quinta-feira, 7 de junho de 2012

A importância dos símbolos cristãos


Liturgia combina com arte, beleza e mistério.
Uma parte  nós fazemos e a outra nos é dada.
Não quero um Deus que compreenda,
que seja do tamanho do meu pensamento.
Quero um Deus maior.
Um Deus em que possa acreditar
mesmo sem entender...
(Rubem Alves)


Quero começar este artigo compartilhando uma conversa que tive, há algum tempo, com um amigo que estava fazendo um curso de liturgia. Lá pelas tantas, ele fez o seguinte comentário:

-          Sabe o que eu descobri? Que o símbolo litúrgico mais usado pela minha igreja é a samambaia, ela está não só no altar como também espalhada por todo o templo e é ela só, nada mais.

Rimos bastante imaginando a tal samambaia “simbológica”. Mas depois fiquei refletindo sobre o comentário e fui obrigada a reconhecer que, em muitas de nossas igrejas, a situação não é diferente.  
Antes de continuar a leitura, convido você a um exercício: feche os olhos e relembre o altar da sua igreja, o que tem lá? Qual ou quais os símbolos cristãos que estão no altar simbolizando uma experiência com o sagrado?
Pessoalmente consigo visualizar diversas igrejas que não têm símbolo cristão nenhum. Só paredes vazias, o púlpito, a mesa com uma toalha, na maioria das vezes branca, sem nenhum adorno litúrgico e um vaso de flores, que, a princípio, não é símbolo, mas objeto de decoração.
Quando exercia o pastorado em comunidade, algumas vezes fui criticada e questionada por usar veste pastoral, paramentos litúrgicos e colocar velas no altar. Algumas pessoas, talvez por não compreenderem o seu significado, achavam que eu estava me aproximando demais dos “católicos”, como se esses paramentos fossem exclusividade da Igreja Romana. Interessante é que se tolera que um pastor vista terno e gravata, roupas típicas de banqueiros, empresários e executivos, e que uma pastora use roupas da moda, mas têm-se dificuldades de aceitar o uso de vestes pastorais. Assim como os médicos são reconhecidos pelos jalecos brancos e os juízes, nos tribunais, por suas togas, as vestes pastorais querem lembrar a função de quem as utiliza.
A Bíblia afirma que Jesus é “a luz do mundo”. Não podemos ter uma vela simbolizando esta luz? Pregamos sobre a cruz de Cristo e o seu significado, a cruz está presente em muitos hinos. Não podemos colocá-la no altar das igrejas?
Fico pensando por que existe essa aversão aos símbolos cristãos e tenho duas suspeitas. Gostaria de abordá-las rapidamente.

Iconoclastia – uma triste herança

A reforma protestante não foi um movimento uniforme; os reformadores, às vezes, também tinham divergências.  Alguns grupos da Reforma protestante achavam que todas as imagens   tinham que ser destruídas por afrontarem a Deus (cf. Êx 20.4-6). Eles invadiam, portanto, os templos para destruir e queimar imagens, esculturas, quebrando vitrais e causando uma das maiores destruições de arte sacra que a história já testemunhou. Chamamos esses radicais de iconoclastas.
É certo que os Reformadores concordavam que havia muitos abusos nos cultos de sua época,  mas eles assumiram posturas diferentes diante de certas tradições: Lutero, por exemplo,  defendia que se deveria manter o que não fosse explicitamente condenado pelas Escrituras. Já Calvino queria que se mantivesse apenas o que era ordenado por Deus nas Escrituras. Em relação aos símbolos litúrgicos, Lutero teve, portanto, uma postura mais compreensiva, pois via neles um importante recurso pedagógico. As imagens ajudavam a divulgar o Evangelho, em especial, a analfabetos. Calvino, por outro lado, aboliu a simbologia nos templos reformados, de modo que o culto calvinista tornou-se um “culto nu”.
Em uma das minhas visitas a uma Igreja Reformada, aqui na Alemanha, uma professora de Escola Dominical para crianças comentou que foi chamada pelo presbitério porque, depois de contar a história de Noé, solicitou às crianças desenharem a cena. Isso foi considerado perigoso, pois, segundo o conselho, as crianças poderiam incorrer na tentação de também desenharem Deus, o que iria contra a proibição de imagens. A professora também não podia utilizar imagens como recursos visuais. Fico pensando a dificuldade dessa professora para transmitir um conhecimento às crianças sem poder usar nenhum recurso visual. Hoje sabemos que a proibição de imagens no Antigo Testamento surgiu, em primeiro ligar, porque as imagens eram adoradas em lugar do Deus vivo e, em segundo lugar, porque elas eram utilizadas em rituais mágicos, na tentativa de manipular Deus.
O momento histórico da Reforma protestante do século XVI suscitou também posturas e atitudes radicais. O princípio do sola scriptura (“somente pela Escritura”) lamentavelmente foi interpretado por alguns como “somente pelo discurso”, levando ao desprezo de diversos símbolos que nos ajudam a lembrar os elementos importantes da nossa fé.


Protestantismo brasileiro –  religião proibida

A segunda suspeita tem a ver com a história do protestantismo no Brasil. As igrejas protestantes brasileiras precisaram de muito tempo para ter sua liberdade de culto. A primeira constituição brasileira de 1824 permitia apenas o culto doméstico ou em casas sem nenhuma forma ou característica de templo, como sino, torre, etc.  Somente com a constituição de 1891 é que se pode falar de uma liberdade de culto, quando os protestantes não mais precisavam se esconder.
Seria esta uma herança que trazemos até hoje e que nos faz ser tão descuidados com o aspecto simbólico dos nossos templos? Talvez nos tenhamos acostumado com as proibições da época do Império e continuamos evitando que nosso templo tenha aparência de templo.


