terça-feira, 26 de abril de 2011

Um caminho exigente

Eu vos mostrarei um caminho ainda mais excelente.. ICor.12.31b

A vida cristã é um modo de ser onde a forma de nos relacionarmos expressa a consciência de que Deus nos chama a segui-lo e pede fidelidade de nós, que é afirmada sempre no caminho do amor.  De uma postura que exige de nós muito trabalho. Pois o amor é trabalhoso e requer muita dedicação.
     A espiritualidade cristã firma-se no cuidado, na generosidade, humildade, misericórdia e paciência, é sempre um movimento de nós mesmos para os outros. Nossa dificuldade é que esquecemos facilmente a razão maior da vida cristã, que deve ser vivida na vida de cada um de nós no seu cotidiano, família, emprego, casamento, nas aspirações e urgências da vida. Contudo há tantas solicitações, afazeres, compromissos, o tempo que corre, os sonhos, as metas, a visão, os projetos, um mundo de possibilidades, que acabamos ficando apenas na superfície de nossa religiosidade.
     Não há caminho fácil na via cristã, porquanto sempre a realidade da fé exige de nós algo mais, isso pode ser definido como o amor, que aqui é o contrário da indiferença, do egoísmo e do individualismo.
     Não é apenas naquilo que por vezes definimos como espiritual que encontramos o sinal do que seja amor. A oração, o estudo da Palavra, as dimensões dos bens rotineiros da fé como a devoção, os ritos, as doutrinas, as expressões da música, gestualidades, sacramentalidades não são um fim em si mesmas.Mas apontam para a nossa formação interior, de forma pedagógica a um caráter interior mais amoroso e disponível.
    É nessse entendimento que passamos a compreender que o lugar comum, essencial  da experiência do amor, no qual crescemos na fé, é a nossa própria vida diária,  na  qual experimentamos as lutas e desafios -  a vida cotidiana,  em nossa casa, trabalho e relacionamentos. Seja como pai ou mãe que ama seus filhos, por isso cuida destes, sabendo que como  são crianças requerem  atenção e dedicação, não apenas no sustento, mas no acompanhamento, supervisão e ensino de suas obrigações, responsabilidades e necessidades. Ou da família onde há idosos, um pai já com idade avançada que exige atenção dos filhos, quanto a andar, comer, se, caso tenha sofrido com algum doença crônica, necessitará de um cuidado redobrado, algo que consome por vezes, que cansa, porém que jamais abala as estruturas, pois sendo fruto de um amor, jamais perderá a alegria.

     O sofrimento tratado na perspectiva do amor passará a ser também uma fonte de amadurecimento, diálogo, e consciência de que todos necessitamos de todos, ninguém é auto-suficiente. Do nascimento à velhice recebemos cuidados dos outros. É aqui que olhamos que Deus nos chama como Rei que vem no Cristo na humildade de servo, não no poder imperial, mas no serviço, na força do amor. Para que nossa força não seja o poder, as armas, as posições que ocupamos, mas nossa entrega destemida através da fidelidade a Cristo expressa na perseverança no perdão, da palavra branda, da atenção às virtudes e no que há de bom nas pessoas, não nos  julgamentos, mas na escuta fraterna, no socorro aos gritos e choros daqueles que estão abandonados.

      Enfim, outro lugar onde o amor sempre é desafiado,   é na vida comunitária ou eclesial, um exemplo está na Igreja freqüentada por nós,   ali professamos a irmandade de todos e anunciamos que Deus não quer a destruição, mas a união em torno de um projeto de vida e sociedade chamado reino de Deus, que engloba mais do que uma confissão religiosa, um grupo, mas a vida em todas as suas manifestações , o cosmos, a natureza, os países e mundos diversos e diferentes que habitam nosso planeta. Mas que são vistos na ótica da gratuidade e não da competição ou da exclusão. Por isso oramos Pai Nosso. Mas neste santo lugar chamado comunidade. A tentação será sempre o poder, o fechamento e a imposição, a discriminação, a inveja e anulação do outro. Cabe o esforço para sempre apontarmos e trabalharmos pela união, comunhão e cuidado, a saúde de  nossas comunidades, só sendo possível na força do amor, que é  dom e virtude, de um lado força divina em nós, de outro disciplina exigente que só cresce no altar de um coração generoso, aberto e consciente, que jamais esquece aquilo que  afirmou  Antoine de Saint – Exupéry “ .O verdadeiro amor começa quando não se espera nada em troca”.Assim passamos a perceber que o amor é um grande discernimento que vamos trilhando nas escolhas  e percepções do que seja bom não apenas para nós mesmos, mas para todos.


