quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Um homem de Deus

Existe um profeta no Antigo Testamento que, com fre­quên­cia, é chamado de “homem de Deus”. Trata-se de Eliseu (“Deus ajuda”). Certamente o povo via em suas ações a manifestação da vontade de Deus. Isso se mostra nos relatos que o povo contava sobre Eliseu (especialmente em 2 Reis 4-8): eles procuram enaltecer sua figura, atribuindo-lhe diversas curas e milagres.
Eliseu foi vocacionado enquanto lavrava o campo com uma junta de bois. Antes de seguir seu mestre – Elias –, “tomou a junta de bois e os imolou e, com os aparelhos dos bois, cozeu as carnes e as deu ao povo e comeram” (1 Reis 19.21). Ao matar os bois e queimar a madeira do arado para fazer uma refeição para seus familiares, Eliseu marca o fim de uma vida estável para seguir sua vocação. Como líder espiritual de um grupo de profetas, seus discípulos, restava confiar no auxílio divino.
Esse homem de Deus identificava-se com o povo simples. As narrativas bíblicas contam como ele se ocupava com as necessidades básicas do povo: ele torna saudáveis as águas da fonte de Jericó, garantindo as colheitas e a sobrevivência do povo (2 Reis 2.19-22); aumenta o azeite de uma viúva pobre, evitando que seus filhos fossem vendidos como escravos para pagar as dívidas; restitui a vida do único filho de um casal (2 Reis 4); recupera o machado que um discípulo – por ser pobre – havia pedido por empréstimo e que caíra no rio Jordão, garantindo, assim, o seu ganha-pão (2 Reis 6.1-7); ou neutraliza as toxinas que se encontram nas colocíntidas, que, por descuido, vieram parar no sopão comunitário (2 Reis 4.38-41).
Ilustração João Soares
Eliseu também defende diante do rei a devolução de uma propriedade que esse havia tomado de sua legítima proprietária (2 Reis 8.1-6). Todas essas histórias mostram como Eliseu se engaja pelos direitos elementares do povo: alimentação sadia, água pura, liberdade, possibilidade de trabalho, justiça e vida.
Para proporcionar vida a todos, Eliseu sabia que o segredo era partilhar o pouco que se tem. Quando alguém lhe trouxe vinte pães de cevada e alguns grãos tostados do cereal, ele mandou distribuí-los entre o povo, umas cem pessoas, “porque assim diz o Senhor: Comerão e sobrará” (2 Reis 4.43s). Apesar de ter angariado fama, sempre fora uma pessoa simples e não se deixou levar pela ambição da riqueza. Não aceitou, por exemplo, os ricos presentes de um alto funcionário estrangeiro que havia curado da lepra (2 Reis 5).
Esse homem de Deus também propõe uma nova política internacional, como mostra a história de 2 Reis 6.8-23. Numa época de conflitos armados com os vizinhos de Israel, os arameus ou sírios, Eliseu sempre previa onde os sírios estavam emboscados e avisava os israelitas para evitar o confronto. Quando descobriram isso, os sírios tentaram prendê-lo, mas não conseguiram porque, conforme o texto, a tropa que buscava o profeta foi ferida de cegueira (6.18) e levada pelo próprio homem de Deus à capital de Israel.
Então seus olhos se abriram e viram que eram prisioneiros do rei inimigo. Esse quer matar os inimigos, mas Eliseu tem outra proposta: “Não os ferirás … Manda colocar diante deles pão e água para que comam e bebam e voltem a seu senhor”. E assim se fez. A história diz que os soldados sírios comeram, beberam e voltaram para casa e conclui assim: “Da parte da Síria não houve mais investidas contra a terra de Israel”. O respeito com os prisioneiros de guerra teve o efeito desejado: voltou a reinar paz entre os povos. A narrativa mostra que quem está profundamente preocupado com as necessidades básicas do povo também pode contribuir para resolver de modo pacífico um conflito internacional.

* Nelson Kilpp  é pastor  da IECLB, especialista em Antigo Testamento. Texto cedido pelo  autor publicado na Revista Novo Olhar da Editora Sinodal nº 36..