A linguagem dos símbolos

Quando as palavras não são suficientes para expressar tudo o que sentimos ou estamos vivenciando, a poesia, a metáfora, os símbolos são excelentes auxílios. O símbolo é uma realidade visível que representa ou está em lugar de uma realidade invisível. Ele não é sujeito nem objeto, ele apenas remete a uma experiência e deve fortalecer crenças e práticas. Ele é elemento essencial no processo de comunicação.
Em épocas antigas, o símbolo era essencial para o processo de aprendizado da fé. Imaginem as pessoas que não sabiam ler, o quanto a experiência visual com vitrais e imagens bíblicas era importante para reter a mensagem que estava sendo pregada.
O teólogo Paul Tillich escreveu: “Se o símbolo perde o seu poder, a religião perde a sua inspiração”. Penso que Tillich não queria afirmar que a religião se reduz aos símbolos, mas destacar a grande importância destes para a vida de fé.  
Um símbolo aponta para além de si, revelando aquilo que ele representa. Uma cruz é mais do que mera cruz; ela rememora o sacrifício de Cristo por nós. A cruz no altar não é um ídolo,  mas um símbolo que aponta para aquele que por nós sofreu e morreu na cruz. E esse símbolo pode fortalecer a nossa fé.  
Deus fala conosco através da sua Palavra, dos sacramentos, de cânticos, gestos (bênção, abraço da paz) e também através de símbolos que ajudam a fortalecer as nossas crenças e práticas.
O próprio Jesus recorreu a símbolos quando queria explicar algo ao povo que o seguia: ele falava dos lírios do campo para falar da providência divina (Mt 6.25-34), da ovelha e do pastor para falar do cuidado de Deus (Jo 10.1-18) e escolheu o pão e o vinho como símbolos do seu corpo e sangue (Lc 22.19-23).


Os símbolos - uma riqueza litúrgica

Se o calendário cívico comemora os feitos humanos, o calendário do ano cristão aponta a para atividade criativa e redentora de Deus.

As cores litúrgicas, que podem estar presentes nas vestes pastorais, nas vestes do coral, nas toalhas de mesa e nos antepêndios do púlpito ou da estante de leitura, simbolizam as diferentes épocas do ano cristão. Ao entrar no templo, o povo já pode sentir-se envolvido pelos atos de Deus na nossa história.  
  • O branco e o dourado simbolizam a glória e a manifestação divina. Essas cores são usadas para celebrar a obra redentora de Cristo (Natal, Epifania, Batismo do Senhor, Transfiguração do Senhor, Páscoa, Ascensão do Senhor e Trindade).
  • O vermelho, símbolo do fogo e dos mártires, é cor da celebração do Espírito Santo e da Igreja (Pentecostes, Dia da Reforma, Aniversário da Igreja, Ordenação e investidura de pastores e pastoras).
  • O roxo caracteriza as épocas do ano cristão dedicadas à reflexão, ao arrependimento e à preparação (Advento e Quaresma)
  • O preto caracteriza o período de luto (Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-Feira da Paixão)
  • Verde é a cor da esperança, vida e crescimento (usado ao longo do tempo comum, a época após Epifania e após Pentecostes)
  • O azul claro indica a esperança e também pode ser usado no Advento.
 Gestos simbólicos:
  • Gesto de consagração dos elementos da Santa Ceia (Lc 22.19-23)
  • Lava pés ( Jo 13);
  • Imposição de mãos (1 Tm 4.14);
  • Os braços abertos para transmissão da bênção
  • O sinal da cruz representando a Trindade

Objetos simbólicos
  • A cruz: aponta para o amor de Deus por nós. É o principal símbolo cristão, pois aponta para a ação salvífica de Deus na história e a possibilidade da ressurreição. 
  • A água: símbolo do nosso novo nascimento e símbolo da vida.
  • A vela: representa a Palavra de Deus ( Sl 119.105);  Jesus, a luz do mundo ( Jo 8.12);  o Espírito Santo que desceu como labareda de fogo ( At 2.1-4)
  • O peixe: um dos primeiros símbolos utilizados pelos cristãos para se identificarem, especialmente na época das perseguições nos primeiros séculos.  A expressão “Jesus Cristo, Filho de Deus, o Salvador” em grego é: Iesous Christos Theou Uios Soter. As iniciais dessas cinco palavras formam uma nova: ictus, que significa “peixe” em grego.
  • A pomba: o Espírito Santo (Lc 3.21-22)
  • A videira e os ramos lembram que, como cristãos e cristãs, estamos ligados a Cristo (Jo 15.5).
  • O sepulcro aberto lembra a vitória de Jesus sobre a morte (Jo 20.1)
  • As letras “alfa”  e “ômega”, respectivamente a primeira e a última do alfabeto grego, indicam que Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas e  a eternidade de Deus (Ap 1.8)
Se compreendermos o significado bíblico e teológico dos símbolos, eles não correm o risco de serem idolatrados, pois saberemos que eles apontam para uma realidade além deles. São importantes porque têm uma mensagem a transmitir. Por isso também não podem ser confundidos com objetos de decoração que mudam conforme a moda e o gosto de quem “decora a igreja”.
Os símbolos devem, portanto, ser escolhidos com argumentos bíblicos, seguir a tradição cristã e também espelhar a comunidade local, pois cada igreja está inserida em um contexto cultural específico.
As reflexões e sugestões aqui contidas querem servir de “inspiração” e não como “imposição” ou “padronização”. Cada igreja é livre e soberana, mas em matéria de símbolos litúrgicos seria bom pensar numa identidade litúrgica para todas as nossas igrejas, a fim de que, em qualquer igreja local da IPU, se possa perceber claramente que fazemos parte de uma comunhão maior. 
Agora, convido você a fazer, outra vez, uma visita ao seu templo. O que poderia ser modificado e inserido nele?

BILIOGRAFIA
ADRIANO, Odete Líber Almeida.  Símbolos na Bíblia. In: BORTOLLETO F., Fernando; SOUZA, José C. de; KILPP, Nelson (ed.) Dicionário Brasileiro de Teologia. ASTE: São Paulo, 2008.
ALVES, Rubem (org.). CultoArte: celebrando a vida.  Vozes: Petrópolis, 1999.
EMARD, Jeanne. A arte floral a serviço da liturgia. Paulinas: São Paulo, 1999
Manual do Culto da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Pendão Real: São Paulo [s.d.]
MARTINI, Romeu R. Livro de Culto. Sinodal: São Leopoldo, 2003.
NOÉ, Sidnei Vilmar. Símbolo. In: BORTOLLETO F., Fernando; SOUZA, José C. de; KILPP, Nelson (ed.) Dicionário Brasileiro de Teologia. ASTE:

quarta-feira, 16 de maio de 2012

‘Todos seremos transformados pela vitória do nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 15,51-58)


Liderada e coordenada pelo Conselho Nacional de Igrejas- CONIC, terá início no próximo domingo, dia 20 de maio, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.  Inspirados pelo tema: “Todos seremos transformados pela vitória do nosso Senhor Jesus Cristo”. Cristãos e cristãs de todo o hemisfério sul estarão participando deste evento tão importante para a unidade da Igreja. O encerramento acontece no Domingo de Pentecostes, dia 28 de maio.
Durante essa semana, pessoas das mais variadas etnias, religiões cristãs e culturas estarão dedicadas à reflexão sobre a importância da unidade na diversidade. Irmãos e irmãs da Polônia, país marcado por histórias de sofrimento, mas também por muita coragem no testemunho de fé diante de inúmeros desafios, prepararam a semana de oração deste ano.


