quarta-feira, 9 de março de 2011

O PRESBITERIANISMO REFORMADO SEMPRE SE REFOMANDO

O PRESBITERIANISMO REFORMADO SEMPRE SE REFOMANDO
Por Rev. Áureo Bispo dos Santos

Apresentarei uma breve história do Presbiterianismo até à sua chegada ao Brasil. Ele pertence a um dos ramos da Reforma Protestante do século XVI.
Os diversos nomes recebidos pelas igrejas que abraçaram  a Reforma estão, em alguns casos, ligados aos líderes que iniciaram esse movimento em diferentes países: Luteranismo ( Lutero ) e Calvinismo ( Calvino ). Este reformador, na sua investigação bíblico-teológica, encontrou os fundamentos para a formulação das doutrinas e princípios de fé e ordem que passariam a guiar as igrejas na sua vivência interna e na sua missão no mundo. Na Suíça e noutros países europeus, as igrejas que adotaram as formulações de Calvino foram chamadas Calvinistas ou Reformadas. Já na Escócia, a reforma liderada por João Knox leva a igreja a receber o nome de Presbiteriana. Os puritanos que se estabeleceram nos Estados Unidos da América do Norte se denominaram como presbiterianos. Posteriormente, as missões presbiterianas iniciaram a obra de evangelização noutros países. No Brasil, Ashbel Green Simonton foi o primeiro missionário a aqui chegar em 1859.
Em resumo, quer sejam chamadas presbiterianas ou reformadas, estas igrejas, em diferentes países, têm a mesma fundamentação bíblico-teológica e os mesmos princípios de fé e ordem guiados por um sistema de governo representativo conciliar, isto é, no qual os diversos cargos são escolhidos pela congregação.
Dentre os grandes princípios protestantes reformados, tecerei alguns comentários sobre o da IGREJA REFORMADA SEMPRE SE REFORMANDO (ecclesia reformata semper reformanda). Por que os reformadores formularam este princípio? Ao fazerem as suas reflexões sobre a Bíblia e a História da Igreja Cristã verificaram que o povo de Deus no Antigo Testamento estava sempre passando por um processo constante de decadência e queda. Só o espírito de Javé é que revivia os ossos secos, de acordo com a visão de Ezequiel, capítulo 37. O Novo Testamento descreve que Jesus, ao longo do seu ministério, mostrou, claramente a situação decadente e esclerosada em que se encontravam os líderes do povo de Israel (escribas, fariseus e saduceus). Os apóstolos foram veementes em afirmar que as lideranças judaicas chegaram a tal decadência e desobediência que não só mataram os profetas como também a Jesus Cristo (Atos 2:23 e 7:51-60). A história registra os descaminhos da Igreja Cristã, através de treze (13) séculos da era cristã, principalmente após o edito do imperador Constantino que declarou a Igreja Cristã como religião oficial do Império Romano.
No século XVI, a igreja tinha chegado aos limites extremos de uma organização rica, poderosa, gloriosa, acima dos príncipes, reis e imperadores a quem ela coroava, evidenciando a sua superioridade sobre todos eles. Porém, ao mesmo tempo, tornou-se fossilizada, viciada, com uma estrutura hierárquica esclerosada, apregada às tradições do passado e decadente e morta espiritualmente, pois rejeitou a força do Espírito de Deus, tão bem descrito no grande Inquisidor do genial escritor e romancista russo Dostoievski, a respeito do deplorável estado em que chegou a igreja Cristã. É também neste contexto que Lutero e Calvino deram o grito de alerta para que a Igreja percebesse o seu estado decadente e partisse para uma reforma urgente. Para eles, ou a Igreja se reformava ou morreria. Todavia, ela não só deixou de ouvir o brado de Lutero, mas também resolveu abafar completamente a voz profética deste monge dominicano condenando-o e expulsando-o como herege e, não só ele como também a todos que o acompanhasse, chegando a tal crueldade de criar a “Santa Inquisição”, para exterminar os hereges, seguidores dos reformadores. Para estes, sem a reforma a Igreja poderia ser chamada de Cristã. Mas, de Cristã só tinha o nome. Conhecedores do que aconteceu com o povo de Deus no Velho e no Novo Testamento e, com a Igreja Cristã de seu tempo, chegaram a conclusão de que qualquer Igreja Cristã, está, constantemente sujeita a se tornar decadente e morrer se não se renovar. Daí, chegaram a afirmar que as igrejas que saíram da Igreja Católica Romana poderiam, também atingir à mesma situação a que chegou esta. Então, partiram para formular o princípio da Igreja Reformada Sempre se Reformando. Para eles, é imperativo que a igreja esteja sempre pronta a passar por um processo de reforma na sua caminhada de fé, pois há sempre a tentação muito grande para a instituição abafar a voz do Espírito e o testemunho interno deste mesmo Espírito.

1.      A Igreja é santa e pecadora ao mesmo tempo. É uma comunidade de santos(as) e pecadores(as).
O Novo Testamento registra, primeiro que Igreja é uma Nova Humanidade (Ef. 2:11-17); Novo Israel (Gal. 6:15-16); Nova Criação em Cristo salva e santificada por Ele. É uma comunidade viva, dinâmica, corajosa, livre, criativa, pacificadora e amorosa. Mas, em segundo lugar, é pecadora, dissimulada e insensata (Gal. 2:1-14 e 5:15), além de conflituosa e insincera (I Cor. 11:18-19) e, também orgulhosa e vaidosa (Apoc. 3:16-17).
A partir da perspectiva sociológica, a Igreja é uma organização e, como tal, busca sempre manter uma estrutura e formas adequadas a fim de permanecer estável e segura na sociedade, tendendo para uma instituição conservadora. A partir de uma perspectiva bíblica-teológica, é o corpo de Cristo, uma Comunidade de fé e província do Reino de Deus. Estas duas situações levam a Igreja a viver uma constante tensão.
O Novo Testamento descreve, em segundo lugar, esta tensão. Jesus adverte aos discípulos: “orai sem cessar para que não entreis em tentação porque, na verdade o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mat. 26:41). É no grito existencial de Paulo que se percebe esta situação angustiante e paradoxal de se ser santo e pecador simultaneamente, quando brada: “miserável o homem que eu sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rom. 7:27) ou, “o bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero este é o que pratico” (Rom. 8:19).
Diante desta situação de grande perplexidade, vem a resposta do perdão e da misericórdia de Deus, que traz a paz interior: “mas, dou graças a Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor. Assim que, eu mesmo com o entendimento sigo a lei de Deus, mas com a carne a lei de pecado” (Rom. 8:25).

