terça-feira, 9 de julho de 2013

Estudo Bíblico: Introdução



AMADAS(OS) IRMÃS(ÃOS)

Devido as dificuldades de, como Igreja, nos encontrarmos para juntas(os) fazermos um estudo mais aprofundado da Bíblia; e sentindo a grande necessidade de conhecermos e entendermos mais e mais sobre nossa história como cristãs(ãos), resolvi preparar alguns estudos bíblicos para, estudarmos; lembrando e/ou aprendendo um pouco mais da nossa regra de fé e prática(Sl 119.97-112; 2Tm 3.16-17).

Através de esforços humanos, para justificarem a sua fé, homens e mulheres procuram conceituar a presença de Deus e suas ações para com eles(as), dando a isso o nome de Teologia. A palavra Teologia vem do grego Theos = Deus e Logia = estudo. Estudo de Deus ou estudo sobre Deus.
Dando um conceito para Teologia poderia dizer que é uma tentativa humana de, cientificamente, objetivar a compreensão, interpretação e percepção de um fenômeno, tomando como ponto de partida a sua existência, ou seja, a partir do crer na existência de Deus; perceber, compreender e interpretar esse Deus.

DENTRE OS CONCEITOS CLÁSSICOS DE TEOLOGIA TEMOS:

TEOLOGIA NATURAL – A Teologia Natural designa uma ciência que é baseada somente naqueles fatos concernentes a Deus e seu universo que estão revelados na natureza.

TEOLOGIA REVELADA – Este termo designa uma ciência que está baseada somente nos fatos concernentes a Deus e seu universo que estão revelados nas Escrituras da verdade.

TEOLOGIA BÍBLICA – A Teologia Bíblica designa uma ciência que tem como alvo investigar a verdade a respeito de Deus e seu universo com o seu desenvolvimento divinamente ordenado e o ambiente histórico, como está demonstrado nos vários livros da Bíblia. Ela é a consideração histórica da verdade bíblica como foi originalmente dada em sua proclamação profética.

TEOLOGIA HISTÓRICA – Uma ciência que traça o desenvolvimento da doutrina e está preocupada, também, com as variações sectárias distintas (Seitas) e com os desvios heréticos da verdade bíblica que tem aparecido durante a era cristã.
TEOLOGIA DOGMÁTICA – Verdade teológica sustentada com certeza.
TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO – Assim designada por ser restrita a essa porção das Escrituras Sagradas (Antigo Testamento).

TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO - Assim designada por ser restrita a essa porção das Escrituras Sagradas (Novo Testamento).

TEOLOGIA PRÁTICA – Diz respeito à aplicação da verdade aos corações dos homens e mulheres.

TEOLOGIA SISTEMÁTICA – Uma ciência que segue um esquema humanamente legado ou uma ordem de desenvolvimento doutrinário e que se propõe a incorporar em seu sistema toda a verdade a respeito de Deus e seu universo criado.

Dialeticamente a Teologia situa-se numa sequência de movimentos que terminam em Deus.
Com o passar do tempo foram surgindo novos enfoques sobre Teologia com conceitos e estruturas, resultando em novos grupos teológicos. Podemos citar: a Teologia da Cruz, a Teologia da Esperança, a Teologia da Evolução, a Teologia das Religiões, a Teologia Feminista, a Teologia Africana (Negra), a Teologia Asiática, a Teologia Índia, a Teologia da Libertação, a Teologia da Prosperidade, dentre outras.

Nessa primeira sequência de estudos iremos destacar a Teologia Bíblica; embora podemos utilizar outros tipos de conceitos teológicos.

Como já sabemos, a Teologia Bíblica tem a função de, acuradamente, interpretar os livros da Bíblia a partir dos seus relatos históricos sob uma investigação profunda. Por isso, sob a orientação do divino Espírito Santo, possamos nos abrir para as informações que aprenderemos e/ou lembraremos mais uma vez.

Obs. Não havendo entendimento ou havendo discórdias sobre os estudos ou partes deles, poderemos em momentos programados, estudarmos juntos(as) e buscarmos um entendimento comum.