Rev.Isaque Góes. Teólogo Protestante 
Membro do PEB - Presbitério Erasmo Braga

terça-feira, 19 de abril de 2011

CRISTO, O FILHO DO DEUS VIVO

        Cristo, filho do Deus vivo, confissão feita por Pedro a Jesus, vem mostrar que tipo de pastoreio ele assume. A região de cesaréia de Filipe tinha sido um santuário dedicado ao deus Pã, deus dos rebanhos e pastores, segundo o escritor judeu Flavio Josefo. Andando nesse lugar, com os seus discípulos, Jesus quer saber como o povo vê a sua ação como enviado de Deus. Este lugar também reflete a questão de soberania. O próprio nome, cesaréia, reflete a influencia dos Imperadores romanos denominados césares, e por sua vez a força do poder humano.  É aí que Jesus sente a necessidade de deixar claro que foi enviado para as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 15,24), como contraponto aqueles falsos pastores que enganavam e exploravam o povo, os romanos.
        São nestes lugares de poderes de reis, que são afirmados os propósitos de Deus, ao anunciar que venham até Ele todos os que estão cansados e abatidos pelo peso de seus fardos (Mt 11,28). Foi para que as pessoas pudessem entrar em contato com outro tipo de vida que Jesus veio. É vontade do Cristo, trocar os fardos que as pessoas carregam em suas vidas. Para isso precisavam ser fortes e romper com as forças da morte e acreditar plenamente naquele que veio trazer àquelas pessoas um outro tipo de reinado, o de Deus.
       O inicio desse rompimento era a aceitação de uma nova possibilidade que passava por uma profissão de fé: tu és o Cristo, o filho do Deus vivo. A frase “ tu és” era usada antes, para exaltar os imperadores, ela reconhecia a identidade dos imperadores como representantes da vontades dos deuses. Jesus responde a Pedro que para dar essa resposta ele não agiu pela suas potencialidades humanas, mas por inspiração de Deus.
        Portanto, irmãos e irmãs, todos nós podemos transcender nossa forma humana de conceber a vida e buscar na presença do Deus vivo que está em nós, o alivio e o alento para superarmos todos os nossos pesados fardos e carências.

(por Rev Luis Pereira dos Santos - IPU de Caetité)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome." (Salmo 23.3)

Aquele que compreende a profundidade dessa promessa se torna forte, confiante e destemido. Se o Senhor conduz você por vereda plana e pelos caminhos da justiça por amor do Seu nome, como seria possível algo estar errado em sua vida? Jamais! Todas as angústias, todo o mau humor, toda insatisfação e todas as queixas vêm da incredulidade. Permita-me dizer a você particularmente: o Senhor só é honrado e glorificado se você aceita as Suas promessas como sendo dEle para você bem pessoalmente. Se aqui está escrito: "Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome", isso significa por amor ao nome de Jesus. As promessas da Bíblia são garantidas e certas no precioso nome de Jesus, pois está escrito: "Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus." Essa certeza de ser guiado por vereda plana, por vereda de justiça, consola nosso coração. O mesmo Davi que também tinha essa certeza exclamou: "Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando me alegrares o coração." É como um abençoado círculo divino, depois de nos aproximarmos dEle fica mais fácil obedecer ao Senhor.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

ATÉ QUANDO??

Leiam mais esse maravilhoso artigo, escrito pelo rev Claudio Rebouças (click no link):




Por Um Deus Mais Mundano...