2.      A Igreja é mantida pelo Espírito Santo.
Só o Espírito equilibra esta situação contraditória e ambivalente da Igreja. É um estado extremamente difícil de ser sustentado, a não ser que haja uma entrega incondicional e submissão nas mãos do Espírito de Deus.
O escritor Daniel Jenkins, no seu livro “Strangness of the Church” (Igreja uma comunidade estranha), descreve esta estranheza da Igreja no fato de que quando ela mostra-se envelhecida e, prestes a morrer, de um momento para outro, muda o aspecto e se torna renovada e rediviva. Na carta de Pastor HERMAS, há uma descrição semelhante. Aqui a Igreja é representada como uma velha de cabelos brancos, rosto enrugado, cambaleante e esquelética. Então, o autor volta a olhar a velha e, como surpresa, percebe que os seus cabelos estão pretos e a face se torna como de uma jovem de dezoito anos, com muito vigor e firmeza. É o Espírito que transforma este estado de decadência em vitalidade e renovação. Como já se mencionou, são os “ossos secos” revivificados, segundo a visão profética de Ezequiel.
3.      A Igreja é uma comunidade missionária revolucionária.
Jesus, antes de ascender aos céus, fez uma promessa aos discípulos: “...recebereis o poder do Espírito Santo,  que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia, e Samaria, e até nos confins da terra” (Atos 1:8). No dia de Pentecostes, ele cumpriu a sua promessa quando derramou o Espírito sobre todos que estavam reunidos e os tornou uma comunidade missionária (Atos 2:14-36). O livro de Atos registra a obra extraordinária que o Espírito operou através da Igreja. O Espírito, arrojadamente, conduz a Igreja a ser uma comunidade viva, atuante e radicalmente revolucionária, a ponto de próprios inimigos e perseguidores judeus ficarem perplexos, aterrorizados com o fato de revolução que estes homens e mulheres simples, pescadores, pobres e humildes estarem ocasionando uma revolução chegando a vociferar: “estes que andam revolucionando o mundo inteiro chegaram até aqui” (Atos 17:6). Realmente, a intenção dos judeus era perversa e má. Todavia afirmaram uma grande verdade: A mensagem inspirada pelo Espírito e proclamada pelos discípulos não só converteram milhares de homens e mulheres a Cristo, mas também deixaram os inimigos desbaratados e atônicos, chegando a reconhecer o seu caráter revolucionário quando presenciaram a maravilha que o Espírito realizava por intermédio desta comunidade de fé. Queriam, a qualquer custo exterminar um movimento que estava revolucionando o mundo. Só que não tinham forças para extingui-lo, porque era o próprio Deus que sustentava esta comunidade.
Conclusão:
A identidade da Igreja Presbiteriana tem de estar fundamentada no principio protestante:  Igreja Reformada Sempre Se Reformando. Este princípio revela que a igreja deve viver e ser um movimento dinâmico sempre a caminho. Não há lugar para estabilidade e descanso. Mas, para um processo de reforma e renovação constante, radical e transformador.


EVANGELIZAÇÃO NA PERSPECTIVA DA IPU

                                  
Desde a sua fundação, em Atibaia,SP, no dia 10 de setembro de 1978, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil tem refletido  sobre a sua  prática de Evangelização,. vinculando-a com o seu conceito de Missão. 1°) Para a IPU, fazer Missão é fazer presente o Reino de Deus na realidade humana integral, como foi a prática evangelística de Jesus, descrita nos Evangelhos;” percorria Jesus...pregando do Evangelho do Reino” (MT 4, 23) Essa também foi a prática da Igreja de Tessalônica, que  foi acusada pelos que se opunham  a Paulo, a Silas e aos primeiros cristãos daquela cidade: “Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui...afirmando ser Jesus outro Rei.”(At 17, 6,7) A principal ênfase à Evangelização é apresentar o Reino de Deus aos indivíduos, às famílias, às cidades e ao mundo. Assim foi o primeiro sermão evangelístico de Jesus. (Mr 1,15) A IPU percebeu que a ênfase dada à prática da evangelização como a “salvação da alma” não é a ênfase do Evangelho, que inclui o ser humano total e a sua realidade. Em segundo lugar, o conceito de Evangelização da IPU é: 2º) Fazer Missão é transmitir o “AGAPE” trinitário isto é, o Amor do Pai, do Filho e  Espírito Santo, por isso Jesus, quando evangelizava, além de pregar, “ensinava... e curava “toda  sorte  de doenças e enfermidades entre o povo.” Evangelizar é cumprir o propósito principal da Igreja Cristã que é incrementar entre todos os seres humanos a prática do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a si mesmo.” (Mr 12,32)  Evangelizar é uma prática de amor e não pode ter, como alvo o crescimento numérico da Igreja local, nem o aumento da renda e do prestígio social estatístico da Denominação. 3°) Fazer Missão é promover a Unidade, como Cristo planejou em sua Oração  Sacerdotal)Jo17, 21-26) a fim de que todos os seguidores de Cristo sejam “aperfeiçoados  na unidade.” Como o Espírito Santo fez no dia de Pentecostes, quando reuniu pessoas vindas “de todas as nações debaixo do céu”, (At 2,5) para ouvirem as mensagens evangelísticas dos Apóstolos de Jesus, que eram ouvidas e entendidas em uma língua só. Foi o milagre da Unidade. E foi formada a 1ª Igreja “una, santa e apostólica”. . Evangelizar não é produzir divisão entre os que crêem, não é fazer proselitismo para tirar pessoas de outras Igrejas para se tornarem membros de nossas Igrejas, como se a nossa Igreja fosse a única e  a perfeita. Nós estamos aqui no Brasil com o objetivo de convidar todos os brasileiros  para aceitarem o “outro Rei, Jesus” e pautarem as suas vidas pelas diretrizes do Reino de Deus. Alguns membros de nossas Igrejas ainda entendem que não é possível ser ecumênico, ou defender a Unidade e Evangelizar porque essa prática seria contraditória. Eles entendem assim porque só entendem Evangelização como Proselitismo, isto é, tirar pessoas de outras Igrejas.  . Mas desde 1968 temos uma nova compreensão  sobre as populações da América Latina e principalmente do Brasil, porque na Assembléia do CELAM(Conferência Episcopal Latino Americana} , em Medellín, na Colômbia, os bispos católicos romanos do Brasil declaram que “falta à maioria de nossa população uma adesão pessoal ao Cristo, com todos as sua implicações individuais e sociais”,  e mostraram a importância da Evangelização. Para nós, das Igrejas evangélicas isso deve ser uma palavra de alerta que mostra que a no obra de Evangelização devemos incluir os nossos lares, os nossos parentes, os nossos vizinhos, o nosso bairro porque vamos encontrar muitas pessoas que não fizeram ainda a sua “adesão pessoal ao Cristo” dos Evangelhos.