MENSAGEM PASTORAL

A cada tropeço que você der em alguma pedra na caminhada da sua vida; e suportando as dores você superar e tomar como estímulo para caminhar mais uma milha, estarás provando a si mesmo(a) que pode alcançar o alvo almejado no ponto de partida.

sábado, 25 de maio de 2013

PRONUNCIAMENTO CC-IPU Nº 4


Conselho Coordenador da IPU 

SOBRE A IGREJA EVANGÉLICA, O DEPUTADO MARCO FELICIANO, A COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS E A DEMOCRACIA BRASILEIRA

 
O Conselho Coordenador da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil – CC-IPU torna público seu pronunciamento a respeito da recente discussão em torno da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados ocupada pelo deputado Marco Feliciano.

Este pronunciamento é consequência do coerente histórico desta igreja, herdeira da Reforma Protestante, ramo presbiteriano originário do trabalho missionário do Reverendo Ashbel Green Simonton, em 1859, fundador do presbiterianismo no Brasil. A IPU se originou de homens e mulheres, pastores e leigos sob a perseguição eclesiástica e política instaurada no Brasil a partir da década de 1960, que ceifou vidas de pastores e de leigos ministros religiosos e eclesianos. Dentre seus membros de primeira hora, conta-se o Reverendo Jaime Wright, defensor incondicional dos direitos humanos e participante do projeto “Brasil: Nunca Mais”, junto com Dom Paulo Evaristo Arns.
Em vista desses fatos, o CC-IPU:

1 - Afirma:
• A democracia representativa é a forma de governo que melhor se aproxima do ideal em um mundo desequilibrado e injusto;
• É essencial o respeito às instituições democráticas, que só o serão se reguladas por legislação justa, equilibrada e sensata;
• Não ser compatível com a democracia o cerceamento da palavra e o uso da violência física ou verbal;
• A todos os políticos eleitos cabe o direito de exercer o mandato em sua plenitude, trabalhando dentro das responsabilidades que lhes forem outorgadas por voto popular e dos seus pares.
2 - Esclarece à sociedade em geral:
• Que a igreja protestante, mais conhecida pelo termo “evangélica”, é um dos três grandes ramos da Igreja de Jesus Cristo, composta por todos/as aqueles/as que O reconhecem como Senhor e Salvador. Este ramo nasceu com a Reforma do século XVI, que fez originar uma ampla diversidade de comunidades de fé autônomas, que, paralelamente às semelhanças, têm posturas teológicas divergentes em assuntos não centrais;
• Que não há, no Brasil, nenhuma entidade ou associação que represente ou fale em nome de todas as igrejas descendentes da Reforma e que não há nenhum político nem bloco de políticos, em especial o chamado “Bloco Evangélico”, autorizado a se pronunciar em nome da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil – IPU ou do conjunto dos/as cristãos/ãs protestantes.
3 - Defende:
• Que o/a cristão/ã que aceita o mandato político, deve fazê-lo em benefício do bem comum e não por seu interesse pessoal ou de suas próprias estruturas eclesiásticas, o que lamentavelmente não se pode verificar nas chamadas operações Sanguessuga, Entre Irmãos e Pandora, nas quais se verificou a presença de deputados intitulados evangélicos;
• Que a ética cristã deve ser explicada e proposta democraticamente como alternativa e jamais imposta, pois, para o cristão, ela é uma consequência natural de sua opção religiosa, do novo nascimento, livremente abraçada como resposta à Graça divina;
• Que os princípios religiosos das diversas igrejas cristãs devem ser respeitados e suas cerimônias litúrgicas devam ser imunes à interferência estatal ou de pessoas alheias a estes princípios e que seus ministros religiosos não venham a ser vítimas da violência de agirem contra suas próprias consciências.
4 – Alerta:
• Que o deputado Marco Feliciano defende uma agenda política própria, que interessa a um grupo restrito de brasileiros, muitos deles denominados evangélicos;
• Que, embora qualquer deputado tenha o direito de exercer a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, considera-o sem condições políticas para o pleno exercício deste cargo;
• Que, não obstante reconheça que o eleitorado do deputado Marco Feliciano seja composto por evangélicos, nega que ele, ou qualquer político, bloco parlamentar ou partido, represente todos os evangélicos brasileiros e lamenta seu despreparo teológico, vergonhosamente demonstrado na sua defesa da interpretação da origem dos povos africanos e no desconhecimento e desrespeito aos direitos das minorias.
O CC-IPU conclama o povo de Deus que se reúne nesta igreja que se una em oração e esforços, para que tenhamos uma sociedade brasileira justa, em que todos os cidadãos e cidadãs tenham seus direitos e liberdades individuais respeitados e que, cada vez mais, pelo nosso testemunho de verdadeiro amor cristão, mais e mais vidas venham ao pleno conhecimento da Verdade, a saber Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Este Pronunciamento poderá ser revisto ou revogado pela Assembleia Geral da IPU.

