quarta-feira, 7 de março de 2012

8 de março- dia de festa e comemoração ou dia de luta?[1]


“Para a liberdade Cristo nos libertou! Ficai, pois, firmes e não vos curveis de novo sob o jugo da escravidão” ( Gl 5.1)

Introdução

O ano de 1975  foi  adotado pela Organização das Nações Unidas - ONU como Ano Internacional da Mulher. Com isto, pretendeu-se chamar a atenção dos países para as situações de opressão e exclusão vividas pelas mulheres em diferentes partes do mundo. A partir de 1977, a ONU foi mais longe, estabelecendo o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Desde então, essa data é celebrada em todo o mundo tanto de maneira festiva, lembrando as conquistas sociais e econômicas alcançadas pelas mulheres ao longo da história, quanto em forma de protesto, reivindicando novas conquistas e a ampliação das que já foram alcançadas e denunciando formas de opressão que ainda persistem.
No entanto, o que muitas vezes se esquece é que essa história é bem mais antiga. Ela tem ínicio nas lutas das mulheres socialistas que, entre fevereiro e março de 1900, na Rússia, Europa e Estados Unidos, lutavam por  melhores condições de vida e de trabalho. Para tanto, essas mulheres, organizadas em grupos locais ou movimentos de maior amplitude, lideraram greves, manifestações e enfrentamentos. Durante a 1ª Guerra Mundial, em 1917, as mulheres socialistas russas, de acordo com o seu calendário, realizaram, no dia 23 de fevereiro, o Dia da Mulher. No calendário ocidental essa data correspondia ao 8 de março.[2]
Antes disso, dois outros fatos importantes, acontecidos em Nova York, marcaram a história do movimento de libertação das mulheres:
- O primeiro foi uma longa greve de costureiras, que durou de 22 de novembro de 1909 até 15 de fevereiro de 1910;
- o segundo aconteceu em 1911, quando um incêndio, numa fábrica têxtil, devido às péssimas instalações, causou a morte de 146 tecelãs. As portas da fábrica estavam fechadas para que elas não se dispersassem na hora do almoço.
Como se vê, as mulheres conquistaram seu espaço na sociedade com muitas lutas, mortes e prisões. Nada foi fácil! Graças ao esforço e à coragem de mulheres do passado, hoje temos conquistas a celebrar; e que bom que as temos. Por outro lado, alguns índices revelam que ainda temos muito por que lutar. Em certas profissões, mulheres continuam recebendo menores salários que os homens, mesmo quando as funções são as mesmas. Elas seguem acumulando dupla jornada de trabalho, já que muitas trabalhadoras, ao voltar da jornada de trabalho, ainda precisam realizar as atividades domésticas, por não contarem com a parceria dos seus companheiros. São muitas as situações em que a mulher precisa faltar ao trabalho para acompanhar os filhos ao médico ou a reuniões de escola. Isso indica que a noção de paternidade e maternidade ainda preserva resquícios patriarcais, cabendo à mulher a tarefa do cuidado.
A dignidade e a garantia de direitos para as mulheres ainda estão longe de serem plenas. Ainda há muito a superar. Aqui, no entanto, nos restringiremos a abordar algumas questões relacionadas com a violência doméstica contra as mulheres. Essa talvez seja uma das questões que mais evidenciem a continuidade da influência do patriarcalismo, mesmo na sociedade do século XXI. Além de apresentar alguns dados e experiências relacionadas com esse tema, queremos dar algumas sugestões de como as igrejas podem contribuir para transformar essa situação.

Dados da realidade
Quando moramos em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, tivemos o privilégio de trabalhar com as Promotoras Legais Populares- PLPs, capacitadas pelo Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria – CECA. Essas mulheres estão geralmente engajadas em algum movimento popular; algumas são líderes de comunidades eclesiais. Para realizar o trabalho voluntário de PLP, essas mulheres recebem uma formação em direitos humanos, especialmente em direitos das mulheres e legislação. Depois dessa formação, atuam na prevenção à violência doméstica e no acompanhamento de pessoas que sofrem esse tipo de violência.
Muitas PLPs são oriundas de igrejas, onde desenvolvem trabalhos junto a grupos de  mulheres. Na medida em que recebiam a capacitação no curso de PLPs, começaram a apontar algumas questões intrigantes relacionadas à participação das mulheres nas igrejas. Elas apontavam aspectos como:
- Em muitas igrejas, as mulheres ainda sofrem discriminação. Embora, na maioria das comunidades eclesiásticas, as mulheres participem em maior número do que homens, sua atuação é direcionada para trabalhos de limpeza, arrumação, campanhas para angariar recursos. Além disso, são incentivadas a trabalhar com o ensino e a catequese. Apesar da disposição das mulheres de trabalhar comunitariamente, ainda lhes é negada a ordenação, em certas igrejas. Em igrejas que ordenam mulheres, os salários de pastoras são, muitas vezes, inferiores aos salários dos colegas pastores, pois existe a compreensão de que o salário da mulher é meramente “complementar”. Em outros casos, os trabalhos pastorais de tempo parcial são destinados a pastoras, reproduzindo a lógica de que o provedor é o marido, sendo, portanto, ele quem deve receber o salário maior.
- Constataram também o despreparo de lideranças eclesiásticas (pastores, padres e até mesmo pastoras) para lidar com uma mulher em situação de violência. Em muitos casos, o discurso utilizado é o de que cabe à mulher garantir a unidade da família. Por isto a liderança aconselha que a mulher seja compreensiva com o seu companheiro, se esforce para ser boa esposa e boa mãe, mesmo que, em alguns casos, isso signifique suportar diversas formas de violência.