Um pouco de história

 A celebração da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos começou em 1908 por  or iniciativa do Ver Anglicano Paul James Wattson. Por ocasião da Conferência Missionária na cidade escocesa de Edimburg, em 1910 foram dados os primeiros passos para que a iniciativa do Rev. Wattson fosse assumida por todos os cristãos e cristãs e que a SOUC ocorresse anualmente em todas as igrejas cristãs.
A Conferência tinha como objetivo propor a unidade dos cristãos na missão. Para povos não cristianizados, era difícil compreender divergências doutrinais entre pessoas que seguiam um mesmo credo religioso, sob a égide de um só Cristo. Daí a proposta de criar uma unidade dialogal entre comunidades cristãs de diferentes tradições teológicas.
O princípio que regia essa ideia, em última análise, era simples: muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa (Mc 9.40). A partir de então, houve um esforço coletivo das igrejas presentes nessa conferência de exaltar o diálogo e minimizar o confronto, pois todos levavam a mesma cruz, o mesmo amor e, consequentemente, compartilhavam um só objetivo: anunciar as boas novas do Salvador (Mt 10.7).

Atualmente a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é celebrada por milhões de cristãos no mundo. O decreto sobre ecumenismo do Concílio Vaticano, promulgado em 1964, chamou a oração de alma do movimento ecumênico e animou a celebração. Em 1996, a Comissão Fé e Constituição, do Conselho Mundial de Igrejas, e o Pontifício Conselho pela Unidade dos Cristãos, do Vaticano, começaram a colaborar na elaboração de um texto internacional comum para uso em todo o mundo.

Desde 1968, esses textos internacionais, baseados em temas propostos por grupos ecumênicos existentes no mundo, são adaptados à realidade dos diferentes países. Aqui no Brasil, essa adaptação é feita pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil.

No hemisfério norte, o período tradicional para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é de 18 a 25 de janeiro. Mas no hemisfério sul, onde janeiro é tempo de férias, as Igrejas preferem outras datas para celebrar a Semana de Oração como, por exemplo, ao redor de Pentecostes.


Por que esta Semana é tão importante?

Em seu livro “Espiritualidade e Compromisso”, o teólogo luterano Nelson Kilpp dedicou um capítulo sobre a oração e apontou dez boas razões para orar. No caso específico da SOUC, o autor aponta que a oração aproxima-nos de outras comunidades de fé e afirma:

Na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, pessoas de diversas denominações oram em conjunto, em celebrações específicas ou, então, cada dia em outro templo da cidade. Nessa oração se expressa a consciência de que a unidade das igrejas de Cristo é uma obra produzida pelo Espírito Santo, à qual nós podemos dar visibilidade.
As orações ecumênicas representam mais do que o desejo de superar divisões, curar feridas e promover o encontro dos diferentes. Elas expressam a consciência de que todos nós, independente de nossa tradição religiosa, dependemos do mesmo Deus, que é a base de nossa existência[1].

Que esta Semana de Oração possa levar-nos, mais uma vez, ao encontro de outros irmãos e irmãs, e que, orando em conjunto, possamos dar testemunho de que estamos colocando em prática aquilo que afirmamos no Credo Apostólico: Cremos na comunhão dos santos – a una, santa, universal e apostólica Igreja. Amém e Amém.


                                Revda. Sônia Mota


BIBLIOGRAFIA

KILPP, Nelson. Espiritualidade e Compromisso: dez boas razões para orar, praticar a justiça, cuidar da criação, acolher o outro, compartilhar. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2008.

Sites consultados:







                  




[1] KILPP, Nelson. Espiritualidade e Compromisso. p. 21.