Rev João Dias de Araújo (joaodiasaraujo@uol.com.br)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

QUARESMA: FESTA DA RECONCILIAÇÃO

QUARESMA: FESTA DA RECONCILIAÇÃO

LIÇÃO 01: ANTES DA QUARESMA, A FESTA DOS FOLIÕES.
rev. Cláudio da Chaga Soares (IPU)
Texto base: Ester 9:20-32
LEITURA SEMANAL

SEG
TER
QUA
QUI
SEX
SÁB
“Que bela figura fez hoje o rei de Israel!”
“Dia de alegria e de banquetes e dia de festa”
“Então, a virgem se alegrará na dança”
“Aí está um comilão e beberrão!”
“E começaram a festejar”
“Nós também seremos transformados”
II SAMUEL
6.12-23
ESTER
9.16-32
JEREMIAS
31.1-14
MATEUS
11.16-19
LUCAS
15.11-31
I CORÍNTIOS
15:51-58


INTRODUÇÃO

Alguma vez você parou para refletir sobre a razão de a festa do Carnaval antecipar a quadra da Quaresma no nosso calendário? Já se perguntou se há alguma motivação pedagógica para isto? Como cristãos reformados, o que podemos aprender com tal festividade como crítica à nossa herança puritana de recorte dicotômico – que valoriza as coisas da alma e vê com maus olhos as coisas do corpo – e, por isso, na maioria dos casos, de postura moralista ou legalista? Portanto, nosso estudo desenvolver-se-á em três partes, a saber: 1) A Festa dos Foliões; 2) O escândalo do Deus que dança; e, 3) O Homo Festivus: resgate e antecipação da Ressurreição do Corpo.

1. A FESTA DOS FOLIÕES

Harvey Cox, teólogo reformado e professor em Havard, em seu livro The feast of fools, em português foi publicado com o nome A festa dos foliões[1], apresenta-nos a Festa dos Foliões, também chamada de a Festa dos Loucos, como uma espécie de carnaval da Idade Média em que o lumpesinato e:

[...] até padres geralmente piedosos e cidadãos ordeiros colocavam máscaras grotescas, cantavam insinuantes modinhas e, numa palavra, mantinham todo mundo em suspenso por suas sátiras e folias.

E mais, era incentivado pelos padres que compunham o baixo clero:

Componentes do baixo clero lambuzavam a cara, estadeavam por aí em trajes reservados a seus superiores e arremedavam os pomposos rituais da Igreja e da Corte. Às vezes escolhia-se um príncipe da bagunça, um rei-palhaço ou um bispo-garoto para presidir os eventos. Em alguns lugares, o bispo-garoto até parodiava a celebração duma missa. Durante a Festa dos Foliões, não havia costume nem convenção social que não se expusesse ao ridículo subtrair-se à sátira.

Por seu conteúdo crítico social, COX destaca que:

A Festa dos Foliões não era nunca prestigiada pelas classes privilegiadas, mas antes condenada e critica sem cessar. Mas a despeito dos esforços de gente de Igreja que se via atingida, e duma condenação formal baixada, em 1941, pelo concílio de Basiléia, a Festa dos Foliões sobreviveu até o século dezesseis, quando então, na época da Reforma e Contra-Reforma, foi esmorecendo gradativamente.

Tal festa ocorria em dois períodos distintos. O primeiro, cerca de 15 dias antes da  celebração do Ano Novo Judaico. O segundo, na semana que antecipava o início da Quaresma tendo seu término na Quarta-Feira de Cinzas. Como veremos a seguir, tais datas sofrem influência da FESTA DE PURIM registrada no livro de Ester. No entanto, o que se celebra em Purim? Segundo HAMILTON:

Com base em Ester 9.20-28 fica-se sabendo que o Purim foi uma festa instituída por Mordecai para comemorar o fato de os judeus terem sido livrados da trama de Hamã para matá-los. A observância de Purim foi instituída depois que Hamã lançou sortes para determinar o mês em que devia ocorrer a matança. Ester 3.7 diz que Hamã, já tendo-se decidido pelo pogrom, consultou as sortes apenas para saber o dia mais propício para extirpar a raça dos Mordecai. A LXX acrescenta ao TM as seguintes palavras: “E a sorte recaiu sobre o dia catorze do mês de adar” (março/abril); ou seja, o decreto iria entrar em vigor quase um ano depois de sua promulgação original. Alguém há de perguntar: por que Hamã expediu o decreto com quase 12 meses de antecedência em relação à data proposta para a matança? Seria exagero ver nessa decisão incomum de Hamã a mão soberana de Deus uma vez mais protegendo os seus filhos, muito embora estivessem exilados?[2]

O livro de Ester registra que tais dias deveriam ser de “descanso” (Shabat: cf. Gênesis 2.1-3; Aos Hebreus 4), “dia de alegria e de banquetes e dia de festa e de mandarem porções dos banquetes uns aos outros” (Ester 9.17,19). Dia de celebração pois “se lhes mudou  de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa” (Ester 9.22a) . Dia de tomada de uma profunda consciência e responsabilidade social com os pobres (Ester 9.22b) e de desejo constante de conversão: aqui representados pela prática do jejum e de lamentações (Ester 9.31). Ainda, a Bíblia Sagrada – Tradução da CNBB traz um comentário exegético ao texto de Ester 9.20-32 que ajudar-nos-á a perceber a correlação entre a festa do Carnaval e seu propósito pedagógico com a celebração da Quaresma:

Quinze dias antes do fim do ano persa e judaico, celebrar-se-á a festa de Purim (Sortes), em comemoração da desforra dos judeus. Na realidade trata-se da antiga festa do fim do inverno, fev.-março, que na Europa deu origem ao carnaval. O nome da festa, Purim (= Sortes), significa a inversão das sortes (do tempo meteorológico), agora aplicada aos judeus: antes oprimidos, agora vencedores.[3]

Concluindo, a Festa dos Foliões adapta à sua realidade a Festa de Purim, também chamada de Festa de Desforra, como antessala da Quaresma e apresenta, como personagem principal, o marginalizado agora senhor da sua história (“antes oprimidos, agora vencedores”). Como aperitivo, celebra a ironia, a crítica social, expõe a nudez do rei; despe o que se acha santo ao revelar sua pecaminosidade. Tempo de ir à desforra para na Quarta-Feira de Cinzas se silenciar, calar, pedir perdão: dia de jejum e lamento.

