terça-feira, 20 de novembro de 2012

O IRMÃO ENGANADO

A vida em família nem sempre é um mar de rosas. Especialmente quando irmãos não se entendem ou competem por atenção, privilégios ou poder. A Bíblia conhece vários exemplos de conflitos entre irmãos. Um dos mais conhecidos é a história de Esaú e Jacó. O primeiro é um rude caçador, o preferido do pai; o outro, pastor de ovelhas, mais caseiro, o preferido da mãe.

Naquela época, quem nascia primeiro tinha os direitos de pri­mo­gê­ni­to. Herdava, por exemplo, a maior parte dos bens da família. Em con­tra­partida, também era responsável por sustento, proteção e sobrevivência de toda a família. Esaú nascera primeiro. Mas Jacó não se conforma em ser o irmão mais jovem. Ele quer ter os direitos do mais velho e, para alcançar seu objetivo, não hesita em recorrer a meios fraudulentos e pouco éticos.

Em primeiro lugar, Jacó oferece ao irmão morto de fome um prato de seu cozido sob a condição de receber, em troca, o direito do primogênito. Enfraquecido pela fome, Esaú aceita (Gênesis 25.27-34). Anos mais tarde, quando o pai dos gêmeos, Isaque, já velho e cego, pressente chegar o seu fim, Jacó não tem escrúpulos em enganar o próprio pai. Quando esse pede a Esaú para caçar algo e preparar-lhe uma comida saborosa, Jacó faz-se passar por seu irmão e leva ao pai um prato saboroso feito por Rebeca, sua mãe.

O objetivo da fraude é receber do pai moribundo a bênção reservada ao filho mais velho, sacramentando, dessa forma, a passagem do pátrio poder. Assim, enganado pelo filho e pela esposa, Isaque abençoa Jacó (Gênesis 27). Mais uma vez, Esaú sai perdendo, já que a bênção paterna não pode ser retirada da pessoa abençoada e, por ser uma bênção única, tampouco repetida.

A história dos dois irmãos continua com a fuga de Jacó, que teme o “furor” do irmão enganado (Gênesis 27.43-45). A narrativa bíblica concentra-se, então, nos acontecimentos em torno de Jacó, pois esse será o pai do povo de Israel. Não sabemos por que o escolhido de Deus foi Jacó, mas certamente não foi por sua conduta pouco ética. Apesar da história continuar com o patriarca Jacó, o irmão enganado não deve ser esquecido. Ele fica “em casa”, isto é, permanece junto a seus pais, dando proteção e sustento à sua mãe, Rebeca, depois da morte do pai.

Anos mais tarde, acontece o reencontro dos irmãos. Ambos estão bem de vida – em épocas bíblicas isso significa que ambos foram abençoados. Mas Jacó ainda tem medo do irmão. E com razão. Mas o inesperado acontece: “Então, Esaú correu ao encontro do irmão e o abraçou; arrojou-se ao seu pescoço e o beijou; e choraram” (Gênesis 33.4).

Esaú desiste de vingar-se pela injustiça sofrida e oferece reconciliação ao irmão. Nesse gesto, a narrativa bíblica vê um reflexo da misericórdia de Deus. Jacó expressa-o assim: “Vi o teu rosto como se tivesse contemplado o semblante de Deus” (Gênesis 33.10).

A história desses irmãos mostra-nos, em primeiro lugar, o que não deve acontecer. Além disso, também aqui Deus revela seus propósitos nas entrelinhas da história. Jacó herda, por meio de trapaça, o que caberia a seu irmão, mas, em contrapartida, vive inquieto e com medo. Esaú, apesar de enganado, não foge de sua responsabilidade com os pais. E, apesar de não receber a bênção especial do pai, não deixa de progredir na vida. E, por fim, ao contrário do filho mais velho da parábola do “filho pródigo” (Lucas 15), Esaú alegra-se com a volta do irmão e corre para abraçá-lo sem rancor, mostrando que a grandeza de espírito pode superar conflitos e salvar vidas.

Nelson Kilpp
* Especialista em Antigo Testamento, ministro da IECLB, texto cedido pelo autor.
Publicado na revista Novo olhar da Editora Sinodal n. 42

MULHERES: UMA HISTÓRIA DE LUTA

Um olhar para a América Latina

A resistencia das Mariposas

Vocês sabem quem foram às  irmãs Mirabal: Minerva, Pátria e Maria Teresa?