Anda!
Quero te dizer nenhum segredo
Falo nesse chão, da nossa casa
Vem que tá na hora de arrumar...
(Sal da Terra)
Temos vivido nestes dias momentos em que outro modelo de comunidade eclesiástica não só é possível como é urgente que se instaure em nossas relações sociais. Assim, a história humana passa necessariamente por dimensões entre os gênesis e os apocalipses, em um processo longo e contínuo de criação e recriação de si mesmo e do outro em uma relação de espanto e encantamento diante da vida, dos caminhos e descaminhos... Desta maneira, acredito que um Deus mais envolvido com o nosso cotidiano, em cada esquina e praças, feira e mercados, praias e ou clubes... tem muito mais sentido e lugar em nosso século XXI. Ou seja, O Deus do templo precisa também ser percebido e vivenciado nas ruas promovendo justiça social e dignidade humana. Logo, precisamos pensar que Deus é esse que invocamos o seu nome, e ou nós como cristãos estamos a serviço de quem?
O que devemos e podemos fazer é contribuir para a construção de espaços de relacionamentos sociais mais igualitários e acolhedores.
Urge então, que nosso relacionamento com o Cristo de Deus nos torne mais humanos e que a religião em nossa experiência seja para emancipação, para liberdade, para celebração, para a vida... Que junt@s possamos viver e proporcionar o Reino de Deus em todo lugar (um reino humanizador), um Deus que conhece e compreende meu caminhar e estende a mão para a caminhada dizendo-me: Tu és meu (minha)! Levanta-te e anda... Pois, caminhar é preciso e hoje farei grandes coisas não só no templo mais no mundo. Portanto, ficai atento (a)!
Partindo dessa mesma proposta foi que o aniversário da nossa IPU em Muritiba desenrolou-se. Tivemos momentos encantadores e desafiadores para nossa caminhada. Fizemos 25 anos de amor, serviço, partilha... Pensamos no tema: Mundo Palco da Glória de Deus e a divisa em Êxodo. 3.5 “Tira os sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa”. Assim, a proposta era pensar na mundanização de Deus que necessariamente implicaria em outras posturas nossas no e com o mundo. Daí, a terra é santa neste momento não em uma perspectiva geográfica, e sim, porque ela é a pachamama (a mãe terra que nos dá o alimento, que nos dá a vida.
Desta forma, no sábado (02/04/11), tivemos uma noite de louvor com participação de uma banda da igreja do Evangelho Quadrangular (Gov. Mangabeira), cantores da Batista (Muritiba), saudação do moderador do PSVD (Rev. Dagoberto), saudação do representante da ICAR em Muritiba (Sinésio Galvão) e outros(as).
Já no domingo pela manhã, uma programação rica e provocativa nos fazia refletir sobre nossa missão neste chão. Novamente tivemos participação de outras igrejas de nossa cidade (o que alguns chamam de ecumenismo cristão). A reflexão ficou com o Pastor Jorge Nery (Feira de Santana), que impulsionado pelo Espírito nos falou do compromisso com o próximo, de quem Jesus de Nazaré ouviu, sentiu, falou e tocou a vida e clamor dos marginalizados e excluídos pelo poder político-religioso do seu tempo. Também nos falou que Deus transcende o templo e que Ele acontece nos lugares mais inusitados e que nem sempre se encontra nas igrejas (às vezes está do lado de fora querendo entrar (Apocalipse 3.20).
Semelhantemente, o texto bíblico de Êxodos mostra um Deus libertador que sente a dor e ouve o sofrimento das pessoas. Assim, quem é Javé? Quem é Moisés? Estávamos ressignificando nossa identidade enquanto cristãos e cristãs. Daí, após uma palavra de vida e libertação nos preparamos para a eucaristia... Um momento lindo! O Rev. João Dias conduziu o primeiro momento lembrando-nos de alguns poetas que falavam da saudade. A ceia é a hora da saudade dizia João Dias e a melhor maneira de matar a saudade é com um encontro. E, o pão e o vinho representam este encontro com Jesus de Nazaré. Nesse momento, eu chamei os pastores presentes para distribuição dos elementos, a saber: Pr. Jônatas (PIB em nossa cidade) Pr. Edvaldo (Evangelho Quadrangular nossa cidade) e o Pr. Jorge Nery (Feira de Santana). Sem dúvida alguma foi um momento encantador. Que maravilha!
Por fim, após alguns cânticos, avisos e abraços comemos um delicioso bolo e bebemos refrigerante. Assim, nos renovamos diante do Criador, da vida e enchemos o coração de esperança para juntos (as) construirmos este reino de Deus que é acolhedor e transformador de estruturas que oprimem e manipulam a vida e o bem comum.
Forte Abraço, obrigado à tod@s que participaram e até o próximo...
Rev. Cláudio Márcio