2. O ESCÂNDALO DO DEUS QUE DANÇA                             
Recentemente William Young, em A Cabana, provocou certa inquietação em algumas comunidades evangélicas ao retratar Deus-Pai como uma mulher negra, gorda e sorridente que gosta de dançar e ouvir música. Vejamos um trecho do livro:

Mack foi em direção ao cantarolar baixo e chegou a uma copa-cozinha onde havia uma mesa com quatro lugares e cadeiras de encosto de vime. [...] Papai estava trabalhando em alguma coisa, de costas para ele, com farinha voando enquanto se balançava ao ritmo da música ou do que quer que estivesse escutando. A canção obviamente acabou, marcada por duas últimas sacudidas de ombros e quadris.[4]

Podemos entender a razão desta inquietação. O pensamento cristão ocidental sofreu grande influência de dois pensadores gregos: Platão e Aristóteles. A idéia de Platão acerca do corpo, relida pelo neoplatonismo agostiniano, será desenvolvida no próximo ponto do nosso estudo, quando dissertaremos sobre a ressurreição do corpo. Contudo, posso adiantar uma coisa somente: não é nada boa. Por sua vez, a idéia de Aristóteles de ser Deus como um “motor imóvel”, presente nos capítulos IX, 5-6 e XII,6-7 da Metafísica, relida por Tomás de Aquino e identificada com a idéia cristã de Deus,  além de formatar Deus o engessou. Para Aristóteles todo movimento é o abandono de uma forma e o recebimento de outra. Ou seja, em relação a substância, movimentar é CORROMPER-SE. Por isso o estranhamento ou escândalo de alguns cristãos com a idéia de um Deus que dança:

Sabemos que tudo no universo é uma dança universal, desde a dança das partículas do átomo e das moléculas, até o giro dos planetas, das estrelas e constelações. Aristóteles, há dois mil e quatrocentos anos, teve a mesma visão do universo ao afirmar que “Deus foi o primeiro a provocar essa dança dos seres, embora ele mesmo não dance. Ele é imóvel, mas impulsionou tudo o que se movimenta”. Um engano de Aristóteles. Ele pensava que fosse uma imperfeição se Deus dançasse. Como pode ele fazer tudo dançar, sem deixar de entrar na dança?[5]

Eis a razão de Nietzsche, um dos três “mestres da suspeita” [6], declarar que só podia crer num Deus que dançava.  Desta forma, acusava o cristianismo de ter convertido Deus em um “rival”[7] do ser humano e seu evangelho libertador como uma forma de opressão: um dysangelion.[8] No entanto, o evangelista Mateus afirma que a sociedade da época de Jesus – como também qualquer outra sociedade e em qualquer tempo – é insensível à musicalidade e à dança, por não acolher a oferta da GRAÇA (Mateus 11.16-19). E mais, São Lucas, no capítulo 15.11-31, compara a ação de Deus à ação do PAI MISERICORDIOSO (vv. 20b, 23-24), que festeja o retorno do filho que partiu e exorta ao filho, que sempre esteve com ele, a que desenvolva uma relação filial - de quem se sabe acolhido em amor - e não servil (vv. 29-32). Ah! Para terminar esse ponto do nosso estudo, uma curiosidade. A palavra Deus em hebreu é la (’el), e sua etimologia, presente na sonoridade AL-EL-IL-OL-UL, está ligada às idéias de: 1 - FORMA VERBAL: girar, voltar, rodopiar, saltar, pular, dançar, movimentar; 2 – SUBSTANTIVO: altura, expansão, música , sino e som. Ainda, no texto de Gênesis 1.2, Deus voa e revoa (RAHAF) sobre as águas como que dançando sobre a face do abismo. E mais,

Deus aparece a Moisés na sarça ardente, no meio das chamas. Os cristãos dizem que ele desceu sobre os apóstolos no dia de Pentecostes em forma de línguas de fogo, ao som dum vento impetuoso. Repare bem: AVE VOANDO e REVOANDO, CHAMAS CREPITANDO e RETORCENDO-SE, VENTO SOPRANDO, ASSOBIANDO, RODOPIANDO. Quem é que dança mais que a AVE, o FOGO e o VENTO?[9]


As imagens de Deus como “ave, fogo e vento” são palavras-metáforas que expressam a idéia do Deus que dança: não apreendidas por Nietzsche, reveladas pela GRAÇA, porém. Portanto, uma vez que a própria Bíblia revela-nos a face do DEUS FESTIVO, acredito que temos subsídios suficientes para o resgate de uma das dimensões do ser humano, imago Dei, que é a sua capacidade de festejar, celebrar e, assim, viver no agora, antecipadamente, a festa da ressurreição do corpo.