Em tempos de tantas “celebridades” fúteis fabricadas pela mídia, convém relembrar pessoas que realmente fizeram algo ou lutaram por algo de útil e relevante. É o caso das irmãs Mirabal.
As irmãs Mirabal viveram na República Dominicana na época de uma das ditaduras mais cruéis da América Latina, a do ditador Rafael Leonidas Trujillo, que, durante trinta anos (1930 - 1961), manteve o povo dominicano sob um regime de terror.
As três irmãs cresceram na zona rural, no município de Salcedo. Quando Trujillo chegou ao poder, a família delas perdeu a casa e todo o seu dinheiro. As irmãs acreditavam que Trujillo levaria o país ao caos econômico e, então, juntamente com outras pessoas, inclusive seus esposos, formaram um grupo de oposição ao regime, tornando-se conhecidas como Las Mariposas. Esse movimento lutava pelo fim da ditadura, da violência e pela instauracão da democracia. As irmãs foram presas e torturadas várias vezes. Apesar disso, continuaram firmes em seus objetivos.
A participação ativa das irmãs Mirabal na luta contra Trujillo deu-lhes a fama de revolucionárias, motivo suficiente para que, em certa ocasião, Trujillo manifestasse, diante de um grupo de pessoas, que seus únicos problemas eram as irmãs Mirabal e a Igreja.  
No dia 25 de novembro de 1960, Minerva e Maria Teresa foram visitar seus esposos na prisão, em companhia de sua irmã Pátria. No caminho foram interceptadas pelos agentes do Serviço Militar de Inteligência. Conduzidas a um canavial próximo, foram objeto das mais cruéis torturas, antes de se tornarem vítimas do que foi considerado o crime mais horripilante da história dominicana. Cobertas de sangue, destroçadas a golpes, estranguladas, foram colocadas novamente no veículo em que viajavam e jogadas num precipício para simular um acidente. O assassinato das irmãs Mirabal produziu um grande sentimento de dor em todo o país. Porém, serviu para fortalecer o espírito patriótico de um povo desejoso de estabelecer um governo democrático que garantisse o respeito à dignidade humana[1].
No dia 30 de maio de 1961, o ditador Trujillo tombou assasinado; era o fim de uma ditadura de 31 anos.
No Primeiro Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho de 1981, propôs-se a data do assassinato das irmãs Mirabal como Dia Latino-Americano e Caribenho de luta contra a violência à mulher. Em 17 de dezembro de 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou que o dia 25 de novembro seria o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher, em homenagem ao sacrifício das Mariposas.

Um olhar para  os textos bíblicos
A conquista de um direito[2]
E vocês sabem quem foram Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza? São cinco irmãs que conseguiram mudar a lei de herança no antigo Israel. São as protagonistas da história que se encontra em Números 27.1-11.
As cinco irmãs são solteiras e órfãs. Seu pai, Zelofeade, morrera sem deixar filhos homens. Conforme a lei vigente (Dt 21.15-17), elas não poderiam ser herdeiras, pois tradicionalmente a herança era dividida entre os filhos homens, para garantir a preservação do nome paterno e, assim, a sobrevivência da família. Mas o caso delas era específico. O pai havia morrido sem deixar filhos homens; além disso, as filhas mulheres que tivera permeneceram solteiras. Como resolver a situação? Quem ficaria com a herança?
Aquelas mulheres conheciam bem o que dizia a lei da herança, mas estavam dispostas a lutar para mudá-la e, assim, manter o nome do pai vivo e, naturalmente, garantir a própria sobrevivência. Apesar da situação desesperadora, elas não se intimidaram. Estavam dispostas a enfrentar as diversas instâncias necessárias, mostrando muita coragem e iniciativa.
Assim sendo, colocaram-se à porta da tenda da congregação, ou seja, dirigiram-se à assembléia e à liderança do povo. Contaram a sua história e a história do pai; trouxeram argumentos em favor do direito de seu pai a um lote da terra a ser ocupada pelos israelitas e do direito de ter preservada a memória do pai. À base dessa argumentação reivindicaram o direito de herdar a propriedade imóvel que cabia a seu pai.
Essa reinvindicação implicava uma revisão da legislação em vigor. E foi o que aconteceu. O texto termina com uma mudança da lei vigente. Essa mudança recebeu a sanção de Deus, que reconheceu a argumentação e o direito das mulheres, que foram, então, incluídas na sucessão hereditária (Nm 27.8-11). Claro que nem tudo é perfeito na conquista desse direito: elas recebem a herança sob a condição de se casarem dentro do mesmo clã de seu pai (Nm 36.1-9), a fim de evitar que o patrimônio da família passe a outra tribo. Mas, naquele momento, a coragem das cinco irmãs criou condições para que o direito à herança de propriedade imóvel fosse estendido também às mulheres.