As observações das PLPs não são meras constatações ocasionais, mas refletem a situação atual da violência contra as mulheres nos seus mais variados aspectos: doméstica, física, sexual, psicológica, econômica, moral e institucional. Seguem alguns dados estatísticos:

- Segundo a Organização Mundial de Saúde, a violência é a maior causa de morte de mulheres entre 16 e 44 anos. [3]
- Segundo dados do Conselho Europeu, divulgado pela Anistia Internacional, a violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos; ela mata mais do que câncer e acidentes de trânsito.[4]
- No Brasil,  2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano, 5.800 por dia, 243 por hora, quatro por minuto e uma a cada 15 segundos.[5]

Onde estão essas mulheres? Quem são elas? Nossa tendência é imaginar que são mulheres muito distantes de nós. Lembramos de alguns casos que vimos pela televisão e podemos até citar alguns nomes. Mas os dados estatísticos nos levam a ter que admitir que muitas delas estão sentadas nos bancos das nossas igrejas, escondendo a mancha roxa do braço, inventando uma desculpa para o olho machucado ou escondendo hematomas, cicatrizes e tristezas com maquiagem forte, sentindo terríveis dores de cabeça e sofrendo de insônia. Estão  doentes  de corpo e de alma e estão pedindo socorro em silêncio.
Diante disso, é importante perguntar: as igrejas podem ajudar a romper esse ciclo de violência? Como se pode ajudar? Como se podem romper discursos normativos, conservadores e patriarcais, que, além de ajudar a manter as mulheres em estado de submissão, ainda lhes atribui a culpa?

A postura que as igrejas poderiam assumir diante da violência contra a mulher

A história da Igreja nos revela que a instituição eclesiástica, enquanto organização histórica e politicamente posicionada, muito contribuiu para justificar e legitimar a submissão da mulher ao homem. A Bíblia, infelizmente, foi um dos instrumentos utilizados para esse fim. Muitos textos foram lidos de maneira fundamentalista para legitimar ideologicamente determinadas formas de relações sociais e interpessoais. Ainda hoje, não são raras as reflexões que destacam unilateralmente os textos bíblicos que falam da submissão da mulher ao marido. Esses textos, lidos de maneira descontextualizada e fundamentalista, são utilizados para reforçar a imagem de que uma boa mulher é aquela que se doa e se dedica única e exclusivamente à família. Uma mulher exemplar é aquela  que não tem autonomia nem sonhos nem desejos. Como exemplo dessa afirmação trazemos “Os dez mandamentos da esposa sábia[6]”, escritos por um pastor que não identifica a sua denominação. Cada preceito é fundamentado com versículos bíblicos. Segundo esse “decálogo”, cabe à esposa:
1.      Ser sempre zelosa (Pv 31.27);
2.      Estar sempre pronta para receber o esposo (Pv 18.22);
3.      Dar honra ao esposo (Ec 1.20 [Sic!] Pv 31.23);
4.      Ser sempre econômica (Pv 14.1);
5.      Sempre mostrar um sorriso confiante (Pv 31.11);
6.      Sempre conhecer o orçamento do esposo (Pv 31.27);
7.      Sempre revelar ao marido os fatos do dia (1 Tm 3.11);
8.      Na ausência do marido, não assumir nenhum compromisso (Pv 31.11 -12);
9.      Na medida do possível, fazer a refeição que o esposo gosta (Gn 27.4);
10.  Sempre compreender o seu esposo, ainda que ele tenha algumas falhas (Pv 31.28-29).
Porém, se, por um lado, há textos utilizados para legitimar e reafirmar a submissão da mulher, existem, por outro lado, muitos textos bíblicos que mostram como Deus agiu na história para libertar mulheres e homens de situações de opressão e de morte, como no caso da mulher adúltera (João 8.1-11) e da cura de uma jovem adivinhadora explorada pelos patrões (At 16,16-18). Por outro lado, há inúmeras histórias de mulheres que exerceram papel de liderança, por exemplo, no Antigo Testamento, as parteiras do Egito (Ex 1.15-22), Zípora (Ex 4,24-26), a profetisa Débora (Jz 5s), as filhas de Zelofeade (Nm 27), e, no Novo Testamento, entre outras, as histórias de Lídia, a primeira pessoa com quem o apóstolo Paulo entrou em contato na Macedônia e que abrigou em sua casa a primeira comunidade paulina em solo europeu (At 16.11-15,40),  e de Priscila, que, com seu marido, fez o trabalho de edificação da comunidade de Éfeso (At 18.18-19,26).
A partir disso, conclui-se que a primeira atitude das igrejas com vistas a contribuir para a superação da violência contra a mulher é a de revisar e atualizar sua teologia para detectar discursos e linguagens patriarcais e sexistas.
Um segundo aspecto a considerar é que, mesmo quando igrejas ordenam mulheres ao pastorado, as pastoras nem sempre têm as mesmas condições de trabalho que seus colegas pastores. Há pastoras que receberam, de suas igrejas, propostas para o exercício de um “pastorado voluntário”, já que, por serem casadas, poderiam abrir mão de seu salário de obreira. Em alguns casos, a ordenação de mulheres é utilizada apenas para mostrar quão aberta é uma igreja.
Em terceiro lugar, deve-se começar a tornar públicos os casos de violência que acontecem em nossa volta. Lembremos de Tamar, que, após ser violentada pelo irmão, rasgou suas vestes e colocou as mãos na cabeça em sinal de luto e saiu gritando para desmascarar o filho do rei e tornar pública a sua vergonha (2Sm 13.19). Deve-se acabar com a ilusão de que matrimônio cristão é um matrimônio perfeito. Também matrimônios cristãos estão sujeitos ao pecado e somente a confissão do pecado pode conduzir ao perdão e à reconciliação.
Básico é reconhecer que todo e qualquer tipo de violência é um atentado contra a dignidade humana e um insulto contra Deus, pois também a mulher é “imagem de Deus”.

Seguem algumas dicas práticas para as comunidades:
n  Oferecer espaços seguros onde mulheres que sofrem violência possam buscar apoio, acolhida e orientação;
n  Criar espaços educativos sobre prevenção e combate à violência de gênero;
n  Fazer parceria com organizações que trabalham  contra a violência de gênero;
n  Capacitar sua liderança através de estudos da temática da violência sexista sob a ótica das diversas abordagens, bíblica, teológica, antropológica e sociológica;
n  Não permitir o uso de textos ou linguagem que legitimem qualquer tipo de violência contra a mulher;
n  “Meter a colher” sempre que estiver diante de qualquer tipo de violência;
n  Participar de espaços de discussão ou reflexão sobre a questão;
n  Conhecer organizações de atendimento e apoio a pessoas em situação de violência;
n  Conhecer e divulgar a rede de serviços do município que atendem mulheres que sofrem violência;
n  Encaminhar e se preciso  acompanhar vítimas de violência para que façam a denúncia

As igrejas podem fazer muito mais do que “orar”. “Orar é importante porque conforta e a gente não se sente tão sozinha”, dizia uma das PLPs. Mas oração e ação precisam andar de mãos dadas, como na parábola de Jesus sobre o exemplo da viúva que incomodou tanto o juiz até que sua causa fosse julgada (Lc 18.1-8).