3. HOMO FESTIVUS: RESGATE E ANTECIPAÇÃO DA RESSURREIÇÃO DO CORPO.
Como antecipei no bloco anterior, no tocante à corporalidade, o cristianismo do Ocidente, neoplatônico e agostiniano, releu alguns princípios centrais do pensamento de Platão, cristianizando-o e adaptando-o à sua intenção teológica.  Um dos pontos foi a teoria das idéias de Platão que partem da compreensão de que “o processo de conhecimento se desenvolve por meio da passagem progressiva do mundo das sombras e aparências para o mundo das idéias e essências.” [10] Assim, o conhecimento, para ser autêntico, deve ultrapassar a esfera das impressões sensoriais [coisas do corpo], o plano da opinião, e adentrar na esfera racional da sabedoria, o mundo das idéias [identificado por Santo Agostinho como as “coisas” da alma]. Daí, conclui-se: a alma é superior ao corpo. Cotrim apresenta-nos a apropriação de Platão feita pelo Bispo de Hipona:
Agostinho defendeu a superioridade da alma humana, isto é, a supremacia do espírito sobre o corpo, a matéria. A alma teria sido criada por Deus para reinar sobre o corpo, para dirigi-lo à prática do bem. O homem pecador, entretanto, utilizando-se do livre-arbítrio, costuma inverter essa relação, fazendo o corpo assumir o governo da alma. Provoca, com isso, a submissão do espírito à matéria, equivalente à subordinação do eterno ao transitório, da essência à aparência. [11]
Neste ponto, embora reconheça as grandes contribuições de Agostinho à reflexão teológica, o Bispo de Hipona foi infeliz e nada bíblico. A resultante desse discurso é que o corpo - e as coisas do corpo - foram identificados com a sa,rx [sarks: carne] paulina.  O corpo, “templo do Espírito” (I Aos Coríntios 6.19-20), portanto belo, tornou-se algo feio e ruim. Um animal feroz a ser dominado e subjugado.[12] No entanto, é essa a compreensão bíblica da corporalidade? Se sim, por que Paulo proclama em alto e bom som que o que ressuscita é o corpo e não a alma? São as coisas do corpo, coisas da sa,rx [sarks]? A Escritura Sagrada testemunha que o corpo é bom. O Eterno, após criar o ser humano, viu que era “muito bom” (טֹוב מְאֹד - Gênesis 1.31). Em Gênesis 2.7,22, Deus, como um artesão, com suas próprias mãos, cria e dá forma ao corpo humano. Ainda, o corpo é tão belo que há um livro que canta a sua beleza: Cântico dos Cânticos. Em Jesus, os corpos doentes e possuídos por demônios são curados e dignificados: há vários relatos de cura no Novo Testamento. O evangelista João, rebatendo os gnósticos docetas, afirma que Deus mesmo, a PALAVRA, encarnou-se, literalmente, “armou tendas”, assumindo nossa humanidade (João 1.14): por isso, os cristãos celebram o Natal – a Festa da Encarnação.
É assim: neste corpo tão pequeno, tão efêmero, vive um universo inteiro, e, se ele pudesse, bem que daria a sua vida pela vida do mundo. No nosso corpo se revela o desejo de Deus. Afinal de contas, o que nos segreda a doutrina da encarnação é que Deus, eternamente, quis ter um corpo como o nosso. Você já pensou nisto? Que no Natal o que se celebra é o nosso corpo, como coisa que Deus deseja.[13]
Em Paulo, a ressurreição do corpo é celebrada com alegria e de forma antecipada. Veja que bela letra, de uma antiga canção cristã, que o Apóstolo das Nações registra em uma de suas cartas: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. (I aos Coríntios 15.54-57). Nele, o corpo é chamado de “templo do Espírito” (I aos Coríntios 6.19-20), “Corpo-Casa-Cosmos”[14], local onde Deus habita. Por isso, a exortação para que não o coisifiquemos (I aos Coríntios 6.13-15). Na teologia paulina, já participamos da ressurreição do corpo através do Batismo (Aos Romanos 6.1-14) e, por ele, somos imersos no Corpo de Cristo: a sua Igreja (I aos Coríntios 12.12-31). Quanto à confusão dos termos corpo e sa,rx [sarks] (carne), presente no neoplatonismo agostiniano, faz-se necessário um esclarecimento. A palavra sa,rx, quando contrastada a Espírito, expressa a idéia de “desejo egoísta” (cf. aos Gálatas 5.16-21; aos Romanos 8.1-11). Eis o motivo de Paulo, na parte final de aos Gálatas 5.26, exortar os crentes da Galácia a que “não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros”. Portanto, os desejos da sa,rx nada tem a ver com os desejos do corpo. E mais, Paulo, como bom judeu, compartilha da idéia de que o corpo (sw/ma: sôma) designa o ser humano todo, indivisível.
O fato de que sw/ma pode designar o corpo bem como o ser humano todo, a pessoa, baseia-se num modo de pensar corrente no AT (onde vale a mesma coisa para rfb [baśar]), bem como no judaísmo. Esse modo de pensar se compreende a partir do fato de que, para o ser humano, o corpo não é uma coisa como os objetos do mundo exterior, mas justamente o seu corpo, que lhe é dado e ao qual está entregue. É em seu corpo que ele faz tanto a experiência primária de si mesmo, quanto se depara com sua sujeição a poderes estranhos em primeiro lugar em sua dependência corporal deles.[15]
Em outras palavras, Paulo, em seu ensino sobre a ressurreição do corpo, destoa do discurso dualista, presente, até hoje, na nossa herança cristã agostianiana e reformada:
Portanto, Paulo não distinguiu, de modo dualista, o eu do ser humano (a “alma”) do sw/ma corporal como um envoltório que não lhe é adequado, como uma prisão, e sua esperança não vai no sentido de uma libertação do eu da prisão do corpo, mas no sentido da ressurreição somática ou da transformação do sw/ma sujeito à sa,rx em um sw/ma pneumático, isto é, governado pelo pneu/ma [pneuma: Espírito]. Assim como a salvação em relação ao sw/ma tou/ qana,tou [corpo da morte], esperada ansiosamente em Rm 7.24, significa a liberação em relação à sa,rx [...], assim a avpolu,trwsij tou/ sw,matoj [redenção do corpo], esperada em Rm 8.23 – caso não se tenha em mente a redenção do corpo, e sim realmente na redenção em relação ao corpo - , é a redenção em relação ao corpo sárquico, isto é, à sa,rx.[16]
Finalizando, os cristãos já podem celebrar, como nova humanidade redimida em Cristo, a Ressurreição do Corpo: corpo livre do poder do eu, homo festivus, porém.
PERGUNTAS ORIENTADORAS:
1) Qual é a razão de a festa do Carnaval antecipar a quadra da Quaresma no nosso calendário? Qual é a sua motivação pedagógica?
2) Qual é a relevância, para a prática cristã, a imagética de um Deus que dança?
3) “Não só a alma do mal salvar / Também o corpo ressuscitar”: corpo e corporalidade como desafios à missão da Igreja



[1] COX Harvey. A festa dos foliões: um ensaio teológico sobre festividade e fantasia. Petrópolis: Vozes, 1974, p.11.
[2] HAMILTON, Victor P. rwp (pûr) sorte. In: HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR, Gleason L; WALTKE, Bruce K (Orgs.). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. Tradução de Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvaldo C. Pinto. 2. Ed. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1208.
[3] BÍBLIA SAGRADA – Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Introduções, notas e vocabulário: Johan Konings. São Paulo: Loyola, 2002, p. 542.
[4] YOUNG, William P. A cabana.Rio de Janeiro: Sextante, 2008, p. 80-81.
[5] SOUZA, Rômulo Cândido. Palavra, parábola. Uma aventura no mundo a linguagem. São Paulo: Editora Santuário, 1990, p. 35.
[6] Paul Ricoeur popularizou como os três “mestres da suspeita”: Nietzsche, Freud e Marx. Eles foram os descobridores dos novos “continentes” (Althusser) sobre os quais se assenta o específico da modernidade.
[7] Recomendo a leitura: NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Nova Cultural, 1999, (Coleção Os Pensadores).
[8] Palavra grega cujo significado é má notícia. Cf. QUEIRUGA, Andrés Torres. Do terror de Isaac ao Abba de Jesus. Por uma nova imagem de Deus. São Paulo: Paulinas, 2001.
[9] SOUZA, op. cit., 36.
[10] COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas.São Paulo: Saraiva, 2000, p. 97
[11] Op. cit., p. 119.
[12] Essa compreensão agostiniana de descaso com o corpo é que possibilitou, de certa forma, tanto na sociedade escravagista como na industrial-capitalista, a exploração do corpo, sua comercialização e total desvalorização. Segue uma citação: Pensamos encontrar Deus onde o corpo termina: e o fizemos sofrer e o transformamos em besta de carga, em cumpridor de ordens, em máquina para o trabalho, em inimigo a ser silenciado, e assim o perseguimos, ao ponto do elogio da morte como caminho para Deus, como se Deus preferisse o cheiro dos sepulcros às delicias do Paraíso. E ficamos cruéis, violentos, permitimos a exploração e a guerra. Pois se Deus se encontra para além do corpo, então tudo pode ser feito ao corpo. In: ALVES, Rubem. Creio na ressurreição do Corpo. Meditações. São Paulo: Paulus, 1984, p.8.
[13] ALVES, op. cit., p. 7.
[14] A expressão “Corpo-Casa-Cosmos” foi empregada por Mircea Eliade e, a cito, por entender que tal terminologia poderá nos auxiliar no aprofundamento da idéia do corpo como templo de Deus: espaço do Sagrado. Cf. ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 141.
[15] BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Teológica, 2004, p. 252.
[16] Idem, op. cit., 257-258.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ESPÍRITO SANTO

Por Rev. Áureo Bispo dos Santos

INTRODUÇÃO

As reflexões e os estudos sobre a natureza e a operação do Espírito Santo têm sido quase que esquecidos após os períodos apostólico e pós-apostólico, obscurecido pelas as ênfases na Cristologia (natureza divino–humana de Jesus), tornando-se a terceira pessoa da Trindade, apenas um item do credo apostólico (“...concebido por obra e graça do Espírito Santo”) uma lembrança na repetição da benção apostólica (“Em Nome do Pai do Filho e do Espírito Santo”) expressos nas manifestações litúrgicas das igrejas cristãs e nos diversos credos.