Nas entrelinhas do texto percebemos que, na sociedade em que viviam essas mulheres, havia desigualdade de poder e de direitos entre os gêneros, que se expressava em leis excludentes. Mas foi a coragem de algumas mulheres que criou as condições necessárias para mudar essa situação.

A ameaça de uma viúva
Certamente você conhece a história da viúva que ameaçou dar uma bofetada em um juiz. O episódio encontra-se em Lucas 18.1-8.
Na Bíblia de Jerusalém, essa parábola recebeu o título de: “o juiz iníquo e a viúva importuna”; ela também poderia ter recebido o título de: “a viúva que ameaçou esbofetear o juiz”.
O texto não menciona o nome da mulher; ele apenas afirma que ela era uma viúva – o que, na época, implicava uma vida com muitas precariedades. O texto também revela que a viúva tinha um problema que ela mesma não podia solucionar. Ela precisava de alguém competente para resolver o seu problema. Por isso ela buscou a autoridade competente para a sua causa.
Ao contar a párabola, Jesus não entrou em detalhes e não esclareceu de qual pendência judicial se tratava. Resta-nos, portanto, especular sobre possíveis causas ou reivindicações de uma viúva naquela época. Poderia ter sido[3]:
- uma questã de Kethuba, ou seja, uma soma de dinheiro prescrita no contrato de casamento, à qual ela teria direito em caso de divórcio ou morte do marido;
- um caso da lei do Levirato, conforme a qual um cunhado tinha o dever de casar com ela para garantir filhos ao marido falecido;
- uma quantia de dinheiro devida ao marido falecido, à qual a viúva teria, agora, direito (por exemplo, o valor resultante de hipoteca ou venda de algum bem ou propriedade).
“Faze-me justiça contra meu adversário” é o pedido incansável daquela viúva. Este pedido revela a experiência de muitas viúvas que, em vez de serem protegidas como mandava a lei, tornavam-se vítimas de injustiças sociais.
A postura arrogante do juiz, que näo temia nada nem ninguém, demonstra que ele näo pretendia ajudá-la a buscar seus direitos. Ele desprezava aquela mulher. Mas se ele é arrogante, ela é insistente e näo desiste. Ela näo lhe dá sossego e lhe causa profundo cansaço e fadiga. Numa atitude consciente, aquela viúva busca por seus direitos dando muito trabalho ao juiz. A tradução de Lucas 18.5 (“importunar” ou “aborrecer”) ameniza o termo original, que significa: “golpear no rosto”.  O juiz muda a sua postura porque seria uma vergonha ser golpeado no rosto por uma mulher.  Isto seria um escândalo.
Embora a parábola tenha sido usada por Jesus para exemplificar o relacionamento de Deus com as pessoas que creem, ele näo ignorava a situação de milhares de mulheres da sua época. Essa parábola pode e deve servir para nos inspirar a näo desistirmos dos nossos direitos. A viúva incomoda, ameaça e busca por justiça até conseguir que o seu caso seja julgado. Ela näo assume uma atitude passiva e resignada diante dos obstáculos, mas luta e busca pelo que é justo.