Embora a sociedade de consumo queira transformar o dia 8 de março em data comemorativa para poder vender flores e perfumes e encher restaurantes para jantares comemorativos, este dia continua sendo, para nós, um dia de luta, reivindicação e reflexão. Embora tenhamos conquistado espaços importantes na sociedade e ocupemos alguns cargos de importância também na igreja, os dados estatísticos falam por si: ainda há muitas mulheres expostas a todo tipo de violência, ainda há mulheres sendo oprimidas e homens achando que mulheres são propriedades, e lamentavelmente muitas religiões continuam ensinando que as mulheres devem ser submissas a seus pais, irmãos e maridos. Enquanto perdurar  essa situação, o 8 de março será também um dia de protesto e sinal de continuidade de nossa luta!

                                    Sônia Gomes Mota- Pastora da IPU
                                    Romi Márcia Bencke- Pastora da IECLB


DISQUE 180 e denuncie qualquer tipo de violência contra a mulher. A ligação é gratuita e pode ser feita de forma anônima!

Bibliografia

- Autores diversos. A Bíblia e as mulheres. Série A Palavra na Vida, nº 16, CEBI, 1989.
- BENCKE, Romi; CORNAGLIA, Graciela, MOTA, Sônia; VIAU, Sandra. Tramando contra a violência de Gênero. CECA. São Leopoldo, 2007.
- CORNAGLIA, Graciela Patrícia. Org. Cartilha de Prevenção à violência contra as mulheres. CECA,  São Leopoldo, 2010
- FEDERAÇÂO LUTERANA MUNDIAL. As igrejas dizem não à violência contra a mulher. Departamento de Missão e Desenvolvimento. - Mulher na Igreja e Sociedade. 2002
- PEREIRA, Nancy Cardoso. Maria vai com as outras- mulheres libertárias libertadoras da Bíblia. Série A Palavra na Vida, nº 114, CEBI,  São Leopoldo, 1997
_______________________. Remover pedras, plantar roseiras, fazer doces. Por um ecossocialismo feminista. CEBI, São Leopoldo,  2009
de Souza, Sandra Duarte. Org. Gênero e Religiões no Brasil: ensaios feministas. UMESP, São bernrdo do Campo, 2006.


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[1] Este texto foi escrito a partir do subsídio de formação para Igrejas e Seminários intitulado: Tramando contra a violência de Gênero nas Igrejas”  desenvolvido pelo CECA – Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria.   
[2] Nancy Cardoso Pereira. Remover Pedras, plantar roseiras, fazer doces- por um ecossocialismo feminista. Pg.7
[3] OMS. Informe sobre Violência e Saúde 2002. disponível em HTTP://copodeleite.rits.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/dadospesquisas.shtml

[4] Relatório da Anistia Internacional disponível em: http://cozinhadamatilde.com.br/2009/11/longa-vida-a-las-mariposas/
[5] Fundação Perseu Abramo. Violência contra a mulher, disponível em http/200.130.7.5/spmu/docs/pesq_violênciacontraamulher.pdf

sábado, 28 de janeiro de 2012

Dízimo: uma confissão de fé

“Duas coisas te peço, meu Deus;  não me as negues antes que eu morra:
afasta de mim a falsidade e a mentira;
não me dês nem a pobreza nem a riqueza;
dá-me o pão  que me for necessário;
para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: “Quem é o Senhor?
Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus. Amém!”
(Provérbios 30.7-9)

Introdução

Falar em dinheiro e em contribuição nas nossas igrejas pode causar constrangimento e até aborrecimento. Mas, ainda que muitas pessoas se sintam desconfortáveis com esse tema, é preciso encará-lo e procurar compreendê-lo dentro da tradição bíblica.
No contexto de pluralismo religioso brasileiro, temos assistido inúmeros discursos geralmente de igrejas que entendem a prática do dízimo como uma negociação com Deus a, ou seja, eu pago o dízimo a Deus e, em troca, recebo bênçãos e prosperidade na minha vida. Esse discurso está relacionado com uma teologia que chamamos de “Teologia da Prosperidade”. Cabe, nesse contexto, resgatar o significado bíblico do dízimo, em especial no Antigo Testamento (AT), e tentar atualizá-lo para as nossas comunidades de fé.

Origem e dimensões do termo

O termo dízimo (em hebraico ma’aser) significa a décima parte de alguma coisa. No contexto bíblico o termo tem, pelo menos, duas dimensões: em primeiro lugar, a dimensão da gratidão a Deus pelo que nos foi dado, celebrada festivamente na comunidade de fé; e, em segundo lugar, a dimensão do compromisso  ético, ou seja, o compromisso do cuidado com a vida, as relações justas, a terra, a comunidade e com Deus.

Significado do dízimo no Antigo Testamento

Vamos encontrar, no AT, diversos textos sobre a prática do dízimo. Como não é possível, neste espaço, um estudo aprofundado, contentamo-nos em apontar alguns textos representativos, deixando ao leitor e à leitora a tarefa de se aprofundar em conjunto com a sua comunidade de fé.

1. Gratidão pela vitória (Gn 14). Após vencer diversos reis, Abraão foi abençoado por Melquisedeque, o sumo sacerdote e, ao mesmo tempo, rei de Salém (=Jerusalém). E, em reconhecimento de que tudo que havia conquistado fora graça de Deus, Abraão oferece o dízimo. Abrão tinha consciência de que nada do que havia conquistado era dele, mas tudo pertencia a Javé.