Vitória/ES, 19 de abril de 2013.

 
Presbª Anita Sue Wright Torres – Moderadora
Rev. Dagoberto Santos Pereira – Vice-Moderador
Presb. Wertson Brasil de Souza – 1º Secretário
Rev. Luciano Fuly – 2º Secretário
Presb. Obadias Alves Ferreira - Tesoureiro

segunda-feira, 20 de maio de 2013

PENTECOSTES

Santo Espírito
Ouve, com favor!
Em poder e graça insigne,
Mostra o teu amor!

Vem, Espírito Divino,
Hinário Evangélico 65.
De repente
Línguas de fogo
Dançam e brincam
Sobre a cabeça
Daquelas mulheres
Daqueles homens.

Línguas pairam sobre eles,
É o Espírito de Deus,
Que em um dos relatos da Criação
Também pairava sobre a face das águas
Exorcizando o mar
Silenciando o caos.

Tal como na Sarça,
As línguas de fogo.
É fogo que arde
Sem consumir
Mas que aquece a vida
Daquelas mulheres
Daqueles homens.

É língua
Que não separa
Como em Babel,
Mas une a igreja nascente:
Na proclamação,
No serviço,
No testemunho e
Na Eucaristia.


É ao redor da Mesa que
Aquelas mulheres
E aqueles homens
Aceitam o
Desafio de Ser
Pão do Cristo
Em um mundo cansado
de palavras mudas,
de discursos ensurdecedores.

O Fogo
Vem acompanhado do Vento.
No entanto, o Vento não o apaga,
Só venta,
Alenta,
Um Sopro acolhedor.

Vento,
Ventania que invade a casa e,
sem pedir licença,
Sopra, sopra, sopra tanto
Que levanta a saia da
Morena-Igreja.

E a Morena-Igreja,
- Nenhum pouco encabulada -,
Impulsionada pelo Espírito,
Tal como uma pipa
Nas mãos de uma criança,
Deixa-se embalar,
Bailar,
Dando cor e vida ao céu,
Tornando-se sinal
Do Reinado de Deus:
Uma Casa de irmãos.

Rev. Cláudio da Chaga Soares.
É pastor presbiteriano unido e
Desenvolve o seu ministério na
 Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória – IPU.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A MAGIA DO PRESÉPIO DE NATAL



Natal é o nascimento de uma criança, não o ato arrasador de algum poderoso, nem uma descoberta maravilhosa de um cientista, nem a ação piedosa de um santo. Natal escapa, de fato, de toda lógica: o nascimento de uma criança é para fazer acontecer a grande mudança de todas as coisas, é para trazer salvação para toda a humanidade.
(Dietrich Bonhoeffer)


Gosto de presépios!
Levei anos até assumir este gosto. Gosto de presépios. Gosto de ver presépios, gosto de escolher um lugar em minha casa e montar o meu presépio de Natal!
Lembro que, quando era menina no interior da Bahia,  algumas famílias montavam presépios em suas  salas de visitas  e as pessoas entravam só para admirar. A gente que era “crente” passava pela porta, morrendo de curiosidade e vontade de olhar, mas näo podia. As pregações contra o que se considerava uma idolatria eram mais fortes e mais eficazes do que a curiosidade. A representação da família sagrada era considerada uma idolatria intolerável.  Ah, quanta beleza eu deixei de admirar!

Conta a história que Francisco de Assis, no Natal de 1227, em vez de fazer a celebração dentro do templo como era o costume, resolveu fazê-la ao ar livre em uma floresta próxima. Para que as pessoas entendessem melhor o que acontecera no Natal, ele fez uma representação usando um boi, um burro e uma manjedoura. Fico imaginando que, para quem estava ali presente, a representação foi muito mais interessante do que os longos sermöes sobre o nascimento do menino Jesus. Aquele Francisco era um bom pedagogo e, sem dúvida, tinha sensibilidade.

Gosto de montar presépios, mas näo aqueles presépios “estilizados” que cada vez mais encontramos em shoping centers e até em casas particulares, presépios que estao mais para alegorias de desfile de carnaval do que para representar o nascimento do menino Jesus. Gosto daqueles presépios simples que nos conduzem à contemplação e reflexäo, näo ao deslumbramento.  E a cada personagem que vou olhando, vou relembrando fatos e refletindo sobre a vida. O que se encontra no meu presépio?