sábado, 12 de maio de 2012

Mães que choram


 Para quem tem mãe e motivos para comemorar, hoje é dia de almoço em conjunto, de entrega de flores e presentes. Afinal, à exceção do Natal, esta é uma das datas em que o comércio mais lucra.
 Hoje é dia de mães abraçarem seus filhos e suas filhas e, emocionadas, se esquecerem dos sofrimentos e das angústias que eles lhes causaram. Tudo é esquecido e perdoado. As escolas, igrejas e empresas vão fazer festas e promover homenagens especiais.
 Mas, permitam-me quebrar este quadro tocante para lembrar outras mulheres que também são mães, mas não têm o que comemorar, porque seus filhos ou suas filhas lhes foram tirados do colo e da vida. As estatísticas mostram que, cada dia, dezenas de mulheres enterram um filho ou uma filha. Segundo o Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), 13 adolescentes morrem diariamente por assassinato no Brasil. De 2006 a 2012, a quantidade de jovens assassinados superará 33 mil[1]. As estatísticas são tão alarmantes que a 15ª Assembleia Nacional de Pastorais da Juventude do Brasil, em 2008, criou a Campanha Nacional contra a Violência e o Extermínio de Jovens para denunciar o crescimento de jovens mortos em todo o país e propor ações que possam mudar essa realidade. [2]
 Pensando nestas mães que perderam seus filhos, lembro-me de outra mãe, que também passou por essa  dor. O nome dela? Rispa! A sua história está narrada em 2 Samuel 21, no Antigo Testamento[3].
Rispa foi uma das esposas do rei Saul e convivia com as intrigas palacianas. Após a trágica morte do rei, iniciaram seus dias de angústia. Apesar de não participar da vida política, ela se tornou vítima dos grandes e poderosos em sua luta pelo poder. Será que seu nome seria um prenúncio de sua aflição? Afinal, Rispa significa “pedra quente”, ou seja, a pedra aquecida ao fogo, na qual as mulheres assavam o pão. Na época do rei Davi, Rispa enfrentaria uma situação extremamente dolorosa (2 Samuel 21).  Era uma época de estiagem prolongada. Naqueles tempos, era costume atribuir catástrofes naturais a Deus. Também Davi pensava assim. De alguma forma, ele descobriu que a causa da estiagem podia estar relacionada a um crime praticado por Saul contra os habitantes de uma cidade chamada Gibeão. Nada sabemos sobre esse suposto crime.
 Para resolver rapidamente a situação, Davi pergunta aos moradores de Gibeão como esse mal poderia ser desfeito, de modo que as chuvas voltassem. Os gibeonitas exigiram, então, a morte de sete descendentes masculinos de Saul. Davi aceitou a exigência dos gibeonitas e deu-lhes dois filhos e cinco netos de Saul, que foram executados. Seus corpos foram expostos à execração pública no alto de uma penha.
 Os dois filhos de Rispa estavam entre os executados. O que faria essa mãe-viúva, cujos filhos eram seu único arrimo e futuro? O texto bíblico narra o seguinte: “Então, Rispa, filha de Aiá, tomou um pano de saco e o estendeu sobre a penha e não deixou que as aves do céu se aproximassem deles de dia, nem os animais do campo de noite, desde o princípio da ceifa até que sobre eles caiu a água do céu”.
 A enorme dor da mãe não consegue dobrá-la; ela não se conforma com a violência oriunda de divergências políticas. Ela não pergunta se seus filhos eventualmente têm algo a ver com o mencionado crime de Saul ou não. Isso agora é secundário. Ela faz algo inesperado: demonstra publicamente, através do luto, também sua rebeldia contra a injustiça dos poderosos. Ela leva seus trajes de luto – roupa de saco – para onde estão expostos os filhos mortos e espanta os animais e os abutres que querem atacar os cadáveres. Pois os cadáveres devem ficar insepultos, à vista de todos, até que sua morte alcance o objetivo almejado: o fim da estiagem.
 Em sua dor, Rispa não sofre silenciosamente. Através de seu luto realiza um protesto público, demonstrando sua inconformidade. Com seu gesto de amor aos filhos e sobrinhos mortos ela consegue comover, sem palavras, os transeuntes. Com o tempo – o texto dá a entender que podem ter sido até cinco meses –, até o poderoso rei Davi se convence de que eliminar pessoas inocentes por razões políticas não é a forma correta de governar.
 O protesto de Rispa, silencioso e pacífico, que escancara a crueldade de uma sociedade que não respeita a pessoa humana, surtiu efeito: conseguiu mover um grande rei a mudar sua postura política. A “pedra de fogo” queimou a consciência dos poderosos em seu jogo ensandecido pelo poder. Assim, outras mães não precisariam passar pela mesma dor e sofrimento.
 Peço licença para prestar uma homenagem a todas as mães que, no dia de hoje, não comemoram, mas choram pelos seus filhos e filhas mortos pela violência policial, pela violência do trânsito, pelos grupos de extermínio, pelos matadores da nossa sociedade. Mulheres como as Mães de Acari, mães da Praça da Sé, as Mães de Luziânia, que tiveram seus filhos assassinados ou que estão desaparecidos e que, hoje, não terão como presente um abraço, um botão de rosa ou um sorriso. Em vez de receber flores, muitas destas mães levarão flores para a sepultura dos seus filhos e suas filhas, outras continuarão nas praças ou nos programas de televisão, buscando sem cessar por seus filhos, apegando-se a um fio de esperança que impede que desanimem.
 A todas as Rispas o nosso respeito e solidariedade pelos filhos que não poderão abraçar!

Revda Sônia Mota – pastora da IPU
Pastor Nelson Kilpp- IECLB


[1] www.estadao.com.br
[2] WWW. .juventudeemmarcha.org
[3]  Cf. Nelson Kilpp. “Rispa”. Revista Novo Olhar. Sessão Retratos. Edição de janeiro de 2010.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

5º DOMINGO DO MÊS DE ABRIL


Nos meses em que haverá o 5° domingo, o culto será responsabilidade da classe dos adolescentes e jovens.
Ontem foi o 5° domingo do mês de abril e o culto foi  muuuuito abençoado.
Foi mais ou menos assim:

Animado
Diferente
Organizado
Litúrgico
Especial
Santificado
Cantante
Entrosado...
Novos louvores...  
Tão... tão...
Emocionante
Surpreendente

Espiritual

Jovial
Original
Valoroso...
Engrandecendo o
Nome do nosso
SENHOR JESUS CRISTO.


Fraternalmente,
presb. Marília Paim

sexta-feira, 20 de abril de 2012

João 11 - Ressurreição de Lázaro

A reflexão sobre o menor versículo da bíblia foi hoje, dia 15/04/2012, o tema do sermão do irmão Percílio Bispo.

JESUS chorou (João 11:35)

JESUS chorou por quê?
Por que amava muito seu amigo Lázaro que tinha morrido?!?
Por que viu o sofrimento das irmãs de Lázaro e o choro dos judeus?!?
Ou por que as pessoas não tinham fé?!?
Por quê??? Por quê??? Por quê???
As irmãs de Lázaro, Marta e Maria disseram que se JESUS estivesse com Lázaro, ele não teria morrido.
Será que é preciso que Jesus esteja fisicamente presente para que um milagre aconteça?
Se naquela época, quando Jesus ainda estava vivendo como homem ao lado das pessoas, elas podem ter entristecido a Jesus, ao ponto de fazê-lo chorar... Qual o sentimento que estamos fazendo Jesus sentir agora, no século 21???
Ora, sem FÉ é impossível agradar a DEUS... (Hb11:6)
Se as pessoas que viveram ao lado de JESUS CRISTO, só creram depois que viram o milagre. (João 11:45). Como nós podemos exercitar e sustentar a fé no mundo atual?
O grande desafio para nossa vida é esse: perseverar na FÉ, pois a FÈ é o firme fundamento das coisas que se esperam e prova das coisas que não se veem. (Hb 11:1)
Esperemos, pois, firmes na FÈ, confiando sempre, pois o SENHOR fez e fará grandes milagres...
Crês tu isto??? ( João 11:26)
O que temos feito então???
JESUS tem se alegrado ou tem chorado???
Eu particularmente, não quero fazer JESUS chorar novamente. ELE já sofreu muito por mim e por você.
ELE nos ama e quer que vejamos a glória de DEUS.
Basta apenas CRER e ainda que esteja morto... Viverá.  (João 11:25)
Crês tu isto??? (João 11:26)
Amém.