Formação de lideranças para o bom uso dos dons

“Igreja reformada, sempre se reformando”, este foi e continua sendo o lema mais conhecido e repetido da Reforma Protestante. Inspirado nele, as igrejas vêm procurando atualizar os seus posicionamentos teológicos diante dos diversos desafios que o mundo nos traz com todas as suas inquietações e rápidas transformações. Atualizar os posicionamentos teológicos adaptando-os às exigencias de um mundo em constante mudança é tão importante quanto preparar pessoas para que a igreja possa cumprir a sua obra missionária.  Mas  parece que, para algumas pessoas, o famoso “Sempre se reformando” se restringe às questões teológicas. Porém, o caminhar da Igreja exige constante reforma também em outras áreas. A formação de liderança é uma delas.
Para além das escolas dominicais, das celebrações de domingo, dos cultos de oração, das reuniões de estudo bíblico, de que modo a igreja se estrutura para realizar a missão que lhe foi confiada?  Uma igreja que quer realizar bem a sua missão, não pode achar que basta trabalhar no improviso nem pode contar apenas com a “boa vontade “ das pessoas. A missão de Deus exige mais; ela necessita de envolvimento, organização, preparo e paixão pelo trabalho.
O sacerdócio universal de todos os crentes, um dos pilares da reforma protestante, muitas vezes se confundiu com a “capacidade de todo e toda crente para assumir qualquer trabalho na igreja”. Diante disto, algumas pessoas assumem tantas coisas que acabam num ativismo desenfreado. De outro lado, há pessoas assumem tarefas para as quais não estão preparadas. Ainda outras se afastam ou tornam-se meras expectadoras, correndo o risco de serem vistas como relapsas, por “esconderem o talento”. É verdade que cada cristão e cristã recebe dons do Espírito Santo para a edificação da igreja e para a contribuição na missão de Cristo (cf. 1Co 12,7). Estes dons, concedidos com a finalidade de promover o bem comum, nos impõem obrigações e responsabilidades em todos os níveis de nossa existência. Mas eles precisam ser despertados, preparados e bem coordenados para que possam reverter em benefício coletivo.
Os textos bíblicos que tratam do tema, tanto no Antigo como no Novo Testamento, deixam claro que a missão é obra de Deus - é Ele quem convoca, chama, envia e sustenta. Porém, isto não significa que a Igreja não precisa fazer a sua parte. Quando a Igreja aceita ser instrumento nas mãos de Deus, ela se coloca a serviço do agir de Deus. De nossa parte se exige, portanto, uma resposta e um compromisso. Mas nada acontece como um passe de mágica. Os dons presentes nos membros da Igreja precisam ser despertados, preparados, organizados e motivados.  Vamos ver alguns exemplos!

Despertar para o trabalho: Êx 3 e 4,1-17; Is 6,1-8; Jo 4,1-39

Ao serem desafiadas para realizar um trabalho, muitas pessoas certamente vão elencar  diversas dificuldades pessoais para fugir dele, assim como fez Moisés. Outras, como Isaías, vão, de imediato, disponibilizar-se para o trabalho, mesmo que isso implique sofrimento e posterior arrependimento. Outras pessoas, como a samaritana, farão um longo debate argumentativo, mas ao serem convencidas, “largarão” o cântaro”, ou seja, romperäo barreiras  e convenções sociais e se colocarão a serviço. A resposta que Deus sempre espera das pessoas quando as chama para realizar um trabalho é a FÉ.  E, como cantou o poeta Gilberto Gil, “ a fé não costuma falhar”.

Preparar para o trabalho: Mc  6, 7-13; Lc 10,1-12

Os textos dos evangelistas nos mostram como o trabalho para a atuação do discipulado era organizado. Davam-se instruções sobre como enfrentar os problemas que se apresentavam,   naquela época, e colocavam-se diretrizes de como o grupo deveria agir. Percebemos que Jesus não apenas chamava e enviava, mas ele também dava instruções para que a ação dos seus seguidores e seguidoras se tornasse eficaz.

Distribuir e coordenar o trabalho: Êx 18.13-26; Mc 14, 12-16; Lc 8,1-3

O texto de Êxodo nos dá dois exemplos de liderança: o  primeiro exemplo nos apresenta uma líder centralizador, cuja lideranca prejudica e emperra o trabalho, além de sobrecarregar quem lidera. O segundo exemplo mostra que é possível distribuir tarefas de modo a descentralizar as decisões e a facilitar e agilizar a resolução de problemas, para benefício de todas as partes.
Os textos de Marcos e Lucas nos mostram que, também no grupo de discípulos e discípulas, existiam pessoas que se ocupavam com diferentes tarefas.