Um olhar para nossa realidade
Na América Latina e no Caribe, a luta das mulheres contra todo tipo de violência a que säo submetidas todos os dias, a sua luta por dignidade de trabalho e contra a miséria ainda continua sendo a agenda principal. 
O relatório da Comissäo Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) intitulado Que tipo de Estado? Que tipo de igualdade? Mostra que as mulheres latno-americanas continuam a enfrentar discriminação no mercado de trabalho, recebendo salários menores do que os homens, tendo carga horária maior em tempo gasto com atividades domésticas não remuneradas. Além disso, as mulheres ocupam a maioria das posições de baixa remuneração e recebem salários inferiores para trabalhos de valor igual.[4]
Também o Mapa da Violência publicado em agosto de 2012 pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CEBEPELA) e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) [5] traz números assutadores. Entre 1980 e 2010, foram assassinadas, no Brasil, mais de 92 mil mulheres, sendo que 43,7 mil só na última década.  Conforme atualizacäo de 2010 realizado pelo Ministério da Saúde, o registro total de homicídios de mulheres passou de 49.992 para 52.260. E isso apesar de alguns avancos conseguidos com da Lei Maria da Penha. 
Em um contexto de 84 países, o Brasil ocupa a sétima posicäo neste ranking de vergonha e violência contra as mulheres, sendo que, dos seis países anteriores, quatro se encontram na América Latina.
A história das mulheres foi e continua sendo uma história de luta. Cada conquista que temos é fruto de muita dor, lágrimas, debates, articulação e trabalho. Para que a lei Maria da Penha fosse aprovada, foi preciso que uma mulher presa a uma cadeira de rodas por causa da violência do marido denunciasse o Brasil na ONU de näo cumprir os acordos internacionais que assinara e que garantiam proteção às mulheres em situação de violência. O Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres ainda está em lento processo de implantacäo em muitos municípios brasileiros que nem sequer contam com uma Coordenadoria da Mulher. Há uma longa estrada a ser percorrida.
Um olhar para a nossa igreja
Você conhece Anas, Vânias, Marias, Celestes, Olgas...? Säo mulheres que estão sentadas nos bancos das nossas igrejas e que podem estar sofrendo violência nã só doméstica, mas também institucional, psicológica, religiosa, etc.
Na minha atuação junto a mulheres vítimas de violência, escutei muitas histórias, enxuguei lágrimas e acolhi mulheres atuantes nas igrejas, inclusive uma esposa de pastor e esposas ou filhas de líderes considerados “acima de qualquer suspeita”, “homens de Deus”. Mulheres que enfrentavam, no seus dia-a-dia, situações de violência dentro dos seus lares, mas precisavam esconder o fato para näo “manchar a honra do marido ou do pai” ou  por vergonha ou por terem aprendido que o que “Deus uniu o homem não separa”.
Por isto defendo que as nossas igrejas participem e se engajem em projetos e programas de prevenção, apoio e denúncia a qualquer tipo de violência contra a mulher. Defendo que a nossa igreja tenha não só uma assessoria, mas uma secretaria para as mulheres porque:
1- O movimento de mulheres, em todo mundo, desempenhou e desempenha um importante papel profético junto às igrejas, no sentido de chamar a atenção para a necessidade e a importância de superar tabus e de denunciar práticas que são incoerentes com o Evangelho.

2- É o movimento de mulheres que  propõe a discussão sobre temas contemporâneos e importantes para as nossas lutas, mesmo dentro das instituições eclesiásticas.

3- Porque precisamos nos fortalecer e fortalecer os nossos espaços de atuação; para isto precisamos de um espaço nosso de reflexão, partilha, cursos, etc.

4- Porque não basta a igreja ordenar mulheres e permitir o exercício do presbiterato e da diaconia para ter resolvidas todas as questões referentes às mulheres no âmbito eclesiástico.

5- É importante para nós a reflexão sobre a nossa participação nas igrejas e na reflexão teológica.

6- Por não termos, nos nossos cursos de Teologia (que eu tenha conhecimento), uma cadeira que contemple a Teologia ou Hermenêutica feministas, precisamos debruçar-nos sobre temas que são imprescindíveis para nós mulheres, já que a pesquisa nessa área nos pode ser de grande ajuda.

7- Quantas igrejas  mantêm algum projeto de atendimento, apoio, prevenção ou denúncia da violência contra a mulher? 

Por tudo isto temos a certeza de que a nossa história de luta continua e, por isso, vamos seguir lutando por nossos direitos sem dar sossego a ninguém, até que eles sejam respeitados!