O interesse pelo ministério e ação do Espírito Santo ressurge nas instituições teológicas, universidades, igrejas e organizações ecumênicas a partir dos grandes avivamentos religiosos do século XIX e na emergência dos movimentos chamados

Pentecostais, Neo-pentecostais e Carismáticos no início do século XX até hoje.

Este estudo visa a oferecer uma despretensiosa colaboração a estudantes de teologia e membros de comunidades cristãs que desejam conhecer melhor o tema já  referido.

1. Conceituação

O termo Espírito Santo pode ser conceituado a partir de dois (2) enfoques: primeiro, o lingüístico Ruah (Espírito) no hebraico e Pneuma (Espírito) no grego traduzido por vento, ar, sopro; e, segundo, o bíblico-teológico:

Ruah Yavé (Espírito de Javé) ou Espírito de Deus (Gen.1:2, Isa.32:15) e Ruah Gadosh (Espírito de Javé) ou Espírito Santo (Sal. 51:11 e Isa. 63:10) ambos significando que o Espírito Santo é o Espírito de Deus no Antigo Testamento e o Espírito do Senhor Ressurreto ( II Cor 3:17 e18 e Gal.4:6) no Novo Testamento e ainda é a 3a. pessoa da Trindade, fruto da reflexão teológica da Igreja sobre os atos salvíficos de Deus revelados nas Escrituras que levaram os teólogos a formularem a doutrina da Trindade aceita pela Igreja Cristã através dos tempos.

Personalidade e posição do Espírito na Trindade – Experiência Trinitária do Espírito.
A definição lingüística do termo Espírito como ruah (hebraico), vento, sopro ou ar, sem a contextualização bíblico- teológica permitiria ver o Espírito, simplesmente como uma energia impessoal e física. Ao passo que a reflexão bíblico-teológica revela que o Espírito é um Deus pessoal, dinâmico, ativo, inteligente e amoroso, criador dos céus e da terra e Senhor- Soberano sobre todo o Universo. O Espírito Santo é o Espírito de Cristo Ressurreto que se tornou carne e osso. Não ocupa uma posição inferior e subalterna ao Deus Pai e ao Deus Filho. Mas, sim uma posição de igualdade e com o mesmo poder.

A Bíblia não desenvolve uma doutrina da Trindade. Mas, a Igreja Cristã tem através dos séculos, debruçado sobre estas mesmas Escrituras e tem descoberto aí as maneiras diferentes de Deus agir e, a partir desta reflexão, tem formulado a Doutrina Trinitária. Não se pretende neste trabalho, fazer uma exaustiva reflexão sobre o lugar do Espírito Santo na Trindade. Este estudo se restringe a uma visão geral sobre a posição do Espírito e ao mesmo tempo, a busca de um entendimento da relação do Espírito Santo com o Deus Pai e o Deus Filho, como é apresentado nas Escrituras.

Quando se fala de Pai, Filho e Espírito Santo não se refere a uma parte de Deus, outra do Filho e, ainda outra do Espírito, ou de um Deus diferente. Mas, de um só Deus: O Pai, o Filho e o Espírito Santo é Deus; todos são um e o mesmo Deus, expressando-se, simultaneamente de diferentes maneiras (Heb.1:1-3). Um Deus em três pessoas significa um Deus que age em três diferentes formas de existência como um único Deus.

É a ação redentora de Javé que se revela através dos atos salvadores que se realizam na História da Redenção conforme se verifica no Antigo e Novo Testamentos. É um mesmo Deus que age como Pai, como Filho e como Espírito Santo em diferentes momentos.

O Espírito Santo e Javé em sua missão redentora.
O Espírito Santo executa a sua atividade redentora ungindo e inspirando os profetas, juizes e reis para exercerem sua missão de liderança junto ao povo de Israel (Gn.41:38,Juizes 3:10,cf.Miq.12:36,Atos 4:25,28:25,II Pedro 1:21)

Há certas características da ação do Espírito de Deus que merecem ser mencionadas:

O Espírito de Deus aparece no V.T, como criador e soberano (Gen.1:1 e Isa. 42:5) sobre o povo de Israel e, também sobre outros povos (Isa. 42:1 e Jer.27:6). O salmista identifica o Espírito de Deus como o Espírito Santo pela

primeira vez no V.T. (Sal. 51:11). Isa. 11:2 e 61:1 e Miq. 3:8 consideram a sabedoria e o entendimento como dons do Espírito de Deus.

No V.T., o Espírito ainda não repousa sobre todo o povo de Israel. Mas, só sobre indivíduos. Este derramamento é apenas uma aspiração e uma promessa (Num. 11:24 e Joel 2:28). O Espírito não é um agente permanente na vida das lideranças escolhidas por Javé. Ele intervém, acidentalmente animando estes líderes para conduzirem Israel. Todavia, há momentos em que, o Espírito, também os abandona (I Sam. 10:6 –11; 11, 11:6 e 16:14).

Raramente, a expressão Espírito Santo aparece no Antigo Testamento. Geralmente surge como espírito ou espírito de Deus. Já no Novo Testamento, é  uma constante como se verá a seguir.

O Espírito Santo e Jesus
A presença e ação do Espírito na vida, missão, morte e ressurreição de Jesus

São, intimamente relacionadas, inseparáveis e constantes. Contudo, diante da

natureza deste trabalho, limitar-se-á a salientar os seguintes aspectos:

4.1 A concepção de Jesus

Mateus e Lucas registram que o nascimento de Jesus é geração do Espírito Santo (Mat. 1:18-20 e Luc 1:31-35). Jesus é concebido para exercer a missão salvífica do mundo.

4.2 O Batismo.

De acordo com os quatro evangelistas (Mat.3:13-17,Mc.1:9-11,Luc. 3:21-22 João 1:31-33), no momento do batismo de Jesus por João Batista, o Espírito de Deus desce sobre Ele, em forma corpórea e a voz do céu testemunha que Jesus é o “Filho amado” de Deus.

Os Evangelhos assinalam que Jesus tem a plenitude do Espírito Santo permanentemente. Nisto está a diferença entre Jesus e os líderes da Antiga Aliança onde a presença do Espírito é acidental e esporádica. Os evangelhos mostram que no período de Jesus, (especificamente Luc.16:16), o Espírito centraliza todo o seu poder unicamente Nele e no seu ministério. No V.T. o homem é possuído pelo Espírito, enquanto Jesus o possui já desde o nascimento.