Motivar para o trabalho: Ex 14,11-16; 1 Rs 19, 1-13; Lc 5,1-11; Mt 28,1-10

Conta-se que, certa vez, o reformador Martim Lutero estava bastante deprimido com toda a situação desencadeada pela reforma da Igreja. Questionava-se se a atitude que havia tomado era ou não da vontade de Deus, afinal, estava havendo muitas desavenças, desentendimentos e lutas. Diante dessa situação de dúvida e incerteza, ele deixava de se alimentar e passava os dias trancado no quarto. Então, sua esposa e companheira de diálogo, Katharina von Bora, resolveu tomar uma atitude, pois não aguentava mais ver o marido naquele estado de prostração. Ela se vestiu toda de preto e foi vê-lo no quarto. Lutero levou um grande susto e perguntou se alguém havia morrido, ao que Katharina respondeu: “Parece que o teu Deus morreu!” A este tratamento de choque Lutero reagiu, saiu do quarto e retomou as suas atividades.  
Os textos bíblicos citados mostram que, nas nossas atividades na igreja, sempre haverá medo, dúvidas, desânimo e frustração. Por isso, é importante saber motivar as pessoas para que não esmoreçam, mas continuem na direção prevista (Ex 14,16);  é importante ouvir as queixas das pessoas que trabalham na igreja e incentivá-las a que não desistam (1Rs 19, 13; Lc 5,3-5); é importante saber que não estamos sós e ter alguém para nos ajudar a elaborar uma nova estratégia de ação quando for preciso (Mt 28,9-10).
O trabalho é árduo e precisa ser feito com seriedade e sem “fugas”. Improvisações mostram a capacidade de pessoas de adaptar-se a situações imprevistas e podem funcionar por um certo tempo, mas o recurso constante à improvisação revela descaso e falta de seriedade no trabalho.
Deus capacita pessoas. E, sem dúvida, nos bancos das nossas igrejas existem profissionais de diversas áreas com capacidade de contribuir, e muito, para melhor organizar e potencializar a igreja, a fim de que ela cumpra o papel para a qual foi chamada. É importante saber que “líder” não é sinônimo de “pastor ou pastora”. Pode haver pastores/as e presbíteros/as líderes, mas também pode ser que eles ou elas não o sejam. Neste caso, mister se faz buscar a liderança em outras pessoas da igreja, respeitando a vocação e as habilidades existentes.
Deus, como  bom artesão (Gn 2,7),  lapida, capacita, molda e desperta pessoas para serem suas parceiras de trabalho. Precisamos descobrir, incentivar e dar espaço para que as pessoas possam desenvolver e colocar-se a serviço da obra que Deus nos convida a realizar com e  para ele.

                                                        Revda.  Sônia Gomes Mota


BIBLIOGRAFIA

Conselho Mundial de Igrejas. Natureza e missão da Igreja: um passo rumo a uma declaração conjunta. Traduzido por Nelson Kilpp. Säo Leopoldo: Editora Sinodal; São Paulo: Paulinas, 2009.

 McKIM, Donald K. A “Vocação” na Tradição Reformada. In: Donald K. McKim (editor) Grandes Temas da Tradicäo Reformada. São Paulo: Associação Evangélica Literária Pendão Real, 1998.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Lídia a tintureira


Nas origens da igreja cristã quase sempre se encontram mulheres. Elas estão no sepulcro vazio; elas testemunham a ressurreição de Jesus; elas participam intensamente da vida das primeiras comunidades, embora nem sempre recebam o destaque merecido nos documentos à nossa disposição. Especialmente uma mulher foi decisiva para a expansão da fé e a promoção da vida comunitária nos inícios da igreja.
Trata-se de uma tintureira e vendedora de púrpura, apelidada de Lídia por causa de seu lugar de origem. Essa mulher foi a primeira pessoa do continente europeu a abraçar a fé cristã. O capítulo 16 de Atos dos Apóstolos fala dela.
Lídia morava na cidade de Filipos, na atual Grécia, um importante centro comercial e cultural romano. Ela era proveniente de Tiatira, uma cidade da região da Lídia, na atual Turquia, e migrara para Filipos provavelmente em busca de melhores oportunidades de sobrevivência. Era, portanto, uma das muitas mulheres que saem de sua terra para encontrar meios de vida para si e sua família em outros cantos do mundo. Nada se diz sobre se era casada ou não. Como não se menciona um marido, talvez fosse viúva ou solteira. Nesse caso, ela seria uma dessas pessoas que têm que sustentar sozinhas a família. Atos 16 menciona que ela possuía uma casa. Provavelmente mais pessoas moravam com ela e precisavam ser sustentadas.
Lídia trabalhava com púrpura: fabricava a tinta, tingia e vendia o pano. Era um trabalho pesado e nocivo à saúde. Era uma mulher estrangeira na cidade romana de Filipos, que buscava ganhar sua vida.
Em tudo isso, Lídia não desleixava a sua religiosidade. Ela era “temente a Deus”, ou seja, uma simpatizante da fé judaica. Juntamente com outras mulheres, ela se reunia, aos sábados, num lugar de oração judaico fora da cidade, junto às águas de um córrego (Atos 16.13-15). Aparentemente, nesse lugar de oração predominavam as mulheres. Não sabemos por que não são mencionados homens.
De qualquer forma, o texto bíblico afirma que Lídia “escutava” as palavras dos apóstolos e que “o Senhor lhe abriu o coração para atender as coisas que Paulo dizia” (v. 14). Essa mulher deixou-se batizar juntamente com os outros moradores de sua casa e constrangeu os apóstolos a hospedar-se em sua casa. Assim, sua casa tornou-se o lugar de encontro da primeira comunidade em solo europeu.
Chamam a atenção duas características dessa comerciante: em primeiro lugar, Lídia estava atenta àquilo que os apóstolos lhe diziam e descobriu nisso algo de extrema importância para sua vida. Em segundo lugar, ela partilhava o que tinha com outras pessoas. Ela oferecia, primeiramente, a sua casa como lugar de pousada para os apóstolos iti­ne­ran­tes – também Lídia já fora uma mi­gran­te. Além disso, a casa de Lídia tornou-se o ponto de encontro dos cristãos da cidade e até um esconderijo para cristãos perseguidos pelas autoridades da cidade.
Essa hospitalidade que partilhava o domicílio, o íntimo da vida fami­liar, tornou-se constitutiva para a vida da igreja cristã. O aconchego da casa era oferecido aos visitantes e aos irmãos e às irmãs na fé, tornando-se, assim, um espaço de celebração e culto. A casa de Lídia tornou-se um exemplo de casa aberta para receber irmãos perseguidos e visitantes de fora. A hospitalidade tornou-se, depois disso, uma das mais importantes características da igreja cristã. Além disso, o culto no aconchego do lar tornou-se símbolo da estreita comunhão entre pessoas diferentes, mas iguais no amor de Deus.