2. Gratidão pela bênção de Deus (Gn 28.1-22). No lugar sagrado de Betel (=casa de Deus), Jacó sonhou que Deus estava presente justamente nesse lugar onde, mais tarde, foi construído o santuário de Betel, para o qual peregrinavam as pessoas em busca da bênção divina, em especial, de terra fértil, colheitas fartas e descendência. Nesse contexto, o dízimo a ser levado ao santuário representava gratidão por todos os bens recebidos através da bênção divina. Tudo vem de Deus, é justo que demos a ele parte do que recebemos.

3. Entregar a Deus o que é de Deus (Lv 27.30-32). O livro de Levítico reúne as mais diversas leis da época, a maioria delas sobre sacrifícios, sacerdotes e coisas puras e impuras, ou seja, leis importantes somente para a sua época. A lei do dízimo confessa que tudo temos vem de Deus e que, portanto, devemos dar a ele o que, no fundo, é dele. 

4. Sustento dos trabalhadores e do serviço do templo (Ne 13.10-14). Os levitas eram as pessoas que se dedicavam ao trabalho religioso nos santuários. Os levitas deveriam receber seu sustento do dízimo levado ao templo. Na época de Neemias, os levitas abandonaram o serviço no templo porque tinham que buscar o seu sustento em outras atividades. Para restaurar os serviços religiosos, Neemias teve que restabelecer o pagamento do dízimo. Isto mostra que os dízimos sustentavam as pessoas que trabalhavam no serviço religioso da comunidade (cf. 2 Cr 31.2-10).

5. Partilhar a alegria da festa e cuidar dos necessitados (Dt 14.22-29). Esse texto traz duas concepções importantes sobre o dízimo. Em primeiro lugar, o dízimo era levado ao templo e consumido comunitariamente no lugar de culto. Predomina o ambiente festivo. Toda a família, inclusive escravos e escravas, participava da festa. O texto mostra que o dízimo é compartilhado em alegria. Em segundo lugar, a cada três anos, o dízimos era reunido guardado em cada aldeia para socorrer as pessoas necessitadas do lugar: órfãos, viúvas, estrangeiros e levitas carentes.

No Antigo Testamento, portanto, o dízimo é basicamente uma contribuicäo regular para o sustento dos que trabalham no templo. Na origem, ofertava-se, como diz o termo, 10% da producäo agrícola e pastoril. Com o decorrer do tempo, no entanto, essa contribuicäo regular se tornou um tanto flexível, näo mais perfazendo todos os 10% da producäo total, ou seja, da receita total da família. Mas permaneceu o objetivo básico: manter o trabalho regular do santuário.

Ao lado do dízimo, havia, no Antigo Testamento, as ofertas esporádicas em forma de sacrifícios com as mais diversas finalidades (primícias, sacrifícios de comunhäo ou de agradecimento, oferendas para expiacäo de culpa, etc.). Esses sacrifícios esporádicos receberam um novo significado no Novo Testamento e na igreja cristä. Essas ofertas, também chamadas de coletas, passam a ser recolhidas, na antiga igreja cristä, para ajudar outras comunidades que se encontram em dificuldades. Exemplo clássico é a coleta que Paulo recolhe nas comunidades gregas para ajudar os pobres de Jerusalém (1 Co 16.1-4; 2 Co 8-9). Essas ofertas formam um elo de comunhäo entre as comunidades. 

Indicações práticas para os nossos dias

Com preocupação ouvimos que membros da igreja, alguns até em funções ministeriais, säo contra o dízimo ou, entäo, demonstram pouco interesse no assunto. Pessoalmente entendo que o dízimo é uma confissão de fé. A confissäo de que Deus é criador, sustentador e mantenedor da vida nos constrange a que demonstremos isso na prática. Expressäo prática säo, entre outros, o culto que prestamos a Deus, o ensino religioso que prometemos dar aos nossos filhos, a tarefa de pregar o Evangelho e de cuidar dos necessitados da comunidade. E esse trabalho só pode ser realizado com a contribuicäo regular dos membros, pois nem todas as tarefas podem ser realizadas somente com trabalho voluntário. Há necessidade de pessoas que se dediquem para além do que é trabalho voluntário, a fim de que as atividades da Igreja possam ser realizadas de forma adequada. A subsistência de pastores e pastoras näo é a única finalidade do dízimo, ou seja, da contribuicäo regular. O dízimo também sustenta toda a missäo da igreja, desde a realizacäo de cultos e o ensino religioso até a manutencäo do templo e os projetos sociais e diaconais da igreja. Sem o dízimo a missão da igreja pode estar ameaçada.
   
Há muitas formas de contribuir: com tempo, talentos e, näo por último, com dinheiro. Importante é não fazer do “dízimo” uma lei no sentido de exigir que cada pessoa ou família contribua com exatamente 10% de sua renda para o trabalho da Igreja. Como cristäos näo podemos ser legalistas. Importante, no entanto, é contribuir regularmente com uma parcela do rendimento, de acordo com as condicöes de cada membro. Cada pessoa deveria poder estabelecer para si a faixa do dízimo adequada à sua sitacäo.
   
Sem dúvida alguma, é extremamente importante organizar, planejar e administrar corretamente o dízimo ou a contribuição regular em nossas igrejas. A realização de uma clara prestação de contas mensal ou anual é de fundamental importância. As pessoas encarregadas de dirigir a comunidade precisam prestar contas do dinheiro que administram e devem fazê-lo com todo zelo e a máxima transparência, sem deixar qualquer margem de dúvida. Não esqueçamos de que quem administra o dinheiro da igreja está administrando doações, contribuições, dízimos de pessoas que entregam este dinheiro à Igreja em sinal de gratidão e reconhecimento de que ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela contém.
No ano que se inicia levemos o nosso dízimo ao altar, não buscando, com isso, uma bêncäo pessoal especial como rendimento de nosso investimento financeiro. Levemos o nosso dízimo ao altar com a convicção de que ele será fundamental para a missäo de Deus no lugar em que ele nos colocou. A Ele toda honra e glória!
 
                                                                                                          

                                                         ( Revda Sônia Mota)


Bibliografia

RODOLPHO, Adriano; ESPERANDIO, Mary Rute Gomes e KILPP, Nelson. Verbete- Sacrifício, p. 894-896. In:Dicionário Brasileiro de Teologia. ASTE, São Paulo, 2008.