4.3 A Tentação

Marcos e Mateus ressaltam que, em certos momentos na vida de Jesus, o Espírito é o agente, evidenciando certa passividade de Jesus nesta relação em que, é  “possuído” e “conduzido” (Mat.4:1 e Mc. 1:12 e 13); já Lucas salienta o aspecto ativo e dinâmico em que Jesus é “possuidor”

(Luc. 4:1) (“Jesus, cheio do Espírito Santo é levado no Espírito” - PNEUMATI – no grego e não pelo Espírito – TÔ PNEUMATI – Mc.1:12).

4.4 A Ressurreição

No evento da ressurreição, constata-se uma relação, aparentemente contraditória: Enquanto Jesus –Morto é ressuscitado pelo Espírito (Rm 8:11), após a ressurreição o Senhor ressurreto é o doador do Espírito (Luc. 24:49, João 20:22 e Atos 2:33). No primeiro momento , a passividade de Jesus alcança uma dimensão –limite, enquanto no segundo, a atividade, também atinge a dimensão limite. Como entender esta contradição? Esta divergência registrada nos sinóticos e, posteriormente em Paulo, deve ser interpretada a partir dos seguintes enfoques: primeiro, há uma identificação entre o doador e a dádiva, ou seja, o Senhor ressuscitado e o Espírito Santos aparecem como uma só realidade, uma só pessoa (Luc.12:12;21:15, Atos 10:14 e 14;16:17; Rom. 8:4, 2Cor. 3:17 e 18 Gal. 4:6). Contudo, esta identificação não deve ser entendida absolutamente, pois nos três períodos da redenção (Lei e os Profetas, Jesus e a Igreja), há ocasiões em que as funções específicas do Pai, Filho e Espírito Santo se evidenciam mais salientes do que em outras; segundo, esta relação ativo –passiva deve ser interpretada dialeticamente, isto é, há instantes em que os autores do NT, ora enfatizam a dimensão ativa, ora a passiva; terceiro, os mesmos evangelistas e apóstolos vêem Jesus como o centro de todo o plano salvífico para o qual todas as atenções se devam volver e, para eles, é a própria missão do Espírito Santo levar Jesus a ser reconhecido, exaltado e aceito pelos homens.

5. O Espírito Santo e a Igreja

O Espírito cria a igreja no dia de Pentecostes (Atos 2:1-13) de acordo com a promessa profética (Joel 2:28) e do Senhor Ressurreto (Atos 1:5-8) com características e missão definidas. Este mesmo Espírito é o que a cria, regenera, santifica e dinamiza.

Quanto à questão de quem cria a Igreja se é o Espírito Santo ou o Senhor Ressurreto, já se constatou que os evangelistas e Paulo identificam o Senhor Ressurreto com o Espírito Santo nas ações redentoras. Daí que, ora é o Senhor que promete mandar o Espírito, sopra–o nos apóstolos (João 20:2-22) e acrescenta novos membros à Igreja (Atos 2:4), ora é o Espírito Santo que cria, guia os apóstolos e evangelistas na obra missionária (Atos 4:8,6:10,8:29,10:19,13:2-4,20:24), inspira as decisões e exortações que levam à unidade da Igreja (Atos 15:28 e Ef. 4:1-6), estabelece os ministérios (Ef. 4:7-16) necessários à comunidade (Atos 6:6, 20:28) e inspira as escrituras e fala através dela (Heb. 3:7;9:8 e 10:15). Portanto, nesta relação Espírito –Igreja –Senhor Ressurreto, sempre se deve levar em conta que o Espírito Santo é o Senhor Ressurreto que cria a Igreja. Com este entendimento, pode-se partir para examinar a mensagem do Pentecostes. Este evento revela, claramente que a Igreja deve viver e proclamar: primeiro, a unidade de todos os povos e raças (Judeus, Egípcios, Romanos, Gregos, Árabes, etc. - Atos 2:9-10, Samaritanos- 8:4-22, Etíope - 8:26-39 e Cornélio – 10:1-48) e o Espírito leva a Igreja a romper as barreiras raciais e religiosas; segundo, a totalidade na diversidade como fruto do derramamento do Espírito Santo em que todos os membros do grupo se tornaram uma comunidade carismática com uma variedade de dons, sem distinção de idade (jovens e velhos), de gênero (homem e mulher) e classe social (servos e servas – (Atos 2:16-18 e ICo. 12a 14), constatando que estas características sempre aparecem no surgimento das comunidades neo-testamentárias (Coríntios, Gálatas, Éfeso, Tessalônica, etc);terceiro, a unidade de Judeus e Gentios/cristãos (Atos 15:28); no bojo do evento de Pentecostes uma verdadeira mensagem ecumênica expressa em que não só os cristãos, mas também, todos os povos são chamados a unir-se ao redor de um só Senhor que ama a todos sem “acepção de pessoas” (Atos 10:34); quarto, a Igreja recebe u’a missão profética vétero-testamentária (Isa. 61:1-2) – “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me surgiu para evangelizar aos pobres, enviou-me a proclamar libertação dos cativos e restauração da vista aos cegos.

Quando a Igreja, ungida pelo Espírito, para dá continuidade a esta missão em palavras e atos (Atos 2:43-44;3:1-10;5:12-16;6:10;8:28-35); quinto, a contemporaneidade da ação do Espírito Santo na Igreja significa que Ele é livre e independente para operar no presente como operou no Pentecostes tão bem explicitado por João 3:6-8 e Paulo 2Cor. 3:17; e sexto, a Igreja, como criação do Espírito tem de produzir os frutos deste mesmo Espírito como amor, paz, alegria, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gal. 5:22-23 e 25), em contraposição aos frutos do pecado: inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas e orgulho (Gal. 5:19-21)

5.1 O Espírito Santos e a Regeneração da Igreja

A regeneração é  um ato de transformação da Igreja como um todo e dos seus membros, individualmente pelo poder do Espírito.

Da Igreja

Ainda que a Igreja seja criada pelo Espírito não significa que este ato a torne perfeita. Ela continua a ser uma comunidade de pecadores justificada pela graça e misericórdia de Deus. É, simultaneamente justa e pecadora, vivendo numa tensão permanente, que poderá levá-la para a justiça ou para o pecado. Só o Espírito poderá mantê-la neste equilíbrio dialético. Todavia, tudo vai depender da disponibilidade da Igreja de estar aberta à ação do Espírito. Se por um lado, a história tem registrado que a Igreja, na maioria das vezes, tem-se voltado a viver segundo os ditames da “carne” e, daí, tornar-se endurecida, esclerosada e ossificado por rejeitar a missão para a qual foi chamada; por outro, esta mesma história tem constatado que, há momentos em que a Igreja é sacudida pelo vento do Espírito que a vivifica. A visão do vale de ossos secos de Ezequiel 37 em que o profeta descreve o estágio de morte em que o povo de Israel se encontra; a reforma do século XVI e a expressão da tradição reformada “ecclesia reformata semper reformanda”(Igreja reformada sempre se reformando), explicam, muito bem, o processo pelo qual a Igreja tem passado através dos tempos, de reforma, renovação, revidificação pelo poder do Espírito Santo.

b) Do Cristão(a)

Se a Igreja como um todo passa pelo processo de regeneração, també cada membro desta comunidade. Ele(a) se torna uma nova criatura (2Cór. 5:17); um ser que nasce de novo (João 3:3,8). O Espírito leva o(a) cristão(a) a viver na comunhão dos irmãos (Efé.2:1-5) como filho de Deus (Rm. 8:14-17 e I João 2:20). O Espírito derrama os dons sobre os membros da Igreja para edificação de todos (I Cor. 12:17, IP. 4.10).