(Nelson Kilpp- Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil- Especialista em Antigo Testamento. Texto cedido pelo autor, publicado na Revista Novo Olhar nº 33 - Editora Sinodal).

sábado, 7 de julho de 2012

Pastorado: Uma profissão que exige vocação





Pela terceira vez Jesus lhe perguntou:

-Pedro, tu me amas?
-Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo.
-Pastoreia as minhas ovelhas!


Um dia desses, ao fazer uma visita pastoral a uma brasileira que reside na mesma cidade que eu, ela me falou com voz queixosa:

-Na minha igreja, no Brasil, o pastor cuida do seu rebanho. Aqui eles não têm tempo, é tudo diferente. É como se eles não se importassem…

Durante aquela visita, tentei fazer o melhor que pude para amenizar a falta que ela sentia do seu pastor. Não sei se consegui, mas sempre passo pela casa dela ou telefono para saber se está tudo indo bem.

Mas aquela queixa me fez refletir sobre o nosso papel enquanto pastores e pastoras junto ao nosso rebanho. E fiquei pensando nas diversas maneiras de entender o que significa “ser pastor e pastora”.

Para muitas pessoas das igrejas, o pastorado é visto como um sacerdócio, ou seja, uma vocação. Isso pode significar que:

-Não importa para onde for enviado ou enviada, o pastor ou a pastora deve aceitar trabalhar em qualquer lugar, seguindo o “chamado”.
- Deve haver completo desprendimento do pastor ou da pastora, que deve estar sempre a serviço e disponível para a comunidade, mesmo que isso signifique trabalhar de domingo a domingo.
-A família, no caso do pastor, especialmente a esposa também deve dedicar-se ao serviço voluntário da igreja.  O “esposo da pastora” ainda não é tão cobrado. Por que será?
-Não importa o salário, afinal o vocacionado ou a vocacionada vive por “graça”

Conhecemos casos de pastores e pastoras que enfrentaram muitas adversidades para realizar o seu trabalho pastoral. A história dos missionários que para cá vieram com suas famílias nos mostra isso. Também conhecemos inúmeras “esposas de pastores” que, muitas vezes, deixaram de ter sua própria profissão para ajudar o esposo no pastorado tornando-se musicistas, professoras de escola dominical, coordenadoras dos trabalhos de mulheres ou assumindo outras tantas tarefas. O quanto isto afetou as suas vidas pessoais é um capítulo da história a ser escrito. Sabemos que pastores e pastoras viveram, muitas vezes, da caridade dos fiéis e não de salários dignos. Alguns, por força das circunstâncias, até  exercem o pastorado de forma voluntária e ganham seu sustento de outra maneira. O quanto isso pode estar afetando as comunidades locais é algo que muitas igrejas já estão  refletindo.

Sabemos que é importante que qualquer escolha profissional seja feita com base em alguns requisitos. No caso do pastorado não é diferente. Sim, precisamos pensar no pastorado também em termos profissionais. O trabalho pastoral é árduo e exige muito preparo e dedicação. Será que é por isso que é difícil encontrar estudantes de teologia que queiram assumir o pastorado?  
Não basta conhecer a Bíblia, hoje o exercício pastoral está muito mais exigente. Precisa-se  de muitas horas de estudo e preparo. Afinal, o público também está cada dia mais e melhor informado. Continuamos com a obrigação de não apenas conhecer a Bíblia, mas também conhecer bem a realidade em que estamos pregando o evangelho. Ampliando e atualizando o conselho de Karl Barth: O pastor e a pastora precisam estar com a Bíblia em uma mão e com o jornal e a internet na outra. Sem falar na constante atualização teológica, pois a reflexão e produção teológica séria na América Latina é imensa. Se, antes, a nossa fonte de pesquisa era predominantemente a teologia norte-americana e europeia, hoje nos voltamos mais e mais para a produção latino-americana, por causa de sua reflexão contextualizada que fala a partir de e para nossos problemas.