DREHER, Carlos A. A medida do coração: encontros bíblicos sobre dízimos, ofertas e solidariedade. São Leopoldo: CEBI/CONTEXTO, 2009. Série A Palavra na Vida, n. 260.

ULRICH, Claudete Beise. Dízimo no Antigo Testamento: fidelidade a Deus, princípio de solidariedade e justiça social (texto ainda inédito)

sábado, 24 de dezembro de 2011

As corajosas mulheres da genealogia de Jesus


Confesso que sempre achei muito cansativo e monótono ler os capítulos da Bíblia que contêm genealogias. Aquelas listas intermináveis de nomes, informando quem gerou quem e, raras vezes, “quem pariu quem”. Imagino que muitas pessoas possam ler essas genealogias em busca de algum nome para colocar em uma criança que vai nascer. Mas, se as genealogias estão lá é porque devem ter alguma função. Geralmente se diz que elas têm uma função legitimadora, ou seja, elas buscam legitimar o status social, étnico ou de nobreza de uma pessoa, mostrando que ela descende de ancestrais nobres, ilustres ou pertencentes a uma determinada etnia. As genealogias também mostram que a vida de cada pessoa está inserida dentro de um grande contexto familiar e que tem toda uma história que a determina.
Uma das genealogias que mais chama atenção é a de Jesus. Os evangelistas Mateus e Lucas, que escrevem sobre os ancestrais de Jesus,  trazem genealogias distintas. Enquanto Lucas segue a estrutura patrilinear e cita apenas os homens; Mateus, embora também siga a mesma estrutura, inclui o nome de cinco mulheres, o que configura algo incomum.  E que mulheres! Tamar, Raab, Rute, Betsabéia e, naturalmente, Maria. Com exceção de Maria, todas essas mulheres são estrangeiras. Além disso, para muitas pessoas, essas mulheres tiveram um comportamento questionável. Afinal, Tamar se vestiu de prostituta e enganou o sogro para com ele ter filhos; Raab é designada expressamente de prostituta; Davi forçou Betsabéia a ter um caso extraconjugal com ele e a engravidou;  Rute elaborou, juntamente com a sogra, um plano para reaver seus direitos; e Maria... bem, Maria ficou grávida e o pai da criança não era seu noivo! Que antepassados!!    

Mas por que essas mulheres estão na genealogia de Jesus?

Mateus deve ter tido suas razões para introduzir o seu evangelho justamente com essa genealogia. À primeira vista, pode-se afirmar que Mateus tinha duas intenções: em primeiro lugar, ele quer mostrar que, como descendente de Abraão (Mt 1,1), Jesus pertencia ao povo de Israel. Em segundo lugar, como descendente de Davi (Mt 1,6), ele também era o Messias esperado.

E as mulheres? O que elas nos querem revelar? As mulheres não podem ter tido a função de, como mães, garantir a origem judaica da descendência, ou seja: judeu é o nascido de mãe judia, pois das mulheres da genealogia pelo menos três são estrangeiras. Talvez uma rápida olhada na vida dessas mulheres possa nos esclarecer o porquê da sua presença na genealogia de Jesus.

 Tamar: Chega de decidirem por ela!

Encontramos a história de Tamar em Gênesis 38. Ela era uma mulher arameia que se casou com Her, o filho mais velho de Judá. Como o esposo morreu sem deixar filhos, ela deveria, de acordo com a lei do levirato (Dt 25), casar com Onã, o irmão mais velho do marido falecido. Mas este derramava, na hora do orgasmo, o sêmen na terra, pois sabia que, se gerasse um filho em Tamar, a criança seria considerada filho de seu irmão falecido, constituindo-se, portanto, em um herdeiro a mais. Também Onã morre. Conforme a lei, agora o terceiro irmão, Sela, deveria desposar Tamar para continuar a descendência do marido falecido. Mas Judá, com medo de perder mais um filho, devolve Tamar para o pai dela.
Tempos depois, ao saber que Judá voltaria a passar pela sua aldeia para tosquiar ovelhas, Tamar elabora um plano para garantir seus direitos e os de seu falecido marido. Ela se disfarça e vai ao encontro de Judá que, pensando tratar-se de uma prostituta, aceita deitar-se com ela. Porém Tamar sabe com quem está lidando; ela precisa precaver-se. Por isso, quando Judá promete pagar os seus serviços com um cabrito, ela lhe pede como penhor o selo, o cordão e o cajado do sogro. Ao enviar o cabrito como pagamento, os homens de Judá não encontraram mais a mulher.
Três meses depois, ao ser informado da gravidez de Tamar, o patriarca Judá exige que ela seja queimada. Pois, conforme a lei, mesmo tendo sido devolvida ao pai, Tamar não podia relacionar-se com outro homem que não da família de seu falecido marido. Mas Tamar se havia precavido e revela que o pai da criança era o dono do selo, do cajado  e do cordão. Assim, o fato não se configurava como adultério ou traição. A Judá não restou outra alternativa a não ser reconhecer Farés e Zara, os gêmeos que nasceram daquela gravidez, como filhos de Her.
A atitude de Tamar revela uma mulher corajosa e paciente, que soube lutar contra o descaso e a violência estrutural a que as viúvas eram submetidas na sociedade israelita. Cansada de submeter-se às decisões que outros tomavam sobre a sua vida, ela soube esperar o momento certo para tomar as suas próprias decisões e fazer cumprir a lei.

Raab - a mulher que fez a opção de se aliar à luta pela conquista da terra.