quarta-feira, 9 de março de 2011

O PRESBITERIANISMO REFORMADO SEMPRE SE REFOMANDO

O PRESBITERIANISMO REFORMADO SEMPRE SE REFOMANDO
Por Rev. Áureo Bispo dos Santos

Apresentarei uma breve história do Presbiterianismo até à sua chegada ao Brasil. Ele pertence a um dos ramos da Reforma Protestante do século XVI.
Os diversos nomes recebidos pelas igrejas que abraçaram  a Reforma estão, em alguns casos, ligados aos líderes que iniciaram esse movimento em diferentes países: Luteranismo ( Lutero ) e Calvinismo ( Calvino ). Este reformador, na sua investigação bíblico-teológica, encontrou os fundamentos para a formulação das doutrinas e princípios de fé e ordem que passariam a guiar as igrejas na sua vivência interna e na sua missão no mundo. Na Suíça e noutros países europeus, as igrejas que adotaram as formulações de Calvino foram chamadas Calvinistas ou Reformadas. Já na Escócia, a reforma liderada por João Knox leva a igreja a receber o nome de Presbiteriana. Os puritanos que se estabeleceram nos Estados Unidos da América do Norte se denominaram como presbiterianos. Posteriormente, as missões presbiterianas iniciaram a obra de evangelização noutros países. No Brasil, Ashbel Green Simonton foi o primeiro missionário a aqui chegar em 1859.
Em resumo, quer sejam chamadas presbiterianas ou reformadas, estas igrejas, em diferentes países, têm a mesma fundamentação bíblico-teológica e os mesmos princípios de fé e ordem guiados por um sistema de governo representativo conciliar, isto é, no qual os diversos cargos são escolhidos pela congregação.
Dentre os grandes princípios protestantes reformados, tecerei alguns comentários sobre o da IGREJA REFORMADA SEMPRE SE REFORMANDO (ecclesia reformata semper reformanda). Por que os reformadores formularam este princípio? Ao fazerem as suas reflexões sobre a Bíblia e a História da Igreja Cristã verificaram que o povo de Deus no Antigo Testamento estava sempre passando por um processo constante de decadência e queda. Só o espírito de Javé é que revivia os ossos secos, de acordo com a visão de Ezequiel, capítulo 37. O Novo Testamento descreve que Jesus, ao longo do seu ministério, mostrou, claramente a situação decadente e esclerosada em que se encontravam os líderes do povo de Israel (escribas, fariseus e saduceus). Os apóstolos foram veementes em afirmar que as lideranças judaicas chegaram a tal decadência e desobediência que não só mataram os profetas como também a Jesus Cristo (Atos 2:23 e 7:51-60). A história registra os descaminhos da Igreja Cristã, através de treze (13) séculos da era cristã, principalmente após o edito do imperador Constantino que declarou a Igreja Cristã como religião oficial do Império Romano.
No século XVI, a igreja tinha chegado aos limites extremos de uma organização rica, poderosa, gloriosa, acima dos príncipes, reis e imperadores a quem ela coroava, evidenciando a sua superioridade sobre todos eles. Porém, ao mesmo tempo, tornou-se fossilizada, viciada, com uma estrutura hierárquica esclerosada, apregada às tradições do passado e decadente e morta espiritualmente, pois rejeitou a força do Espírito de Deus, tão bem descrito no grande Inquisidor do genial escritor e romancista russo Dostoievski, a respeito do deplorável estado em que chegou a igreja Cristã. É também neste contexto que Lutero e Calvino deram o grito de alerta para que a Igreja percebesse o seu estado decadente e partisse para uma reforma urgente. Para eles, ou a Igreja se reformava ou morreria. Todavia, ela não só deixou de ouvir o brado de Lutero, mas também resolveu abafar completamente a voz profética deste monge dominicano condenando-o e expulsando-o como herege e, não só ele como também a todos que o acompanhasse, chegando a tal crueldade de criar a “Santa Inquisição”, para exterminar os hereges, seguidores dos reformadores. Para estes, sem a reforma a Igreja poderia ser chamada de Cristã. Mas, de Cristã só tinha o nome. Conhecedores do que aconteceu com o povo de Deus no Velho e no Novo Testamento e, com a Igreja Cristã de seu tempo, chegaram a conclusão de que qualquer Igreja Cristã, está, constantemente sujeita a se tornar decadente e morrer se não se renovar. Daí, chegaram a afirmar que as igrejas que saíram da Igreja Católica Romana poderiam, também atingir à mesma situação a que chegou esta. Então, partiram para formular o princípio da Igreja Reformada Sempre se Reformando. Para eles, é imperativo que a igreja esteja sempre pronta a passar por um processo de reforma na sua caminhada de fé, pois há sempre a tentação muito grande para a instituição abafar a voz do Espírito e o testemunho interno deste mesmo Espírito.