Além de muito estudo e preparo, o pastor ou a pastora tem que entender um pouco de tudo; deve ser uma espécie de profissional dos “sete instrumentos”.  Vejamos:

-Deve ter boa didática para preparar e saber dar uma boa aula da Escola Dominical, senão corre o risco de o pessoal não aparecer.
- Deve ser bom pregador ou pregadora para concorrer com aquele programa de TV ou jogo de computador, que pode ser muito mais interessante.
-Deve saber elaborar uma boa liturgia, que seja contextualizada e atraente, mas sem descambar para um programa de auditório.
-Deve ser conciliador/a para lidar com o dia a dia da comunidade e saber resolver os problemas que surgem.
-Deve entender de psicologia, porque tem a tarefa do aconselhamento e cuidado pastoral e precisa saber como acolher uma pessoa que necessita de uma palavra, uma oração ou simplesmente a presença amiga
-Deve ter liderança boa e positiva, para motivar as pessoas a trabalharem em conjunto, senão vai acabar fazendo tudo sozinho.

Além de tudo isso, vem a doação. E é aí que muita gente desiste mesmo. O pastor e a pastora é a pessoa que não tem praia no domingo. Natal e Ano Novo em família? Se morarem em cidades diferentes, pode desistir. Também  não dá para, no final do expediente, simplesmente fechar a porta e ir para casa e esquecer o trabalho, pois a morte, a doença, o desespero não tem hora para bater na porta dos fieis nem manda recado. E faz parte da função pastoral acompanhar o seu rebanho.
Também o constante exercício da paciência e do equilíbrio é extremamente necessário. Ninguém vai ao consultório médico para opinar sobre o tratamento que ele deve prescrever. Ninguém vai dizer à advogada como ela deve elaborar a defesa de um cliente ou como ela se deve portar no tribunal. Não se diz ao bancário como ele deve trabalhar. Mas, no trabalho pastoral, todo o mundo se sente no direito de falar, criticar e, se possível, ensinar ao pastor e à pastora como deve agir.

De fato, não é fácil ser pastor ou pastora. É praticamente impossível que alguém atenda a todos os requisitos apresentados acima. Mas, muitas igrejas ainda exigem que alguém que queira abraçar o pastorado atenda a esses requisitos.  Será que é por causa dessa exigência que está diminuindo drasticamente o número de candidatos e candidatas ao pastorado?
Algumas profissões necessitam de uma vocação e preparo especial. O pastorado é, sem dúvida, uma delas. Eis a diferença quando se exerce uma profissão apenas por obrigação e quando a exercemos por vocação: o profissional cumpre apenas a sua obrigação, o vocacionado cumpre a sua obrigação e dá mais um pouco de si. Estudar, atualizar-se, estar à disposição daqueles que precisam de cuidado, encontrar o melhor momento para ir ao encontro daqueles que estão fragilizados, angustiados, oferecendo-lhes apoio – tudo isso faz parte da vocação pastoral. Por isso, o pastor e a pastora não se importam em não viajar com a família em datas festivas quando a família da fé precisa dele ou dela (Lc 9,57-62). 

Procurei saber de algumas colegas de pastorado de outras denominações cristãs por que elas gostam de ser pastoras. Algumas responderam, outras me confessaram que estavam mesmo se questionando sobre isto. Encontrei algumas respostas que vieram ao encontro do meu sentimento.