Além de estar presente na genealogia de Jesus, Raab  também aparece, juntamente com Sara, em Hebreus 11, como exemplo de heroína da fé. Raab e Sara são as únicas mulheres mencionadas nessa relação do livro de Hebreus.
Como ainda acontece hoje, na época, a prostituição era exercida por mulheres que precisavam ganhar o seu sustento. Em geral, a sociedade aceitava essa profissão. A profissão não era regulada por códigos legais ou morais. Às vezes, prostitutas dividiam uma mesma moradia. Além disso, era comum que prostitutas também oferecessem serviço de hotelaria. Compreende-se, então, por que os espias de Israel buscaram pouso na casa de Raab, em Jericó (Js 2,2).
Além disso, o texto afirma que a casa estava construída na muralha da cidade e possuía um terraço, a partir do qual se podia observar bem a movimentação dos que entravam e saíam da cidade. Em nenhum momento se diz que Raab foi obrigada a ajudar os espias; ela faz a opção de ajudá-los. Não só os escondeu, mas também arriscou sua vida ao mentir para o rei dizendo não saber onde os homens haviam ido. Raab adere, portanto, ao projeto israelita de tomar a terra, confessa que Javé é o mais poderoso dos deuses e pede proteção para a sua família. O cordão escarlate torna-se o símbolo do acordo entre Raab e os espias israelitas; é ele que vai proteger a família dela por ocasião da invasão. Esse símbolo lembra o sangue do cordeiro pintado nas portas dos israelitas, que protegeu, no Egito, o povo de Israel da morte. Graças à sua independência, Raab pôde ajudar os israelitas a concretizar o projeto de conquista da terra.  

Rute - a sabedoria de mulheres para defender a vida dos pobres.

A moabita Rute teve um papel tão importante na história de Israel que, mesmo sendo estrangeira, recebeu um livro com seu nome. Mulher, estrangeira, viúva e pobre - essa era Rute. A sua história começa em Moabe, um país vizinho de Israel, onde vivia e onde se casou com um israelita, que, juntamente com o pai, a mãe e um irmão, imigrara para aquelas terras por causa de estiagem e fome na pátria. Mas a morte bateu na porta daquela família e todos os homens morreram, deixando três viúvas, pobres e sem herdeiros. Noemi retorna, então, a Belém e leva consigo a sua nora Rute. Inicia aí uma história de grande sabedoria e perspicácia, na qual duas mulheres sozinhas vão ser obrigadas a lutar para ter seus direitos respeitados. Sem ter como garantir o sustento, já que os homens da “pequena família” estavam mortos, Rute vai juntar os restos da colheita nas terras de um agricultor de posses, parente de seu falecido marido. Conforme a lei da respiga (Lv 19,9-10; Dt 24,19), os pobres, estrangeiros, órfãos e as viúvas tinham o direito de colher das espigas que caíssem na ceifa. Rute cabia em três dessas categorias de pessoas: estrangeira, viúva e pobre.
Ao tomar conhecimento de que a estrangeira que respigava em seu campo era parente, o dono da terra, Booz, lhe dá permissão para respigar com liberdade e ficar junto com suas servas. Ao ficar sabendo que Boaz era parente de seu marido, Noemi começa a articular um plano para que Rute seja resgatada. De acordo com a lei do levirato (Dt 25,5-10), o parente mais próximo do marido falecido de Rute deveria, como no caso de Tamar, casar com a viúva e com ela gerar descendência para o falecido. Além disso, caso nascesse um filho desse relacionamento, a viúva teria novamente direito aos bens imóveis do falecido marido.
Instruída por Noemi, Rute toma banho, se perfuma e vai deitar-se onde Booz está e com ele passa a noite. Na manhã seguinte, ela revela a Booz que ele tem sobre ela o direito de resgate. Booz juntou, então, testemunhas e procurou um parente ainda mais próximo do falecido marido de Rute para saber se tinha interesse em cumprir a lei do resgate da viúva. Como esse parente não tinha interesse ou vontade para cumprir a lei, o próprio Booz assumiu a tarefa e se casou com Rute por quem já havia mostrado claro interesse, quem sabe ultrapassando o simples “cumprimento do dever”.  Rute foi, então, recebida pelo povo da cidade de Belém como as matriarcas Raquel e Lia (Rt 4,11). Com Booz teve um filho, Obede (“o que serve”), que viria a ser o avô de Davi.

Betsabeia - a mulher violentada pelo rei

Betsabeia não é mencionada, na genealogia de Mateus, pelo seu nome, mas como “esposa do hitita Urias”. É a única mulher da genealogia que viveu no âmbito da corte; mas nem por isto deixou de sofrer com a prepotência real. Sua história é contada em 2 Sm 11, onde se narra como ela foi vítima da falta de escrúpulos de Davi, que, possuído por desejo e cobiça, a violentou e engravidou enquanto seu marido estava na batalha defendendo Israel. Após saber da gravidez de Betsabeia, Davi articulou a execução de Urias na frente de batalha. Denunciado por Natã, que não o perdoou por esse ato criminoso, Davi mandou buscar Betsabeia para que viesse morar no palácio. Ela perdeu o primeiro filho, mas depois deu à luz  Salomão, o sucessor de Davi. Até o nascimento de Salomão, Betsabeia quase não fala. Anos mais tarde, no entanto, para defender o direito de Salomão ao trono, ela se une ao profeta Natã e cobra de Davi o cumprimento da promessa que este lhe havia feito: de que o filho dela seria o seu sucessor (1 Rs 1,11-31). Foi assim que a mulher violentada pelo rei, obrigada a prantear o marido morto em batalha e a mudar-se para o palácio real para tornar-se uma das esposas de Davi, transformou-se na mãe do segundo rei mais famoso de Israel.

Maria - a mulher que deu o seu sim ao projeto de Deus.

Provavelmente a única mulher não estrangeira da genealogia de Mateus tenha sido Maria. Ela provavelmente era de Nazaré. Muito jovem, foi escolhida para ser mãe de Jesus. Na genealogia, o verbo está na voz passiva: “de Maria foi gerado” (Mt 1,16). Conforme o relato do evangelista Lucas, Maria inicialmente se assustou ao receber a notícia do anjo, mas depois entoou um canto de alegria (Lc 1,26-33.47-55).  Esse cântico, também conhecido como Magnificat, mostra que ela era uma  humilde camponesa, proveniente de uma aldeia sem importância. Surpresa, alegria e coragem são sentimentos que transparecem no Magnificat.  Mesmo correndo o risco de ser apedrejada como adúltera –  já que engravidara antes do casamento – Maria aceita o desafio de ser a mãe do Messias. Este, sim, lhe traria muitas dificuldades. Primeiro o noivo cogitou em abandoná-la. Imagina ter a noiva grávida! Mas foi convencido a também aderir ao projeto de Deus. Depois, já próximo do tempo de dar à luz, precisou viajar até Belém, pois precisava acompanhar o esposo que para lá tinha que ir por causa do recenseamento romano. Era uma viagem de longos dias de caminhada. Como se não bastasse o desconforto da longa viagem, ao chegar em Belém não encontrou lugar para pousar e descansar. Pariu seu filho em um estábulo. Claro que, para Maria, uma mulher simples, passar por desconfortos era algo natural. Mas parir um filho longe de casa e ainda em um estábulo era coisa bem diferente. Ao dizer sim, Maria assume passar a vida toda acompanhando o ministério de Jesus. Seu sim a fez segui-lo até a morte na cruz.