1.      A Igreja é santa e pecadora ao mesmo tempo. É uma comunidade de santos(as) e pecadores(as).
O Novo Testamento registra, primeiro que Igreja é uma Nova Humanidade (Ef. 2:11-17); Novo Israel (Gal. 6:15-16); Nova Criação em Cristo salva e santificada por Ele. É uma comunidade viva, dinâmica, corajosa, livre, criativa, pacificadora e amorosa. Mas, em segundo lugar, é pecadora, dissimulada e insensata (Gal. 2:1-14 e 5:15), além de conflituosa e insincera (I Cor. 11:18-19) e, também orgulhosa e vaidosa (Apoc. 3:16-17).
A partir da perspectiva sociológica, a Igreja é uma organização e, como tal, busca sempre manter uma estrutura e formas adequadas a fim de permanecer estável e segura na sociedade, tendendo para uma instituição conservadora. A partir de uma perspectiva bíblica-teológica, é o corpo de Cristo, uma Comunidade de fé e província do Reino de Deus. Estas duas situações levam a Igreja a viver uma constante tensão.
O Novo Testamento descreve, em segundo lugar, esta tensão. Jesus adverte aos discípulos: “orai sem cessar para que não entreis em tentação porque, na verdade o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mat. 26:41). É no grito existencial de Paulo que se percebe esta situação angustiante e paradoxal de se ser santo e pecador simultaneamente, quando brada: “miserável o homem que eu sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rom. 7:27) ou, “o bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero este é o que pratico” (Rom. 8:19).
Diante desta situação de grande perplexidade, vem a resposta do perdão e da misericórdia de Deus, que traz a paz interior: “mas, dou graças a Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor. Assim que, eu mesmo com o entendimento sigo a lei de Deus, mas com a carne a lei de pecado” (Rom. 8:25).

2.      A Igreja é mantida pelo Espírito Santo.
Só o Espírito equilibra esta situação contraditória e ambivalente da Igreja. É um estado extremamente difícil de ser sustentado, a não ser que haja uma entrega incondicional e submissão nas mãos do Espírito de Deus.
O escritor Daniel Jenkins, no seu livro “Strangness of the Church” (Igreja uma comunidade estranha), descreve esta estranheza da Igreja no fato de que quando ela mostra-se envelhecida e, prestes a morrer, de um momento para outro, muda o aspecto e se torna renovada e rediviva. Na carta de Pastor HERMAS, há uma descrição semelhante. Aqui a Igreja é representada como uma velha de cabelos brancos, rosto enrugado, cambaleante e esquelética. Então, o autor volta a olhar a velha e, como surpresa, percebe que os seus cabelos estão pretos e a face se torna como de uma jovem de dezoito anos, com muito vigor e firmeza. É o Espírito que transforma este estado de decadência em vitalidade e renovação. Como já se mencionou, são os “ossos secos” revivificados, segundo a visão profética de Ezequiel.
3.      A Igreja é uma comunidade missionária revolucionária.
Jesus, antes de ascender aos céus, fez uma promessa aos discípulos: “...recebereis o poder do Espírito Santo,  que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia, e Samaria, e até nos confins da terra” (Atos 1:8). No dia de Pentecostes, ele cumpriu a sua promessa quando derramou o Espírito sobre todos que estavam reunidos e os tornou uma comunidade missionária (Atos 2:14-36). O livro de Atos registra a obra extraordinária que o Espírito operou através da Igreja. O Espírito, arrojadamente, conduz a Igreja a ser uma comunidade viva, atuante e radicalmente revolucionária, a ponto de próprios inimigos e perseguidores judeus ficarem perplexos, aterrorizados com o fato de revolução que estes homens e mulheres simples, pescadores, pobres e humildes estarem ocasionando uma revolução chegando a vociferar: “estes que andam revolucionando o mundo inteiro chegaram até aqui” (Atos 17:6). Realmente, a intenção dos judeus era perversa e má. Todavia afirmaram uma grande verdade: A mensagem inspirada pelo Espírito e proclamada pelos discípulos não só converteram milhares de homens e mulheres a Cristo, mas também deixaram os inimigos desbaratados e atônicos, chegando a reconhecer o seu caráter revolucionário quando presenciaram a maravilha que o Espírito realizava por intermédio desta comunidade de fé. Queriam, a qualquer custo exterminar um movimento que estava revolucionando o mundo. Só que não tinham forças para extingui-lo, porque era o próprio Deus que sustentava esta comunidade.
Conclusão:
A identidade da Igreja Presbiteriana tem de estar fundamentada no principio protestante:  Igreja Reformada Sempre Se Reformando. Este princípio revela que a igreja deve viver e ser um movimento dinâmico sempre a caminho. Não há lugar para estabilidade e descanso. Mas, para um processo de reforma e renovação constante, radical e transformador.