O(a) Cristão(a) ainda que salvo(a) por Cristo, continua a ser pecador(a), vivendo semelhante à Igreja, justificado(a) pela graça, mas ainda pecador(a). Paulo chega a expressar esta tensão num grito de tremenda aflição: “miserável homem que sou, quem me livrará deste corpo de morte? (Rom 7:24). A resposta lhe vem em seguida:” a “Graça de Deus me basta” (Rom. 7:25 Ef. II Cór. 12:9). O(a) cristão(a), como a Igreja, está constantemente tentado(a) a viver segundo os desejos do homem velho, nascido segundo o pecado (Rm. 6:6 Ef. 4.24), e, às vezes, “cai na lama”. Porém, o Espírito o(a) levanta, tirando deste lamaçal para uma nova existência (Ef. 4:4) conforme descreve Paulo (Rm 12:1-2). Este(a) novo(a) homem ou mulher recebe u’a missão: É ungido(a) pelo Espírito Santo para dar continuidade à obra de Jesus (Luc. 4:16-21), como participante da Igreja.

5.2 O Espírito Santo, consolador e protetor

Entre a ascensão de Cristo e a sua volta nos últimos tempos, a Igreja e os(as) cristãos(as) não estarão sós como foi prometido por Jesus que mandaria o Espírito (João 20:22) e cumpriu no Pentecostes (Atos 2:1-2). Em vários momentos, a missão do Espírito é de consolação e proteção (João 14:16 – 26;15:26 e 16:7) e de acompanhamento até o fim dos séculos (Mat. 28:20)

6. Espírito Santo e a missão cósmica

O Antigo e o Novo Testamentos apresentam o Espírito Santo como preservador da criação (Gn. 1:2) e o homem como o administrador, mas que, se torna ao longo da história o responsável pela destruição desta mesma criação (Gen. 3:17-20). Os homens e mulheres são partes integrantes desta mesma criação e, também da sua história. Enquanto o Espírito busca preservá-los, eles estão sempre degradando o cosmos.

A ação do Espírito não se limita, somente ao povo hebreu, mas, alcança todos os povos: os faraós e os egípcios (Gn. 41:37-57); a Ciro e os persas (Isa. 45:1) e a Nabucodonozor e os babilônios, (Jr. 25:29, Jn. 3 e 4 e Dn. 4:34-37).

Para Jesus, não  é só Israel que tem fé, mas no mundo gentílico, há  homens e mulheres que tem mais fé que o povo escolhido, como Ele mesmo afirma diante do centurião romano: “Digo-vos que nem ainda em Israel encontrei tanta fé” (Luc. 7;4).

Para Lucas, o Espírito faz ver a Pedro que Cornélio, gentio romano era homem de fé, temente a Deus, cujas obras eram aceitas pelo Senhor (Atos 10:34-35).

Paulo dá muita ênfase à obra de Espírito Santo na criação e na sua redenção e na do homem como criatura sujeita, também à corrupção (Rm. 8:19-26). Para ele, o Espírito está sofrendo em solidariedade à criação com “gemidos inexprimíveis” para libertá-la da destruição. Em Paulo, o homem é parte desta criação e o seu corpo é o sinal visível desta inserção. Ele é como a micro-criação.

O homem tem devastado, poluído, degradado e destruído o Universo. O Espírito está  lutando, incansavelmente para impedir esta terrível catástrofe, pois a criação é não só a morada dos homens, mas também a do Espírito. Ele está agindo com todas as forças no mundo e na Igreja, despertando e conclamando homens, mulheres e organizações, em toda a parte, até a ponto de sacrifício em favor desta natureza cambaleante. Esta é portanto u’a missão cósmica importantíssima e urgentíssima que a Igreja e os(as) cristãos(as) estão sendo chamados(as) a exercê-la hoje.

7- O Batismo do Espírito Santo

De acordo com Lucas e Paulo o batismo do Espírito Santo é visto como:

a plenitude do Espírito na vida dos discípulos “foram cheios do Espírito Santo” (Atos 2:4 e 1:5);

a incorporação do cristão no corpo de Cristo – a Igreja (Atos 2:1-21; 10:44-48);

a recepção da dádiva das bênçãos oriundas da vida, morte e ressurreição de Cristo (Rm. 4:25;2Co. 5;25 e Gal. 3:13); e, também do Reino de Deus já inaugurado, mas que, ainda será estabelecido, definitivamente num futuro determinado por Deus (Atos 1:6-7); e

a garantia de que o cristão, certamente irá participar deste Reino Escatológico (2Cor. 1:22 e 5:5).

Em síntese, viu-se que o Espírito Santo é o criador e mantenedor da criação; o inspirador e iluminador de lideres políticos e religiosos não só do povo de Israel, mas também de outros povos;que gera a Jesus e que o unge para cumprir a missão salvífica de acordo com o plano redentor de Deus; que o ressuscita dentre os mortos para ser o Senhor de tudo e de todos; que cria a Igreja para dar continuidade à missão de Cristo; que transforma e renova a criação, a Igreja e homens e mulheres que, ungidos (às), são chamados (as) ao serviço de implantação do Reino de justiça, paz e amor entre os homens e toda criação. Percebe-se, nesta missão, a existência de uma perfeita harmonia entre Pai, Filho e Espírito Santo, alcançando a sua culminância na grande comissão dada aos discípulos: “Ide ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, Filho e do Espírito Santo” (Mat. 28:19).

Bibliografia:

Boff, Leornado. Igreja, Carisma e Poder. Petrópolis: Vozes, 1982.

César, Waldo; e Shaull, Richard. Petencostalismo e Futuro das Igrejas Cristãs, Vozes e São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1999.

Rolim, Francisco C. Pentecostalismo: Brasil e América Latina. Petrópolis: Vozes, 1995.

Santos, Áureo Bispo dos. O Espírito Santo Hoje. São Paulo: Imprensa Metodista, 1975.

Von Allmen, Jean-Jacques. Vocabulário Bíblico (Trad.), São Paulo: ASTE, S/d.

Autor do artigo:

Áureo Bispo dos Santos

Pastor na Igreja Presbiteriana Unida do Brasil – IPU

Professor do Instituto de Educação Teológica da Bahia – ITEBA

Doutor em Teologia (PhD) San Francisco Theological Seminary, California, E.U.A., 1967

Doutor em Filosofia e Livre Docente, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, Pernambuco, 1975

Endereço: Rua Bento Gonçalves, 02/1204

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