Voltamos à pergunta inicial: por que essas mulheres estão na genealogia de Jesus no Evangelho de Mateus?

Através da genealogia de Jesus, Mateus chama à memória toda a história de Israel desde Abraão, que é também considerado o pai dos prosélitos, passando por Davi e o exílio babilônico. Mostra, assim, a humanidade de Jesus: ele foi verdadeiramente homem. O fato de as mulheres serem quase todas estrangeiras pode querer mostrar que a comunidade de Mateus vai contra toda a postura de pureza de raça presente no grupo que mandou matar Jesus. Ao incluir essas mulheres na genealogia, a comunidade de Mateus deixa clara a sua opção: estrangeiros devem ser acolhidos na comunidade. As mulheres não judias dão, assim, um tom universal à genealogia. Através da sua inclusão, Mateus revela seu objetivo: o Messias traz salvação a todas as pessoas, sejam de procedência judaica ou não. Mateus foge do sistema segregacionista presente na ideologia da sinagoga e mostra que muitas foram as pessoas não judaicas que aderiram ao projeto de Deus. As histórias dessas mulheres também revelam sofrimento, luta, superação, sabedoria e resistência.  Essas “mulheres de má fama” que se tornaram heroínas da fé nos inspiram em muitos momentos das nossas vidas; através de suas vidas, nos ensinam que, na história da salvação, há lugar e espaço para todas as pessoas de “boa vontade”.



Revda Sônia Mota- Pastora da IPU



BIBLIOGRAFIA:

Bíblia de Jerusalém

Ferreira, Joel Antonio.  Genealogia mateana: por que Tamar, Raab, Rute e Betsabéia? Disponível em http://www.cpgss.ucg.br/. Acesso em 25.11.2011.

Korenhof, Micke; Stuhlmann, Rainer. Wenn Eva und Adam predigen. V.1. Düsseldorf: Presseverband der Evangelischen Kirche im Rheinland, 1998
Lüdemann, Gerd. Jungfrauengeburt? Stuttgart: Radius, 1997.

Luz, Ulrich. Das Evangelium nach Matthäus. V.1 (Evangelisch- Katholischer Kommentar zum Neuen Testament), 5.ed., Düsseldorf etc.: Benziger/Neukirchener, 2002

Mesters, Carlos. Rute. (Comentários Bíblicos) Petrópolis: Vozes,
Schottroff, Luise; Silvia Schroer; Marie-Theres Wacker. Exegese feminista: resultados de pesquisas bíblicas na perspectiva de mulheres. São Leopoldo/São Paulo: Sinodal/EST/CEBI/ASTE, 2008.

Tamez, Elza. Mulheres no movimento de Jesus, o Cristo. São Leopoldo:  CLAI/Sinodal 2004.

domingo, 27 de novembro de 2011

SÉRIE: Petiscos de Espiritualidade - Parte II


NO DESERTO DEUS FALA AO CORAÇÃO

Pois agora, eu é que vou seduzi-la,
levando-a para o deserto e falando-lhe ao coração.
Oseias 2.14

Logo depois o Espírito Santo fez com que Jesus fosse para o deserto.
Marcos 1.12
Querida Igreja,
Saúde!

Na Escritura Sagrada o deserto, antes de ser um lugar inóspito, é um lugar para a vivência da espiritualidade. Em hebraico, língua em que foi escrita grande parte do Antigo Testamento, deserto é midebbar (pronuncia-se “midevar”). É uma palavra  composta da preposição “mi” (de) e do substantivo “devar”, oriunda do sema “dabbar”, cujo significado é “palavra”. Logo, o sentido literal de midebbar, deserto, é “Lugar da Palavra”. O deserto, como Lugar da Palavra, aparece no contexto de Israel na narrativa do Código da Aliança (Êxodo 19-23). O texto destaca que foi no deserto que o povo de Deus recebeu “as palavras do Sinai” (Êxodo 19.1-3) e, lá mesmo, se comprometeu a obedecer e praticar o que o Deus Eterno diz (Êxodo 24.7).  Por isso, o profeta Oséias, a partir do simbolismo do casamento, dirige-se a um povo que se acomodou com as suas próprias palavras e afirma que Deus mesmo irá seduzir Israel, levá-lo ao deserto, e falar-lhe ao coração (OSEIAS 2.14). Eis a razão de o Espírito Santo, após o batismo de Jesus no Jordão, tê-lo empurrado para o deserto. Lá Jesus confronta-se com “as coisas que o acusam” - que é o sentido do nome SATANÁS -, e com  seus “animais selvagens” (a essas “bestas” Mateus e Lucas dão o nome de PODER). Por isso, o Cristo é desafiado a confiar no cuidado de Deus, que está presente na frase “os anjos cuidavam dele” (MARCOS 1.12-13). Concluindo esta palavra pastoral, convidamos o irmão, a irmã, a aceitar de Deus o convite de ir ao deserto e permitir que o Espírito Santo os conduza nessa jornada. No deserto, Deus falará ao seu coração. À semelhança de Jesus, o Cristo, que vocês não tenham medo de encarar as coisas que os acusam, - aquelas coisinhas que insistimos em esconder, os nossos demônios que nos seduzem -, encarando-se também, como num espelho: as falsas imagens de si mesmos, sua espiritualidade mesquinha, sua sede pelo poder, seu desejo de vingança, seus sentimentos e ressentimentos tolos, entre outras coisas. Irmão e irmã, esse convite é pessoal e intransferível. Vocês vão aceitá-lo ou rejeitá-lo? A decisão é sua.