Abraços Fraternos,
presbítera Marília Paim

quarta-feira, 7 de março de 2012

8 de março- dia de festa e comemoração ou dia de luta?[1]


“Para a liberdade Cristo nos libertou! Ficai, pois, firmes e não vos curveis de novo sob o jugo da escravidão” ( Gl 5.1)

Introdução

O ano de 1975  foi  adotado pela Organização das Nações Unidas - ONU como Ano Internacional da Mulher. Com isto, pretendeu-se chamar a atenção dos países para as situações de opressão e exclusão vividas pelas mulheres em diferentes partes do mundo. A partir de 1977, a ONU foi mais longe, estabelecendo o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Desde então, essa data é celebrada em todo o mundo tanto de maneira festiva, lembrando as conquistas sociais e econômicas alcançadas pelas mulheres ao longo da história, quanto em forma de protesto, reivindicando novas conquistas e a ampliação das que já foram alcançadas e denunciando formas de opressão que ainda persistem.
No entanto, o que muitas vezes se esquece é que essa história é bem mais antiga. Ela tem ínicio nas lutas das mulheres socialistas que, entre fevereiro e março de 1900, na Rússia, Europa e Estados Unidos, lutavam por  melhores condições de vida e de trabalho. Para tanto, essas mulheres, organizadas em grupos locais ou movimentos de maior amplitude, lideraram greves, manifestações e enfrentamentos. Durante a 1ª Guerra Mundial, em 1917, as mulheres socialistas russas, de acordo com o seu calendário, realizaram, no dia 23 de fevereiro, o Dia da Mulher. No calendário ocidental essa data correspondia ao 8 de março.[2]
Antes disso, dois outros fatos importantes, acontecidos em Nova York, marcaram a história do movimento de libertação das mulheres:
- O primeiro foi uma longa greve de costureiras, que durou de 22 de novembro de 1909 até 15 de fevereiro de 1910;
- o segundo aconteceu em 1911, quando um incêndio, numa fábrica têxtil, devido às péssimas instalações, causou a morte de 146 tecelãs. As portas da fábrica estavam fechadas para que elas não se dispersassem na hora do almoço.
Como se vê, as mulheres conquistaram seu espaço na sociedade com muitas lutas, mortes e prisões. Nada foi fácil! Graças ao esforço e à coragem de mulheres do passado, hoje temos conquistas a celebrar; e que bom que as temos. Por outro lado, alguns índices revelam que ainda temos muito por que lutar. Em certas profissões, mulheres continuam recebendo menores salários que os homens, mesmo quando as funções são as mesmas. Elas seguem acumulando dupla jornada de trabalho, já que muitas trabalhadoras, ao voltar da jornada de trabalho, ainda precisam realizar as atividades domésticas, por não contarem com a parceria dos seus companheiros. São muitas as situações em que a mulher precisa faltar ao trabalho para acompanhar os filhos ao médico ou a reuniões de escola. Isso indica que a noção de paternidade e maternidade ainda preserva resquícios patriarcais, cabendo à mulher a tarefa do cuidado.
A dignidade e a garantia de direitos para as mulheres ainda estão longe de serem plenas. Ainda há muito a superar. Aqui, no entanto, nos restringiremos a abordar algumas questões relacionadas com a violência doméstica contra as mulheres. Essa talvez seja uma das questões que mais evidenciem a continuidade da influência do patriarcalismo, mesmo na sociedade do século XXI. Além de apresentar alguns dados e experiências relacionadas com esse tema, queremos dar algumas sugestões de como as igrejas podem contribuir para transformar essa situação.

Dados da realidade
Quando moramos em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, tivemos o privilégio de trabalhar com as Promotoras Legais Populares- PLPs, capacitadas pelo Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria – CECA. Essas mulheres estão geralmente engajadas em algum movimento popular; algumas são líderes de comunidades eclesiais. Para realizar o trabalho voluntário de PLP, essas mulheres recebem uma formação em direitos humanos, especialmente em direitos das mulheres e legislação. Depois dessa formação, atuam na prevenção à violência doméstica e no acompanhamento de pessoas que sofrem esse tipo de violência.
Muitas PLPs são oriundas de igrejas, onde desenvolvem trabalhos junto a grupos de  mulheres. Na medida em que recebiam a capacitação no curso de PLPs, começaram a apontar algumas questões intrigantes relacionadas à participação das mulheres nas igrejas. Elas apontavam aspectos como:
- Em muitas igrejas, as mulheres ainda sofrem discriminação. Embora, na maioria das comunidades eclesiásticas, as mulheres participem em maior número do que homens, sua atuação é direcionada para trabalhos de limpeza, arrumação, campanhas para angariar recursos. Além disso, são incentivadas a trabalhar com o ensino e a catequese. Apesar da disposição das mulheres de trabalhar comunitariamente, ainda lhes é negada a ordenação, em certas igrejas. Em igrejas que ordenam mulheres, os salários de pastoras são, muitas vezes, inferiores aos salários dos colegas pastores, pois existe a compreensão de que o salário da mulher é meramente “complementar”. Em outros casos, os trabalhos pastorais de tempo parcial são destinados a pastoras, reproduzindo a lógica de que o provedor é o marido, sendo, portanto, ele quem deve receber o salário maior.
- Constataram também o despreparo de lideranças eclesiásticas (pastores, padres e até mesmo pastoras) para lidar com uma mulher em situação de violência. Em muitos casos, o discurso utilizado é o de que cabe à mulher garantir a unidade da família. Por isto a liderança aconselha que a mulher seja compreensiva com o seu companheiro, se esforce para ser boa esposa e boa mãe, mesmo que, em alguns casos, isso signifique suportar diversas formas de violência.