EVANGELIZAÇÃO NA PERSPECTIVA DA IPU

                                  
Desde a sua fundação, em Atibaia,SP, no dia 10 de setembro de 1978, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil tem refletido  sobre a sua  prática de Evangelização,. vinculando-a com o seu conceito de Missão. 1°) Para a IPU, fazer Missão é fazer presente o Reino de Deus na realidade humana integral, como foi a prática evangelística de Jesus, descrita nos Evangelhos;” percorria Jesus...pregando do Evangelho do Reino” (MT 4, 23) Essa também foi a prática da Igreja de Tessalônica, que  foi acusada pelos que se opunham  a Paulo, a Silas e aos primeiros cristãos daquela cidade: “Estes que têm alvoroçado o mundo chegaram também aqui...afirmando ser Jesus outro Rei.”(At 17, 6,7) A principal ênfase à Evangelização é apresentar o Reino de Deus aos indivíduos, às famílias, às cidades e ao mundo. Assim foi o primeiro sermão evangelístico de Jesus. (Mr 1,15) A IPU percebeu que a ênfase dada à prática da evangelização como a “salvação da alma” não é a ênfase do Evangelho, que inclui o ser humano total e a sua realidade. Em segundo lugar, o conceito de Evangelização da IPU é: 2º) Fazer Missão é transmitir o “AGAPE” trinitário isto é, o Amor do Pai, do Filho e  Espírito Santo, por isso Jesus, quando evangelizava, além de pregar, “ensinava... e curava “toda  sorte  de doenças e enfermidades entre o povo.” Evangelizar é cumprir o propósito principal da Igreja Cristã que é incrementar entre todos os seres humanos a prática do “amor a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a si mesmo.” (Mr 12,32)  Evangelizar é uma prática de amor e não pode ter, como alvo o crescimento numérico da Igreja local, nem o aumento da renda e do prestígio social estatístico da Denominação. 3°) Fazer Missão é promover a Unidade, como Cristo planejou em sua Oração  Sacerdotal)Jo17, 21-26) a fim de que todos os seguidores de Cristo sejam “aperfeiçoados  na unidade.” Como o Espírito Santo fez no dia de Pentecostes, quando reuniu pessoas vindas “de todas as nações debaixo do céu”, (At 2,5) para ouvirem as mensagens evangelísticas dos Apóstolos de Jesus, que eram ouvidas e entendidas em uma língua só. Foi o milagre da Unidade. E foi formada a 1ª Igreja “una, santa e apostólica”. . Evangelizar não é produzir divisão entre os que crêem, não é fazer proselitismo para tirar pessoas de outras Igrejas para se tornarem membros de nossas Igrejas, como se a nossa Igreja fosse a única e  a perfeita. Nós estamos aqui no Brasil com o objetivo de convidar todos os brasileiros  para aceitarem o “outro Rei, Jesus” e pautarem as suas vidas pelas diretrizes do Reino de Deus. Alguns membros de nossas Igrejas ainda entendem que não é possível ser ecumênico, ou defender a Unidade e Evangelizar porque essa prática seria contraditória. Eles entendem assim porque só entendem Evangelização como Proselitismo, isto é, tirar pessoas de outras Igrejas.  . Mas desde 1968 temos uma nova compreensão  sobre as populações da América Latina e principalmente do Brasil, porque na Assembléia do CELAM(Conferência Episcopal Latino Americana} , em Medellín, na Colômbia, os bispos católicos romanos do Brasil declaram que “falta à maioria de nossa população uma adesão pessoal ao Cristo, com todos as sua implicações individuais e sociais”,  e mostraram a importância da Evangelização. Para nós, das Igrejas evangélicas isso deve ser uma palavra de alerta que mostra que a no obra de Evangelização devemos incluir os nossos lares, os nossos parentes, os nossos vizinhos, o nosso bairro porque vamos encontrar muitas pessoas que não fizeram ainda a sua “adesão pessoal ao Cristo” dos Evangelhos.

Rev João Dias de Araújo (joaodiasaraujo@uol.com.br)