Que outra profissão nos dá a alegria de poder estudar a palavra de Deus junto com o povo e ver alguns conceitos irem se formando e, por outro lado, alguns preconceitos irem sendo deixados de lado? Que outra profissão nos dá a possibilidade de trabalhar com as diversas faixas etárias e ver o amadurecimento da fé? Perceber que a partir do estudo da Bíblia e da reflexão sobre a nossa realidade vão se estabelecendo relações mais justas e solidárias? Que outra profissão nos dá a alegria de ver que aquela criancinha que um dia seguramos no colo para batizar, hoje é um jovem ou uma jovem atuante na igreja, levando uma vida saudável? Ou que aquele casal cujo matrimônio abençoamos há tantos anos ainda continua junto e feliz? Que outra profissão nos dá a sensação boa de ter estado ao lado de alguém que precisou muito das nossas orações, de nosso apoio em momento difícil?  Que outra profissão nos dá a alegria de terminar um culto e ver que as pessoas saíram animadas, desafiadas ou confortadas com o que foi dito? Que outra profissão nos dá a possibilidade de crescer com outros grupos na troca de experiências de fé? São tantos aspectos prazerosos e compensadores!
Sou de uma geração de pastores que precisava ter outro trabalho para manter-se. Hoje olho para trás e vejo como fui negligente em muitos aspectos. Sempre correndo, sem ter tempo para tantas coisas importantes. Espero um dia corrigir esta falha.
Penso que, já no processo de escolha pastoral, a igreja deveria deixar claro o perfil de atividade pastoral que espera e, por outro lado, o pastor ou a pastora precisa deixar claro qual o perfil do trabalho eclesial que pretende desenvolver. Isso evitaria futuros desencontros e desilusões. O pedido que Jesus fez a Pedro é um pedido que, na verdade, faz a todos e todas nós, não somente ao ministro ordenado. O sacerdócio é de todos os crentes, por isso a comunidade também é chamada a participar da missão da Igreja de acordo com os seus dons. Pastores e pastoras não são perfeitos, a presença da comunidade em oração, intercessão e aconselhamento é importante e sempre bem vinda.
 Sim, sem dúvida, o trabalho pastoral é árduo e exige mais do que uma preparação profissional, exige entrega de vida. Assumir o pastorado é dar um sim ao chamado de Deus, tendo consciência de que o trabalho que realizamos não é mérito próprio, mas ação do Espírito Santo. Seremos cobrados pelo muito que nos foi dado. Isso fica claro no texto de Lucas 12,41-48, que traz orientações específicas de Jesus para os seus discípulos. Exercer o pastorado é, antes de ser um privilégio, uma responsabilidade.
Que possamos um dia olhar para trás e afirmar como o apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, acabei minha carreira e guardei a minha fé”. Amém.  

                             Revda Sônia Gomes Mota. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A importância dos símbolos cristãos


Liturgia combina com arte, beleza e mistério.
Uma parte  nós fazemos e a outra nos é dada.
Não quero um Deus que compreenda,
que seja do tamanho do meu pensamento.
Quero um Deus maior.
Um Deus em que possa acreditar
mesmo sem entender...
(Rubem Alves)


Quero começar este artigo compartilhando uma conversa que tive, há algum tempo, com um amigo que estava fazendo um curso de liturgia. Lá pelas tantas, ele fez o seguinte comentário:

-          Sabe o que eu descobri? Que o símbolo litúrgico mais usado pela minha igreja é a samambaia, ela está não só no altar como também espalhada por todo o templo e é ela só, nada mais.

Rimos bastante imaginando a tal samambaia “simbológica”. Mas depois fiquei refletindo sobre o comentário e fui obrigada a reconhecer que, em muitas de nossas igrejas, a situação não é diferente.  
Antes de continuar a leitura, convido você a um exercício: feche os olhos e relembre o altar da sua igreja, o que tem lá? Qual ou quais os símbolos cristãos que estão no altar simbolizando uma experiência com o sagrado?
Pessoalmente consigo visualizar diversas igrejas que não têm símbolo cristão nenhum. Só paredes vazias, o púlpito, a mesa com uma toalha, na maioria das vezes branca, sem nenhum adorno litúrgico e um vaso de flores, que, a princípio, não é símbolo, mas objeto de decoração.
Quando exercia o pastorado em comunidade, algumas vezes fui criticada e questionada por usar veste pastoral, paramentos litúrgicos e colocar velas no altar. Algumas pessoas, talvez por não compreenderem o seu significado, achavam que eu estava me aproximando demais dos “católicos”, como se esses paramentos fossem exclusividade da Igreja Romana. Interessante é que se tolera que um pastor vista terno e gravata, roupas típicas de banqueiros, empresários e executivos, e que uma pastora use roupas da moda, mas têm-se dificuldades de aceitar o uso de vestes pastorais. Assim como os médicos são reconhecidos pelos jalecos brancos e os juízes, nos tribunais, por suas togas, as vestes pastorais querem lembrar a função de quem as utiliza.
A Bíblia afirma que Jesus é “a luz do mundo”. Não podemos ter uma vela simbolizando esta luz? Pregamos sobre a cruz de Cristo e o seu significado, a cruz está presente em muitos hinos. Não podemos colocá-la no altar das igrejas?
Fico pensando por que existe essa aversão aos símbolos cristãos e tenho duas suspeitas. Gostaria de abordá-las rapidamente.