As observações das PLPs não são meras constatações ocasionais, mas refletem a situação atual da violência contra as mulheres nos seus mais variados aspectos: doméstica, física, sexual, psicológica, econômica, moral e institucional. Seguem alguns dados estatísticos:

- Segundo a Organização Mundial de Saúde, a violência é a maior causa de morte de mulheres entre 16 e 44 anos. [3]
- Segundo dados do Conselho Europeu, divulgado pela Anistia Internacional, a violência doméstica é a principal causa de morte e deficiência entre mulheres de 16 a 44 anos; ela mata mais do que câncer e acidentes de trânsito.[4]
- No Brasil,  2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano, 5.800 por dia, 243 por hora, quatro por minuto e uma a cada 15 segundos.[5]

Onde estão essas mulheres? Quem são elas? Nossa tendência é imaginar que são mulheres muito distantes de nós. Lembramos de alguns casos que vimos pela televisão e podemos até citar alguns nomes. Mas os dados estatísticos nos levam a ter que admitir que muitas delas estão sentadas nos bancos das nossas igrejas, escondendo a mancha roxa do braço, inventando uma desculpa para o olho machucado ou escondendo hematomas, cicatrizes e tristezas com maquiagem forte, sentindo terríveis dores de cabeça e sofrendo de insônia. Estão  doentes  de corpo e de alma e estão pedindo socorro em silêncio.
Diante disso, é importante perguntar: as igrejas podem ajudar a romper esse ciclo de violência? Como se pode ajudar? Como se podem romper discursos normativos, conservadores e patriarcais, que, além de ajudar a manter as mulheres em estado de submissão, ainda lhes atribui a culpa?

A postura que as igrejas poderiam assumir diante da violência contra a mulher

A história da Igreja nos revela que a instituição eclesiástica, enquanto organização histórica e politicamente posicionada, muito contribuiu para justificar e legitimar a submissão da mulher ao homem. A Bíblia, infelizmente, foi um dos instrumentos utilizados para esse fim. Muitos textos foram lidos de maneira fundamentalista para legitimar ideologicamente determinadas formas de relações sociais e interpessoais. Ainda hoje, não são raras as reflexões que destacam unilateralmente os textos bíblicos que falam da submissão da mulher ao marido. Esses textos, lidos de maneira descontextualizada e fundamentalista, são utilizados para reforçar a imagem de que uma boa mulher é aquela que se doa e se dedica única e exclusivamente à família. Uma mulher exemplar é aquela  que não tem autonomia nem sonhos nem desejos. Como exemplo dessa afirmação trazemos “Os dez mandamentos da esposa sábia[6]”, escritos por um pastor que não identifica a sua denominação. Cada preceito é fundamentado com versículos bíblicos. Segundo esse “decálogo”, cabe à esposa:
1.      Ser sempre zelosa (Pv 31.27);
2.      Estar sempre pronta para receber o esposo (Pv 18.22);
3.      Dar honra ao esposo (Ec 1.20 [Sic!] Pv 31.23);
4.      Ser sempre econômica (Pv 14.1);
5.      Sempre mostrar um sorriso confiante (Pv 31.11);
6.      Sempre conhecer o orçamento do esposo (Pv 31.27);
7.      Sempre revelar ao marido os fatos do dia (1 Tm 3.11);
8.      Na ausência do marido, não assumir nenhum compromisso (Pv 31.11 -12);
9.      Na medida do possível, fazer a refeição que o esposo gosta (Gn 27.4);
10.  Sempre compreender o seu esposo, ainda que ele tenha algumas falhas (Pv 31.28-29).
Porém, se, por um lado, há textos utilizados para legitimar e reafirmar a submissão da mulher, existem, por outro lado, muitos textos bíblicos que mostram como Deus agiu na história para libertar mulheres e homens de situações de opressão e de morte, como no caso da mulher adúltera (João 8.1-11) e da cura de uma jovem adivinhadora explorada pelos patrões (At 16,16-18). Por outro lado, há inúmeras histórias de mulheres que exerceram papel de liderança, por exemplo, no Antigo Testamento, as parteiras do Egito (Ex 1.15-22), Zípora (Ex 4,24-26), a profetisa Débora (Jz 5s), as filhas de Zelofeade (Nm 27), e, no Novo Testamento, entre outras, as histórias de Lídia, a primeira pessoa com quem o apóstolo Paulo entrou em contato na Macedônia e que abrigou em sua casa a primeira comunidade paulina em solo europeu (At 16.11-15,40),  e de Priscila, que, com seu marido, fez o trabalho de edificação da comunidade de Éfeso (At 18.18-19,26).
A partir disso, conclui-se que a primeira atitude das igrejas com vistas a contribuir para a superação da violência contra a mulher é a de revisar e atualizar sua teologia para detectar discursos e linguagens patriarcais e sexistas.
Um segundo aspecto a considerar é que, mesmo quando igrejas ordenam mulheres ao pastorado, as pastoras nem sempre têm as mesmas condições de trabalho que seus colegas pastores. Há pastoras que receberam, de suas igrejas, propostas para o exercício de um “pastorado voluntário”, já que, por serem casadas, poderiam abrir mão de seu salário de obreira. Em alguns casos, a ordenação de mulheres é utilizada apenas para mostrar quão aberta é uma igreja.
Em terceiro lugar, deve-se começar a tornar públicos os casos de violência que acontecem em nossa volta. Lembremos de Tamar, que, após ser violentada pelo irmão, rasgou suas vestes e colocou as mãos na cabeça em sinal de luto e saiu gritando para desmascarar o filho do rei e tornar pública a sua vergonha (2Sm 13.19). Deve-se acabar com a ilusão de que matrimônio cristão é um matrimônio perfeito. Também matrimônios cristãos estão sujeitos ao pecado e somente a confissão do pecado pode conduzir ao perdão e à reconciliação.
Básico é reconhecer que todo e qualquer tipo de violência é um atentado contra a dignidade humana e um insulto contra Deus, pois também a mulher é “imagem de Deus”.

Seguem algumas dicas práticas para as comunidades:
n  Oferecer espaços seguros onde mulheres que sofrem violência possam buscar apoio, acolhida e orientação;
n  Criar espaços educativos sobre prevenção e combate à violência de gênero;
n  Fazer parceria com organizações que trabalham  contra a violência de gênero;
n  Capacitar sua liderança através de estudos da temática da violência sexista sob a ótica das diversas abordagens, bíblica, teológica, antropológica e sociológica;
n  Não permitir o uso de textos ou linguagem que legitimem qualquer tipo de violência contra a mulher;
n  “Meter a colher” sempre que estiver diante de qualquer tipo de violência;
n  Participar de espaços de discussão ou reflexão sobre a questão;
n  Conhecer organizações de atendimento e apoio a pessoas em situação de violência;
n  Conhecer e divulgar a rede de serviços do município que atendem mulheres que sofrem violência;
n  Encaminhar e se preciso  acompanhar vítimas de violência para que façam a denúncia

As igrejas podem fazer muito mais do que “orar”. “Orar é importante porque conforta e a gente não se sente tão sozinha”, dizia uma das PLPs. Mas oração e ação precisam andar de mãos dadas, como na parábola de Jesus sobre o exemplo da viúva que incomodou tanto o juiz até que sua causa fosse julgada (Lc 18.1-8).