Rev. Cláudio da Chaga Soares
Cor meum tibi offero Domine propmpte et sincere.
                O meu coração ofereço-Te, ó Senhor, pronto e sincero.

(Este texto é parte de uma série de reflexões chamadas: Petiscos de Espiritualidade, palavras pastorais dirigidas à Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória e que encontram-se também no sítio desta igreja.)

domingo, 13 de novembro de 2011

SÉRIE: Petiscos de Espiritualidade


QUEM SOU “EU MESMO”?
Moisés viu que o espinheiro estava em fogo,
porém não se queimava.
Êxodo 3.2
Querida Igreja,
Saúde!

Lá vai Moisés, parábola de todos nós, o menino que foi tirado das águas (Êxodo 2.10). Para o deserto, foge (Êxodo 2.16). Ele, que sempre pensara ser egípcio, descobre-se hebreu. A partir daí, uma crise se instala nele e lá do fundo de sua alma irrompe uma voz inquieta, dizendo: - “Quem sou “eu mesmo”? Então... onde encontrar a resposta? Após muito vagar, Moisés pára na Montanha de Deus e, pela primeira vez, encontra-se com “Aquele que é”, que em hebraico significa também “Serei o que serei” (Êxodo 3.14-15). Moisés vê algo inusitado: uma sarça que arde em chamas sem ser consumida pelo fogo (Êxodo 3.3). Como um menino curioso, ele aproxima-se para ver mais de perto, como que querendo tocar/possuir o Mistério. De repente uma voz irrompe, lá onde a alma silencia, dizendo: “- Pare aí e tire as sandálias, pois o lugar onde você está é um lugar sagrado.” A ordem é clara: “Pare aí”. Parar para avaliar e iniciar novos caminhos. Parar de se preocupar com os afazeres do dia-a-dia (Êxodo 3.1). Então, numa demonstração de reverência, Moisés “folga os nós do sapato”, como diz Gilberto Gil, e rende-se à voz d’Aquele que fala do Espinheiro: espinheiro-sarça, espinheiro-em-mim (cf. II Aos Coríntios 12.7-10). E mais: ao tirar as sandálias, de certa forma Moisés renuncia a toda tentativa de buscar por si mesmo resposta à sua pergunta. Por isso, a terra árida do deserto, tida por muitos como má, torna-se agora santa: espaço sagrado para o encontro com Deus (Êxodo 3.5; cf. Josué 5.15). Assim, com temor e tremor, ele cobre o rosto num gesto de reconhecimento de que seus olhos não podem abarcar todo o Mistério do Deus (Êxodo 3.6). No entanto, ao encontrá-lo, Moisés encontra-se. Descobre-se servo, pronto para retornar ao Egito e anunciar aos irmãos o que Deus lhe fez.E você, já perguntou a Deus quem é você mesmo? Perguntea Ele e você se surpreenderá com a resposta.
rev. Cláudio da Chaga Soares
Cor meumtibioffero Domine prompte et sincere.
O meu coração ofereço-Te, ó Senhor, pronto e sincero.

(Este texto é parte de uma série de reflexões chamadas: Petiscos de Espiritualidade, palavras pastorais dirigidas à Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória e que encontram-se também no sítio desta igreja.)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CONSAGRANDO A VIDA AO SENHOR DEUS

COMO VOCÊ VÊ A SUA EXISTÊNCIA?
Esta é uma questão de difícil resposta por não termos o habito de olharmmos constantesmente para a nossa realidade existencial. Para uns existir é correr atrás do que se deseja; para outros é refletir o que é que se deseja e o que isso significa para a sua vida. O apóstolo Paulo a vê como tempo de transformação que foi se sucedendo aos poucos(de perseguidor passou a ser um grande anunciador da palavra de Cristo). No estágio final dos seus dias ele a vê como oferenda a ser devolvida a Deus, de onde saiu. Este momento final de sua existência não é um vazio e um sofrimento, é sim um descanso, uma entrega àquele que lhe deu um novo ser. É essa relação com a vida que o faz entrar num tempo de serenidade e paz.
Segundo Lc 18.9, uns se viam cheios de justiças e de importância aos olhos dos outros e não percebiam que a sua existência estava fundamentada em princípios falsos, que eram a arrogantes e a prepotentes. Ao contrário, aquele que parecia nem ter existência própria, porque sua prática fora, durante muito tempo, de desonestidade e de roubo, é quem demonstra mergulhar mais profundamente em si mesmo e se reconhecer frágil, limitado e dependente de uma força maior, expressada sinceramente, ao dizer em sua oração que tivesse compaixão do pecador que era (Lc 18.13), revelando, assim, que a proximidade e o encontro com Deus somente acontece pela humildade de nossos corações.
O que justifica (Lc 18.14) nossas ações é a compreensão que temos sobre nós mesmos e sobre aquilo que faz parte de nossas vidas. A intensidade positiva do nosso viver com a família, revela à nossa existência que seu sentido profundo é amar, servir e perdoar. A forma perseverante de como vivemos nossa fé comunitária mostra-nos a convicção e a certeza que sentia Paulo na fase final de sua vida, de combatemos o bom combate e guardamos com muito cuidado esse tesouro despertado em nós que é a fé.
Portanto irmão e irmã, somos convidados a ver nossa existência como herdeiros dos propósitos do Criador. Para recebermos a coroa da justiça, dada a nós como recompensa, precisamos anseá-la, querê-la e buscá-la, e percebermos que é o Senhor quem nos mostra quem somos e então enche-nos de força (2Tm 4.17), para anunciar a todos que enxergamos agora, a nossa existência de maneira plena e feliz, porque fomos libertados das caricaturas que faziamos de nós mesmos, por desconhecer a sua essência. .    
(texto do Reverendo Luis Pereira)

Entregemos a nossa vida e a nossa existência  ao Senhor nosso Deus de forma completa e verdadeira e deixemos a direção dos nossos caminhos sob seus cuidados.