Os animais do estábulo: o boi, o burro e algumas ovelhas. Penso que eles ficaram um tanto incomodados com aquela súbita invasäo dos seus domínios. Imagina passar a noite, primeiro, com uma mulher gemendo em dores de parto e, depois, com um bebê chorando. Isto definitivamente era algo fora da rotina. Por outro lado, näo foram os animais mais fortes, mais ferozes, mais admirados ou temidos que testemunharam um acontecimento täo importante. Mas os animais mansos e tranquilos, que serviam para o trabalho e o sustento.   

Coloco também alguns pastores, lembrando aquela gente pobre que realizava um trabalho considerado indigno pelas classe abastadas. Fico imaginando sua solidäo, o desconforto de dormir ao relento. Os perigos que enfrentavam para defender o rebanho.  Eram os sem-teto, sem-terra, sem-educacäo, sem-eira-nem-beira da época. Os primeiros que perceberam que o céu brilhava diferente, que no silêncio daquela noite escutaram, ao longe, o choro de uma criança recém-nascida e foram lá ver o que estava acontecendo. Foram os primeiros a receber uma boa notícia naquela noite fria de inverno.

Também coloco a estrela.  Imagino que, para chamar a atenção dos pastores, naquela noite elas brilharam de forma mais intensa do que o normal. Ou seria como outra noite qualquer!? E percebo como na correria do dia a dia eu passo semanas sem olhar para o céu e sem ver o brilho das estrelas que estäo lá sempre com sua beleza a piscar. Será que é para compensar essa falta de estrelas que a gente usa tantos pisca-piscas na época do Natal? Mas as estrelas estäo lá, piscando todas as noites, é de graça, nem precisamos gastar energia para apreciá-las. E os pirilampos? Lembram deles? Será que ainda existem em algum lugar?

Agora é vez da manjedoura, um coxo de madeira somente com um monte de palha somente. É bem aconchegante. Näo é nenhum berco de luxo, mas certamente é bem fofinho, coberto de palha para acolher e aquecer a criança que vai ser colocada nele. É só ter cuidado e colocar uma manta por cima para que as palhas näo piniquem o bebê.

Chegou a vez da figura que representa José. Imagino um homem com as feições cansadas depois de 150 km de caminhada, batendo de porta em porta sem encontrar abrigo porque estava tudo lotado. Com as mäos calejadas pelo ofício de marceneiro. Era hora dessa criança nascer?  Está preocupado com o bebê e com Maria também, o local näo é o mais apropriado, mas foi o que deu para arranjar. E ainda ia ter que enfrentar a longa fila para fazer o cadastramento exigido pelo Império. Pobre sofre!!!

Agora é vez de Maria. Näo é aquela mulher de aparência frágil e de olhar cabisbaixo. A minha Maria é altiva, de cabeça erguida! É verdade que está cansada depois de tanto desconforto, uma viagem no lombo de um burro, já prestes a dar à luz. Depois ainda a peregrinação pelas hospedarias e pela periferia da cidade com José batendo de porta em porta buscando abrigo e ela já com dores de parto. Mas estava tudo täo lotado que só encontraram lugar ali na estrebaria. O lugar e os animais näo a incomodavam, ela é de origem humilde e está acostumada com a dureza da vida. Ela mesma e José fizeram o parto da criança; ainda bem que ele näo deu tanto trabalho para nascer. O que a deixou de coracäo partido foi a falta de solidariedade das pessoas.

Finalmente a figura que representa o menino Jesus. Este está bem faceiro e tranquilo. Quando nasceu chorou como toda crianca faz, foi um berreiro só. Mas agora já foi amamentado e tem uma cama bem macia e quentinha. De vez em quando leva um susto por causa de uns barulhos estranhos. Säo os animais conversando entre si.

Este é o presépio que gosto de montar e contemplar.