Embora a sociedade de consumo queira transformar o dia 8 de março em data comemorativa para poder vender flores e perfumes e encher restaurantes para jantares comemorativos, este dia continua sendo, para nós, um dia de luta, reivindicação e reflexão. Embora tenhamos conquistado espaços importantes na sociedade e ocupemos alguns cargos de importância também na igreja, os dados estatísticos falam por si: ainda há muitas mulheres expostas a todo tipo de violência, ainda há mulheres sendo oprimidas e homens achando que mulheres são propriedades, e lamentavelmente muitas religiões continuam ensinando que as mulheres devem ser submissas a seus pais, irmãos e maridos. Enquanto perdurar  essa situação, o 8 de março será também um dia de protesto e sinal de continuidade de nossa luta!

                                    Sônia Gomes Mota- Pastora da IPU
                                    Romi Márcia Bencke- Pastora da IECLB


DISQUE 180 e denuncie qualquer tipo de violência contra a mulher. A ligação é gratuita e pode ser feita de forma anônima!

Bibliografia

- Autores diversos. A Bíblia e as mulheres. Série A Palavra na Vida, nº 16, CEBI, 1989.
- BENCKE, Romi; CORNAGLIA, Graciela, MOTA, Sônia; VIAU, Sandra. Tramando contra a violência de Gênero. CECA. São Leopoldo, 2007.
- CORNAGLIA, Graciela Patrícia. Org. Cartilha de Prevenção à violência contra as mulheres. CECA,  São Leopoldo, 2010
- FEDERAÇÂO LUTERANA MUNDIAL. As igrejas dizem não à violência contra a mulher. Departamento de Missão e Desenvolvimento. - Mulher na Igreja e Sociedade. 2002
- PEREIRA, Nancy Cardoso. Maria vai com as outras- mulheres libertárias libertadoras da Bíblia. Série A Palavra na Vida, nº 114, CEBI,  São Leopoldo, 1997
_______________________. Remover pedras, plantar roseiras, fazer doces. Por um ecossocialismo feminista. CEBI, São Leopoldo,  2009
de Souza, Sandra Duarte. Org. Gênero e Religiões no Brasil: ensaios feministas. UMESP, São bernrdo do Campo, 2006.


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[1] Este texto foi escrito a partir do subsídio de formação para Igrejas e Seminários intitulado: Tramando contra a violência de Gênero nas Igrejas”  desenvolvido pelo CECA – Centro Ecumênico de Capacitação e Assessoria.   
[2] Nancy Cardoso Pereira. Remover Pedras, plantar roseiras, fazer doces- por um ecossocialismo feminista. Pg.7
[3] OMS. Informe sobre Violência e Saúde 2002. disponível em HTTP://copodeleite.rits.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/dadospesquisas.shtml

[4] Relatório da Anistia Internacional disponível em: http://cozinhadamatilde.com.br/2009/11/longa-vida-a-las-mariposas/
[5] Fundação Perseu Abramo. Violência contra a mulher, disponível em http/200.130.7.5/spmu/docs/pesq_violênciacontraamulher.pdf

sábado, 28 de janeiro de 2012

Dízimo: uma confissão de fé

“Duas coisas te peço, meu Deus;  não me as negues antes que eu morra:
afasta de mim a falsidade e a mentira;
não me dês nem a pobreza nem a riqueza;
dá-me o pão  que me for necessário;
para não suceder que, estando eu farto, te negue e diga: “Quem é o Senhor?
Ou que, empobrecido, venha a furtar e profane o nome de Deus. Amém!”
(Provérbios 30.7-9)

Introdução

Falar em dinheiro e em contribuição nas nossas igrejas pode causar constrangimento e até aborrecimento. Mas, ainda que muitas pessoas se sintam desconfortáveis com esse tema, é preciso encará-lo e procurar compreendê-lo dentro da tradição bíblica.
No contexto de pluralismo religioso brasileiro, temos assistido inúmeros discursos geralmente de igrejas que entendem a prática do dízimo como uma negociação com Deus a, ou seja, eu pago o dízimo a Deus e, em troca, recebo bênçãos e prosperidade na minha vida. Esse discurso está relacionado com uma teologia que chamamos de “Teologia da Prosperidade”. Cabe, nesse contexto, resgatar o significado bíblico do dízimo, em especial no Antigo Testamento (AT), e tentar atualizá-lo para as nossas comunidades de fé.

Origem e dimensões do termo

O termo dízimo (em hebraico ma’aser) significa a décima parte de alguma coisa. No contexto bíblico o termo tem, pelo menos, duas dimensões: em primeiro lugar, a dimensão da gratidão a Deus pelo que nos foi dado, celebrada festivamente na comunidade de fé; e, em segundo lugar, a dimensão do compromisso  ético, ou seja, o compromisso do cuidado com a vida, as relações justas, a terra, a comunidade e com Deus.

Significado do dízimo no Antigo Testamento

Vamos encontrar, no AT, diversos textos sobre a prática do dízimo. Como não é possível, neste espaço, um estudo aprofundado, contentamo-nos em apontar alguns textos representativos, deixando ao leitor e à leitora a tarefa de se aprofundar em conjunto com a sua comunidade de fé.

1. Gratidão pela vitória (Gn 14). Após vencer diversos reis, Abraão foi abençoado por Melquisedeque, o sumo sacerdote e, ao mesmo tempo, rei de Salém (=Jerusalém). E, em reconhecimento de que tudo que havia conquistado fora graça de Deus, Abraão oferece o dízimo. Abrão tinha consciência de que nada do que havia conquistado era dele, mas tudo pertencia a Javé.

2. Gratidão pela bênção de Deus (Gn 28.1-22). No lugar sagrado de Betel (=casa de Deus), Jacó sonhou que Deus estava presente justamente nesse lugar onde, mais tarde, foi construído o santuário de Betel, para o qual peregrinavam as pessoas em busca da bênção divina, em especial, de terra fértil, colheitas fartas e descendência. Nesse contexto, o dízimo a ser levado ao santuário representava gratidão por todos os bens recebidos através da bênção divina. Tudo vem de Deus, é justo que demos a ele parte do que recebemos.