Iconoclastia – uma triste herança

A reforma protestante não foi um movimento uniforme; os reformadores, às vezes, também tinham divergências.  Alguns grupos da Reforma protestante achavam que todas as imagens   tinham que ser destruídas por afrontarem a Deus (cf. Êx 20.4-6). Eles invadiam, portanto, os templos para destruir e queimar imagens, esculturas, quebrando vitrais e causando uma das maiores destruições de arte sacra que a história já testemunhou. Chamamos esses radicais de iconoclastas.
É certo que os Reformadores concordavam que havia muitos abusos nos cultos de sua época,  mas eles assumiram posturas diferentes diante de certas tradições: Lutero, por exemplo,  defendia que se deveria manter o que não fosse explicitamente condenado pelas Escrituras. Já Calvino queria que se mantivesse apenas o que era ordenado por Deus nas Escrituras. Em relação aos símbolos litúrgicos, Lutero teve, portanto, uma postura mais compreensiva, pois via neles um importante recurso pedagógico. As imagens ajudavam a divulgar o Evangelho, em especial, a analfabetos. Calvino, por outro lado, aboliu a simbologia nos templos reformados, de modo que o culto calvinista tornou-se um “culto nu”.
Em uma das minhas visitas a uma Igreja Reformada, aqui na Alemanha, uma professora de Escola Dominical para crianças comentou que foi chamada pelo presbitério porque, depois de contar a história de Noé, solicitou às crianças desenharem a cena. Isso foi considerado perigoso, pois, segundo o conselho, as crianças poderiam incorrer na tentação de também desenharem Deus, o que iria contra a proibição de imagens. A professora também não podia utilizar imagens como recursos visuais. Fico pensando a dificuldade dessa professora para transmitir um conhecimento às crianças sem poder usar nenhum recurso visual. Hoje sabemos que a proibição de imagens no Antigo Testamento surgiu, em primeiro ligar, porque as imagens eram adoradas em lugar do Deus vivo e, em segundo lugar, porque elas eram utilizadas em rituais mágicos, na tentativa de manipular Deus.
O momento histórico da Reforma protestante do século XVI suscitou também posturas e atitudes radicais. O princípio do sola scriptura (“somente pela Escritura”) lamentavelmente foi interpretado por alguns como “somente pelo discurso”, levando ao desprezo de diversos símbolos que nos ajudam a lembrar os elementos importantes da nossa fé.


Protestantismo brasileiro –  religião proibida

A segunda suspeita tem a ver com a história do protestantismo no Brasil. As igrejas protestantes brasileiras precisaram de muito tempo para ter sua liberdade de culto. A primeira constituição brasileira de 1824 permitia apenas o culto doméstico ou em casas sem nenhuma forma ou característica de templo, como sino, torre, etc.  Somente com a constituição de 1891 é que se pode falar de uma liberdade de culto, quando os protestantes não mais precisavam se esconder.
Seria esta uma herança que trazemos até hoje e que nos faz ser tão descuidados com o aspecto simbólico dos nossos templos? Talvez nos tenhamos acostumado com as proibições da época do Império e continuamos evitando que nosso templo tenha aparência de templo.


A linguagem dos símbolos

Quando as palavras não são suficientes para expressar tudo o que sentimos ou estamos vivenciando, a poesia, a metáfora, os símbolos são excelentes auxílios. O símbolo é uma realidade visível que representa ou está em lugar de uma realidade invisível. Ele não é sujeito nem objeto, ele apenas remete a uma experiência e deve fortalecer crenças e práticas. Ele é elemento essencial no processo de comunicação.
Em épocas antigas, o símbolo era essencial para o processo de aprendizado da fé. Imaginem as pessoas que não sabiam ler, o quanto a experiência visual com vitrais e imagens bíblicas era importante para reter a mensagem que estava sendo pregada.
O teólogo Paul Tillich escreveu: “Se o símbolo perde o seu poder, a religião perde a sua inspiração”. Penso que Tillich não queria afirmar que a religião se reduz aos símbolos, mas destacar a grande importância destes para a vida de fé.  
Um símbolo aponta para além de si, revelando aquilo que ele representa. Uma cruz é mais do que mera cruz; ela rememora o sacrifício de Cristo por nós. A cruz no altar não é um ídolo,  mas um símbolo que aponta para aquele que por nós sofreu e morreu na cruz. E esse símbolo pode fortalecer a nossa fé.  
Deus fala conosco através da sua Palavra, dos sacramentos, de cânticos, gestos (bênção, abraço da paz) e também através de símbolos que ajudam a fortalecer as nossas crenças e práticas.
O próprio Jesus recorreu a símbolos quando queria explicar algo ao povo que o seguia: ele falava dos lírios do campo para falar da providência divina (Mt 6.25-34), da ovelha e do pastor para falar do cuidado de Deus (Jo 10.1-18) e escolheu o pão e o vinho como símbolos do seu corpo e sangue (Lc 22.19-23).


Os símbolos - uma riqueza litúrgica

Se o calendário cívico comemora os feitos humanos, o calendário do ano cristão aponta a para atividade criativa e redentora de Deus.