Quando morava em Säo Leopoldo, no Rio Grande do Sul, o grupo  ecumênico local (SELEO) promovia anualmente por três dias do mês de dezembro  uma  exposição de presépios. O local escolhido era o templo da Igreja Anglicana, que ficava bem no centro comercial da cidade, em uma das ruas mais movimentadas. Os presépios eram emprestados de colecionadores particulares, de lojas e de qualquer pessoa que quisesse colaborar com o evento. Uma vez chegamos a ter quase 100 presépios de diferentes lugares, materiais e estilos. Organizávamos tudo dentro do saläo principal, com músicas natalinas e, na saída, as pessoas visitantes recebiam uma mensagem de Natal. 
Era interessante observar como muita gente se emocionava diante da cena representada, e muitas pessoas agradeciam por aquele momento de silêncio e reflexäo em meio ao burburinho daquela rua movimentada  onde o Natal era apenas um comércio.

E, agora, quero convidá-lo e convidá-la a montar um presépio de Natal e celebrar o Deus que se fez criança e veio habitar entre nós cheio de humildade. Näo para que nossos olhos contemplem a cena de uma noite feliz, mas para que vislumbrem a  promessa de um  amanhecer cheio de esperança: Porque um menino nos nasceu, e seu nome será Princípe da Paz e da Justiça!

 Revda Sonia Mota

A CORAGEM DE UMA ESCRAVA



Nelson Kilpp *

Nas páginas da Bíblia, nem sempre encontramos retratada a vida como ela deveria ser, mas como ela é de fato. As pessoas não são perfeitas, e seus sentimentos nem sempre são nobres. Elas são muito humanas. Assim como nós. Gênesis 16 narra o conflito entre uma escrava chamada Agar e sua dona, Sara, esposa do conhecido patriarca Abraão. Não sabemos como Agar, que era egípcia, tornou-se escrava e foi parar na casa de Sara e Abraão. Talvez tenha sido capturada por invasores ou vendida pelos próprios pais.
Sara era estéril. Isso lhe causava grande angústia e sofrimento, pois, na época, uma mulher estéril era desprezada pela sociedade. Muitos consideravam a esterilidade uma ausência de bênção, o que era motivo de grande vergonha para uma mulher. Sem filhos, ela também teria dificuldades para enfrentar a velhice.
Por sugestão de Sara, Abraão deveria manter relações com Agar, fazendo dela uma espécie de “barriga de aluguel”. Conforme normas da época, a criança a nascer seria, para todos os fins jurídicos, filho de Sara. Mas com a gravidez de Agar se instala, entre a patroa e a futura mãe biológica, uma competição pela posição de liderança na família de Abraão. A situação torna-se insustentável a ponto de a serva Agar ter que fugir diante das humilhações da patroa.
Mas a fuga não foi uma solução para o problema. Sozinha no deserto, uma grávida não tem como sobreviver. Junto a uma fonte, o anjo de Deus encontra Agar, conversa com ela, ajudando-a a refletir sobre sua real situação: De onde vens e para onde vais, Agar? Então ele a convence a voltar, para que a criança pudesse nascer e viver no círculo protegido de uma família. Por causa da sobrevivência do filho, Agar retorna.
Comparado aos atuais conceitos de liberdade individual, Agar parece ter sido demasiadamente submissa ao retornar à patroa que a humilhara. Mas o texto permanece com os pés no chão: sem um lugar protegido, não haveria, na época, futuro nem para a mãe tampouco para o filho. A volta à casa de Sara também compromete o pai Abraão. Esse havia permanecido, até o momento, numa tranquila indiferença.
Ao deixar que Sara tomasse todas as decisões concernentes a Agar, Abraão aparentemente consegue eximir-se de sua própria responsabilidade. Com o nascimento de um filho seu em sua própria casa, ele, no entanto, é obrigado a assumir os deveres de pai. Portanto o retorno de Agar foi antes um ato de coragem.
Por causa de sua coragem e disposição para olhar de frente os problemas, Agar é tratada com o maior respeito pelo texto bíblico. Deus envia nada menos do que seu anjo para ajudar Agar no deserto. É a primeira vez que um anjo aparece após a cena da expulsão do jardim do Éden. E justamente a uma escrava egípcia.
Agar é a única mulher do Antigo Testamento que recebe a promessa de ter uma grande descendência. De seu filho Ismael (que significa: “Deus ouviu”) descenderá um grande povo. Agar confia nessa promessa. Por isso consegue enfrentar as adversidades. Por fim, o texto também dá a entender que Agar permanece mãe de fato e de direito de seu filho (v. 15-16).


* Especialista em Antigo Testamento, ministro da IECLB. Artigo cedido pelo autor publiaco na revista Novo Olhar n. 43 da Editora Sinodal.,