3. Entregar a Deus o que é de Deus (Lv 27.30-32). O livro de Levítico reúne as mais diversas leis da época, a maioria delas sobre sacrifícios, sacerdotes e coisas puras e impuras, ou seja, leis importantes somente para a sua época. A lei do dízimo confessa que tudo temos vem de Deus e que, portanto, devemos dar a ele o que, no fundo, é dele. 

4. Sustento dos trabalhadores e do serviço do templo (Ne 13.10-14). Os levitas eram as pessoas que se dedicavam ao trabalho religioso nos santuários. Os levitas deveriam receber seu sustento do dízimo levado ao templo. Na época de Neemias, os levitas abandonaram o serviço no templo porque tinham que buscar o seu sustento em outras atividades. Para restaurar os serviços religiosos, Neemias teve que restabelecer o pagamento do dízimo. Isto mostra que os dízimos sustentavam as pessoas que trabalhavam no serviço religioso da comunidade (cf. 2 Cr 31.2-10).

5. Partilhar a alegria da festa e cuidar dos necessitados (Dt 14.22-29). Esse texto traz duas concepções importantes sobre o dízimo. Em primeiro lugar, o dízimo era levado ao templo e consumido comunitariamente no lugar de culto. Predomina o ambiente festivo. Toda a família, inclusive escravos e escravas, participava da festa. O texto mostra que o dízimo é compartilhado em alegria. Em segundo lugar, a cada três anos, o dízimos era reunido guardado em cada aldeia para socorrer as pessoas necessitadas do lugar: órfãos, viúvas, estrangeiros e levitas carentes.

No Antigo Testamento, portanto, o dízimo é basicamente uma contribuicäo regular para o sustento dos que trabalham no templo. Na origem, ofertava-se, como diz o termo, 10% da producäo agrícola e pastoril. Com o decorrer do tempo, no entanto, essa contribuicäo regular se tornou um tanto flexível, näo mais perfazendo todos os 10% da producäo total, ou seja, da receita total da família. Mas permaneceu o objetivo básico: manter o trabalho regular do santuário.

Ao lado do dízimo, havia, no Antigo Testamento, as ofertas esporádicas em forma de sacrifícios com as mais diversas finalidades (primícias, sacrifícios de comunhäo ou de agradecimento, oferendas para expiacäo de culpa, etc.). Esses sacrifícios esporádicos receberam um novo significado no Novo Testamento e na igreja cristä. Essas ofertas, também chamadas de coletas, passam a ser recolhidas, na antiga igreja cristä, para ajudar outras comunidades que se encontram em dificuldades. Exemplo clássico é a coleta que Paulo recolhe nas comunidades gregas para ajudar os pobres de Jerusalém (1 Co 16.1-4; 2 Co 8-9). Essas ofertas formam um elo de comunhäo entre as comunidades. 

Indicações práticas para os nossos dias

Com preocupação ouvimos que membros da igreja, alguns até em funções ministeriais, säo contra o dízimo ou, entäo, demonstram pouco interesse no assunto. Pessoalmente entendo que o dízimo é uma confissão de fé. A confissäo de que Deus é criador, sustentador e mantenedor da vida nos constrange a que demonstremos isso na prática. Expressäo prática säo, entre outros, o culto que prestamos a Deus, o ensino religioso que prometemos dar aos nossos filhos, a tarefa de pregar o Evangelho e de cuidar dos necessitados da comunidade. E esse trabalho só pode ser realizado com a contribuicäo regular dos membros, pois nem todas as tarefas podem ser realizadas somente com trabalho voluntário. Há necessidade de pessoas que se dediquem para além do que é trabalho voluntário, a fim de que as atividades da Igreja possam ser realizadas de forma adequada. A subsistência de pastores e pastoras näo é a única finalidade do dízimo, ou seja, da contribuicäo regular. O dízimo também sustenta toda a missäo da igreja, desde a realizacäo de cultos e o ensino religioso até a manutencäo do templo e os projetos sociais e diaconais da igreja. Sem o dízimo a missão da igreja pode estar ameaçada.
   
Há muitas formas de contribuir: com tempo, talentos e, näo por último, com dinheiro. Importante é não fazer do “dízimo” uma lei no sentido de exigir que cada pessoa ou família contribua com exatamente 10% de sua renda para o trabalho da Igreja. Como cristäos näo podemos ser legalistas. Importante, no entanto, é contribuir regularmente com uma parcela do rendimento, de acordo com as condicöes de cada membro. Cada pessoa deveria poder estabelecer para si a faixa do dízimo adequada à sua sitacäo.
   
Sem dúvida alguma, é extremamente importante organizar, planejar e administrar corretamente o dízimo ou a contribuição regular em nossas igrejas. A realização de uma clara prestação de contas mensal ou anual é de fundamental importância. As pessoas encarregadas de dirigir a comunidade precisam prestar contas do dinheiro que administram e devem fazê-lo com todo zelo e a máxima transparência, sem deixar qualquer margem de dúvida. Não esqueçamos de que quem administra o dinheiro da igreja está administrando doações, contribuições, dízimos de pessoas que entregam este dinheiro à Igreja em sinal de gratidão e reconhecimento de que ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela contém.
No ano que se inicia levemos o nosso dízimo ao altar, não buscando, com isso, uma bêncäo pessoal especial como rendimento de nosso investimento financeiro. Levemos o nosso dízimo ao altar com a convicção de que ele será fundamental para a missäo de Deus no lugar em que ele nos colocou. A Ele toda honra e glória!
 
                                                                                                          

                                                         ( Revda Sônia Mota)


Bibliografia

RODOLPHO, Adriano; ESPERANDIO, Mary Rute Gomes e KILPP, Nelson. Verbete- Sacrifício, p. 894-896. In:Dicionário Brasileiro de Teologia. ASTE, São Paulo, 2008.

DREHER, Carlos A. A medida do coração: encontros bíblicos sobre dízimos, ofertas e solidariedade. São Leopoldo: CEBI/CONTEXTO, 2009. Série A Palavra na Vida, n. 260.

ULRICH, Claudete Beise. Dízimo no Antigo Testamento: fidelidade a Deus, princípio de solidariedade e justiça social (texto ainda inédito)