As cores litúrgicas, que podem estar presentes nas vestes pastorais, nas vestes do coral, nas toalhas de mesa e nos antepêndios do púlpito ou da estante de leitura, simbolizam as diferentes épocas do ano cristão. Ao entrar no templo, o povo já pode sentir-se envolvido pelos atos de Deus na nossa história.  
  • O branco e o dourado simbolizam a glória e a manifestação divina. Essas cores são usadas para celebrar a obra redentora de Cristo (Natal, Epifania, Batismo do Senhor, Transfiguração do Senhor, Páscoa, Ascensão do Senhor e Trindade).
  • O vermelho, símbolo do fogo e dos mártires, é cor da celebração do Espírito Santo e da Igreja (Pentecostes, Dia da Reforma, Aniversário da Igreja, Ordenação e investidura de pastores e pastoras).
  • O roxo caracteriza as épocas do ano cristão dedicadas à reflexão, ao arrependimento e à preparação (Advento e Quaresma)
  • O preto caracteriza o período de luto (Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-Feira da Paixão)
  • Verde é a cor da esperança, vida e crescimento (usado ao longo do tempo comum, a época após Epifania e após Pentecostes)
  • O azul claro indica a esperança e também pode ser usado no Advento.
 Gestos simbólicos:
  • Gesto de consagração dos elementos da Santa Ceia (Lc 22.19-23)
  • Lava pés ( Jo 13);
  • Imposição de mãos (1 Tm 4.14);
  • Os braços abertos para transmissão da bênção
  • O sinal da cruz representando a Trindade

Objetos simbólicos
  • A cruz: aponta para o amor de Deus por nós. É o principal símbolo cristão, pois aponta para a ação salvífica de Deus na história e a possibilidade da ressurreição. 
  • A água: símbolo do nosso novo nascimento e símbolo da vida.
  • A vela: representa a Palavra de Deus ( Sl 119.105);  Jesus, a luz do mundo ( Jo 8.12);  o Espírito Santo que desceu como labareda de fogo ( At 2.1-4)
  • O peixe: um dos primeiros símbolos utilizados pelos cristãos para se identificarem, especialmente na época das perseguições nos primeiros séculos.  A expressão “Jesus Cristo, Filho de Deus, o Salvador” em grego é: Iesous Christos Theou Uios Soter. As iniciais dessas cinco palavras formam uma nova: ictus, que significa “peixe” em grego.
  • A pomba: o Espírito Santo (Lc 3.21-22)
  • A videira e os ramos lembram que, como cristãos e cristãs, estamos ligados a Cristo (Jo 15.5).
  • O sepulcro aberto lembra a vitória de Jesus sobre a morte (Jo 20.1)
  • As letras “alfa”  e “ômega”, respectivamente a primeira e a última do alfabeto grego, indicam que Cristo é o princípio e o fim de todas as coisas e  a eternidade de Deus (Ap 1.8)
Se compreendermos o significado bíblico e teológico dos símbolos, eles não correm o risco de serem idolatrados, pois saberemos que eles apontam para uma realidade além deles. São importantes porque têm uma mensagem a transmitir. Por isso também não podem ser confundidos com objetos de decoração que mudam conforme a moda e o gosto de quem “decora a igreja”.
Os símbolos devem, portanto, ser escolhidos com argumentos bíblicos, seguir a tradição cristã e também espelhar a comunidade local, pois cada igreja está inserida em um contexto cultural específico.
As reflexões e sugestões aqui contidas querem servir de “inspiração” e não como “imposição” ou “padronização”. Cada igreja é livre e soberana, mas em matéria de símbolos litúrgicos seria bom pensar numa identidade litúrgica para todas as nossas igrejas, a fim de que, em qualquer igreja local da IPU, se possa perceber claramente que fazemos parte de uma comunhão maior. 
Agora, convido você a fazer, outra vez, uma visita ao seu templo. O que poderia ser modificado e inserido nele?

BILIOGRAFIA
ADRIANO, Odete Líber Almeida.  Símbolos na Bíblia. In: BORTOLLETO F., Fernando; SOUZA, José C. de; KILPP, Nelson (ed.) Dicionário Brasileiro de Teologia. ASTE: São Paulo, 2008.
ALVES, Rubem (org.). CultoArte: celebrando a vida.  Vozes: Petrópolis, 1999.
EMARD, Jeanne. A arte floral a serviço da liturgia. Paulinas: São Paulo, 1999
Manual do Culto da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Pendão Real: São Paulo [s.d.]
MARTINI, Romeu R. Livro de Culto. Sinodal: São Leopoldo, 2003.
NOÉ, Sidnei Vilmar. Símbolo. In: BORTOLLETO F., Fernando; SOUZA, José C. de; KILPP, Nelson (ed.) Dicionário Brasileiro de Teologia. ASTE: