deus-Pai como uma mulher negra, gorda e sorridente que gosta de dançar e ouvir música. Vejamos um trecho do livro:

Mack foi em direção ao cantarolar baixo e chegou a uma copa-cozinha onde havia uma mesa com quatro lugares e cadeiras de encosto de vime. [...] Papai estava trabalhando em alguma coisa, de costas para ele, com farinha voando enquanto se balançava ao ritmo da música ou do que quer que estivesse escutando. A canção obviamente acabou, marcada por duas últimas sacudidas de ombros e quadris.[4]

Podemos entender a razão desta inquietação. O pensamento cristão ocidental sofreu grande influência de dois pensadores gregos: Platão e Aristóteles. A idéia de Platão acerca do corpo, relida pelo neoplatonismo agostiniano, será desenvolvida no próximo ponto do nosso estudo, quando dissertaremos sobre a ressurreição do corpo. Contudo, posso adiantar uma coisa somente: não é nada boa. Por sua vez, a idéia de Aristóteles de ser Deus como um “motor imóvel”, presente nos capítulos IX, 5-6 e XII,6-7 da Metafísica, relida por Tomás de Aquino e identificada com a idéia cristã de Deus,  além de formatar Deus o engessou. Para Aristóteles todo movimento é o abandono de uma forma e o recebimento de outra. Ou seja, em relação a substância, movimentar é CORROMPER-SE. Por isso o estranhamento ou escândalo de alguns cristãos com a idéia de um Deus que dança:

Sabemos que tudo no universo é uma dança universal, desde a dança das partículas do átomo e das moléculas, até o giro dos planetas, das estrelas e constelações. Aristóteles, há dois mil e quatrocentos anos, teve a mesma visão do universo ao afirmar que “Deus foi o primeiro a provocar essa dança dos seres, embora ele mesmo não dance. Ele é imóvel, mas impulsionou tudo o que se movimenta”. Um engano de Aristóteles. Ele pensava que fosse uma imperfeição se Deus dançasse. Como pode ele fazer tudo dançar, sem deixar de entrar na dança?[5]

Eis a razão de Nietzsche, um dos três “mestres da suspeita” [6], declarar que só podia crer num Deus que dançava.  Desta forma, acusava o cristianismo de ter convertido Deus em um “rival”[7] do ser humano e seu evangelho libertador como uma forma de opressão: um dysangelion.[8] No entanto, o evangelista Mateus afirma que a sociedade da época de Jesus – como também qualquer outra sociedade e em qualquer tempo – é insensível à musicalidade e à dança, por não acolher a oferta da GRAÇA (Mateus 11.16-19). E mais, São Lucas, no capítulo 15.11-31, compara a ação de Deus à ação do PAI MISERICORDIOSO (vv. 20b, 23-24), que festeja o retorno do filho que partiu e exorta ao filho, que sempre esteve com ele, a que desenvolva uma relação filial - de quem se sabe acolhido em amor - e não servil (vv. 29-32). Ah! Para terminar esse ponto do nosso estudo, uma curiosidade. A palavra Deus em hebreu é la (’el), e sua etimologia, presente na sonoridade AL-EL-IL-OL-UL, está ligada às idéias de: 1 - FORMA VERBAL: girar, voltar, rodopiar, saltar, pular, dançar, movimentar; 2 – SUBSTANTIVO: altura, expansão, música , sino e som. Ainda, no texto de Gênesis 1.2, Deus voa e revoa (RAHAF) sobre as águas como que dançando sobre a face do abismo. E mais,

Deus aparece a Moisés na sarça ardente, no meio das chamas. Os cristãos dizem que ele desceu sobre os apóstolos no dia de Pentecostes em forma de línguas de fogo, ao som dum vento impetuoso. Repare bem: AVE VOANDO e REVOANDO, CHAMAS CREPITANDO e RETORCENDO-SE, VENTO SOPRANDO, ASSOBIANDO, RODOPIANDO. Quem é que dança mais que a AVE, o FOGO e o VENTO?[9]


As imagens de Deus como “ave, fogo e vento” são palavras-metáforas que expressam a idéia do Deus que dança: não apreendidas por Nietzsche, reveladas pela GRAÇA, porém. Portanto, uma vez que a própria Bíblia revela-nos a face do DEUS FESTIVO, acredito que temos subsídios suficientes para o resgate de uma das dimensões do ser humano, imago Dei, que é a sua capacidade de festejar, celebrar e, assim, viver no agora, antecipadamente, a festa da ressurreição do corpo.

3. HOMO FESTIVUS: RESGATE E ANTECIPAÇÃO DA RESSURREIÇÃO DO CORPO.
Como antecipei no bloco anterior, no tocante à corporalidade, o cristianismo do Ocidente, neoplatônico e agostiniano, releu alguns princípios centrais do pensamento de Platão, cristianizando-o e adaptando-o à sua intenção teológica.  Um dos pontos foi a teoria das idéias de Platão que partem da compreensão de que “o processo de conhecimento se desenvolve por meio da passagem progressiva do mundo das sombras e aparências para o mundo das idéias e essências.” [10] Assim, o conhecimento, para ser autêntico, deve ultrapassar a esfera das impressões sensoriais [coisas do corpo], o plano da opinião, e adentrar na esfera racional da sabedoria, o mundo das idéias [identificado por Santo Agostinho como as “coisas” da alma]. Daí, conclui-se: a alma é superior ao corpo. Cotrim apresenta-nos a apropriação de Platão feita pelo Bispo de Hipona:
Agostinho defendeu a superioridade da alma humana, isto é, a supremacia do espírito sobre o corpo, a matéria. A alma teria sido criada por Deus para reinar sobre o corpo, para dirigi-lo à prática do bem. O homem pecador, entretanto, utilizando-se do livre-arbítrio, costuma inverter essa relação, fazendo o corpo assumir o governo da alma. Provoca, com isso, a submissão do espírito à matéria, equivalente à subordinação do eterno ao transitório, da essência à aparência. [11]
Neste ponto, embora reconheça as grandes contribuições de Agostinho à reflexão teológica, o Bispo de Hipona foi infeliz e nada bíblico. A resultante desse discurso é que o corpo - e as coisas do corpo - foram identificados com a sa,rx [sarks: carne] paulina.  O corpo, “templo do Espírito” (I Aos Coríntios 6.19-20), portanto belo, tornou-se algo feio e ruim. Um animal feroz a ser dominado e subjugado.[12] No entanto, é essa a compreensão bíblica da corporalidade? Se sim, por que Paulo proclama em alto e bom som que o que ressuscita é o corpo e não a alma? São as coisas do corpo, coisas da sa,rx [sarks]? A Escritura Sagrada testemunha que o corpo é bom. O Eterno, após criar o ser humano, viu que era “muito bom” (טֹוב מְאֹד - Gênesis 1.31). Em Gênesis 2.7,22, Deus, como um artesão, com suas próprias mãos, cria e dá forma ao corpo humano. Ainda, o corpo é tão belo que há um livro que canta a sua beleza: Cântico dos Cânticos. Em Jesus, os corpos doentes e possuídos por demônios são curados e dignificados: há vários relatos de cura no Novo Testamento. O evangelista João, rebatendo os gnósticos docetas, afirma que Deus mesmo, a PALAVRA, encarnou-se, literalmente, “armou tendas”, assumindo nossa humanidade (João 1.14): por isso, os cristãos celebram o Natal – a Festa da Encarnação.
É assim: neste corpo tão pequeno, tão efêmero, vive um universo inteiro, e, se ele pudesse, bem que daria a sua vida pela vida do mundo. No nosso corpo se revela o desejo de Deus. Afinal de contas, o que nos segreda a doutrina da encarnação é que Deus, eternamente, quis ter um corpo como o nosso. Você já pensou nisto? Que no Natal o que se celebra é o nosso corpo, como coisa que Deus deseja.[13]
Em Paulo, a ressurreição do corpo é celebrada com alegria e de forma antecipada. Veja que bela letra, de uma antiga canção cristã, que o Apóstolo das Nações registra em uma de suas cartas: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. (I aos Coríntios 15.54-57). Nele, o corpo é chamado de “templo do Espírito” (I aos Coríntios 6.19-20), “Corpo-Casa-Cosmos”[14], local onde Deus habita. Por isso, a exortação para que não o coisifiquemos (I aos Coríntios 6.13-15). Na teologia paulina, já participamos da ressurreição do corpo através do Batismo (Aos Romanos 6.1-14) e, por ele, somos imersos no Corpo de Cristo: a sua Igreja (I aos Coríntios 12.12-31). Quanto à confusão dos termos corpo e sa,rx [sarks] (carne), presente no neoplatonismo agostiniano, faz-se necessário um esclarecimento. A palavra sa,rx, quando contrastada a Espírito, expressa a idéia de “desejo egoísta” (cf. aos Gálatas 5.16-21; aos Romanos 8.1-11). Eis o motivo de Paulo, na parte final de aos Gálatas 5.26, exortar os crentes da Galácia a que “não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros”. Portanto, os desejos da sa,rx nada tem a ver com os desejos do corpo. E mais, Paulo, como bom judeu, compartilha da idéia de que o corpo (sw/ma: sôma) designa o ser humano todo, indivisível.
O fato de que sw/ma pode designar o corpo bem como o ser humano todo, a pessoa, baseia-se num modo de pensar corrente no AT (onde vale a mesma coisa para rfb [baśar]), bem como no judaísmo. Esse modo de pensar se compreende a partir do fato de que, para o ser humano, o corpo não é uma coisa como os objetos do mundo exterior, mas justamente o seu corpo, que lhe é dado e ao qual está entregue. É em seu corpo que ele faz tanto a experiência primária de si mesmo, quanto se depara com sua sujeição a poderes estranhos em primeiro lugar em sua dependência corporal deles.[15]
Em outras palavras, Paulo, em seu ensino sobre a ressurreição do corpo, destoa do discurso dualista, presente, até hoje, na nossa herança cristã agostianiana e reformada:
Portanto, Paulo não distinguiu, de modo dualista, o eu do ser humano (a “alma”) do sw/ma corporal como um envoltório que não lhe é adequado, como uma prisão, e sua esperança não vai no sentido de uma libertação do eu da prisão do corpo, mas no sentido da ressurreição somática ou da transformação do sw/ma sujeito à sa,rx em um sw/ma pneumático, isto é, governado pelo pneu/ma [pneuma: Espírito]. Assim como a salvação em relação ao sw/ma tou/ qana,tou [corpo da morte], esperada ansiosamente em Rm 7.24, significa a liberação em relação à sa,rx [...], assim a avpolu,trwsij tou/ sw,matoj [redenção do corpo], esperada em Rm 8.23 – caso não se tenha em mente a redenção do corpo, e sim realmente na redenção em relação ao corpo - , é a redenção em relação ao corpo sárquico, isto é, à sa,rx.[16]
Finalizando, os cristãos já podem celebrar, como nova humanidade redimida em Cristo, a Ressurreição do Corpo: corpo livre do poder do eu, homo festivus, porém.
PERGUNTAS ORIENTADORAS:
1) Qual é a razão de a festa do Carnaval antecipar a quadra da Quaresma no nosso calendário? Qual é a sua motivação pedagógica?
2) Qual é a relevância, para a prática cristã, a imagética de um Deus que dança?
3) “Não só a alma do mal salvar / Também o corpo ressuscitar”: corpo e corporalidade como desafios à missão da Igreja



[1] COX Harvey. A festa dos foliões: um ensaio teológico sobre festividade e fantasia. Petrópolis: Vozes, 1974, p.11.
[2] HAMILTON, Victor P. rwp (pûr) sorte. In: HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR, Gleason L; WALTKE, Bruce K (Orgs.). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. Tradução de Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvaldo C. Pinto. 2. Ed. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1208.
[3] BÍBLIA SAGRADA – Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Introduções, notas e vocabulário: Johan Konings. São Paulo: Loyola, 2002, p. 542.
[4] YOUNG, William P. A cabana.Rio de Janeiro: Sextante, 2008, p. 80-81.
[5] SOUZA, Rômulo Cândido. Palavra, parábola. Uma aventura no mundo a linguagem. São Paulo: Editora Santuário, 1990, p. 35.
[6] Paul Ricoeur popularizou como os três “mestres da suspeita”: Nietzsche, Freud e Marx. Eles foram os descobridores dos novos “continentes” (Althusser) sobre os quais se assenta o específico da modernidade.
[7] Recomendo a leitura: NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Nova Cultural, 1999, (Coleção Os Pensadores).
[8] Palavra grega cujo significado é má notícia. Cf. QUEIRUGA, Andrés Torres. Do terror de Isaac ao Abba de Jesus. Por uma nova imagem de Deus. São Paulo: Paulinas, 2001.
[9] SOUZA, op. cit., 36.
[10] COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas.São Paulo: Saraiva, 2000, p. 97
[11] Op. cit., p. 119.
[12] Essa compreensão agostiniana de descaso com o corpo é que possibilitou, de certa forma, tanto na sociedade escravagista como na industrial-capitalista, a exploração do corpo, sua comercialização e total desvalorização. Segue uma citação: Pensamos encontrar Deus onde o corpo termina: e o fizemos sofrer e o transformamos em besta de carga, em cumpridor de ordens, em máquina para o trabalho, em inimigo a ser silenciado, e assim o perseguimos, ao ponto do elogio da morte como caminho para Deus, como se Deus preferisse o cheiro dos sepulcros às delicias do Paraíso. E ficamos cruéis, violentos, permitimos a exploração e a guerra. Pois se Deus se encontra para além do corpo, então tudo pode ser feito ao corpo. In: ALVES, Rubem. Creio na ressurreição do Corpo. Meditações. São Paulo: Paulus, 1984, p.8.
[13] ALVES, op. cit., p. 7.
[14] A expressão “Corpo-Casa-Cosmos” foi empregada por Mircea Eliade e, a cito, por entender que tal terminologia poderá nos auxiliar no aprofundamento da idéia do corpo como templo de Deus: espaço do Sagrado. Cf. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 141.
[15] BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2004, p. 252.
[16] Idem, op. cit., 257-258.