  
25 de Novembro: Dia Latino-Americano de Combate à Violência Contra a Mulher


[1] Maiores informações sobre as Irmãs Mirabal podem ser encontradas no livro da escritora  Julia Alvares. No tempo das Borboletas. Em 2001, esse livro foi transformado em filme.  Também Mario Garcia Llosa traz essa história em seu livro A Festa do Bode.
[2] O Direito das Filhas à Heranca. www.teologia-assuncao.br
[3] REIMER, Ivoni. O poder de uma protagonista. A oracäo de pessoas excluídas. RIBLA 25 (Pero nosotras decimos).
[4] Relatório do CEPAL. Site Ecodesenvolvimento.
[5] Site www.mapadaviolencia.org.br

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

PRISCILA E ÁQUILA

    A história da igreja não se faz apenas com indivíduos ilustres de personalidade forte. Desde os primórdios da igreja, grupos de pessoas, famílias inteiras ou casais comprometidos foram decisivos na missão. Isso pode torná-la até mais eficaz. Um casal bem conhecido da história da igreja, já mencionado no Novo Testamento, são Priscila (também chamada Prisca) e Áquila. Os dois aparecem sete vezes na Bíblia
    Sempre são mencionados juntos; geralmente Priscila aparece em primeiro lugar. Esse destaque certamente não é acaso. Priscila deve ter tido a iniciativa maior na missão.
    Priscila e Áquila fazem parte da comunidade judaica de Roma no primeiro século. No ano 49, eles foram expulsos, juntamente com outros judeus, de Roma por causa de sua fé. O imperador Cláudio decretara essa expulsão devido a certos distúrbios ocorridos na comunidade por causa de um tal de “Cresto”.
    Presume-se que discussões entre os judeus que rejeitaram Cristo e os que aderiram a ele tenham levado a um conflito na comunidade judaica e, por fim, ao decreto imperial determinando a expulsão de judeus e cristãos de Roma. Os romanos aparentemente não faziam diferença entre judeus e cristãos.
    Priscila e Áquila foram então morar na cidade grega de Corinto. Ali viveram de sua profissão. Em Corinto, conheceram o apóstolo Paulo, o qual hospedaram em sua casa por 18 meses: “Lá [Paulo] encontrou certo judeu chamado Áquila, […] recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma […] E, já que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era fazer tendas” (Atos 18.2-3).
    A convivência na família e a sociedade no trabalho beneficiaram a missão da igreja. O casal acompanhou Paulo em uma de suas viagens e teve importância decisiva na edificação da comunidade de Éfeso, para onde se havia transferido (Atos 18.18-19). Nessa cidade, ainda cumpriu outra missão: orientar um pregador entusiasmado sobre aspectos decisivos da doutrina cristã.
    “Chegou a Éfeso um judeu, natural de Alexandria, chamado Apolo, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Ele era instruído no caminho do Senhor […], mas conhecia apenas o batismo de João […] Priscila e Áquila tomaram-no consigo e [...] lhe expuseram o caminho de Deus” (Atos 18.24-28). Assim, além de acolher hóspedes em sua casa, o casal também se sentia responsável por orientar os pregadores de sua igreja.
    Depois da morte do imperador Cláudio, Priscila e Áquila voltaram a Roma. Ao escrever sua Carta aos Romanos, Paulo saúda particularmente o casal: “Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus, os quais pela minha vida arriscaram a sua própria cabeça; e isso lhes agradeço, não somente eu, mas também todas as igrejas dos gentios” (Romanos 16.3-5).
    Não sabemos em que circunstância o casal arriscou sua vida para salvar a de Paulo. Esse ato foi, no entanto, de suma importância não somente para o apóstolo, mas para todas as comunidades gregas.
Mas a atividade rotineira e duradoura do casal em Roma deve ter marcado mais profundamente a vida da igreja. Antes de a comunidade possuir um lugar de oração, ela se reunia na casa de Priscila e Áquila. Esses cultos domésticos eram – e ainda são – muito importantes para a vida comunitária.
    Assim como Priscila e Áquila, muitos casais dedicam-se, das mais diversas formas, à missão da igreja. Todos eles são de máxima importância para a vida das comunidades. Priscila e Áquila continuam sendo um exemplo de discipulado e um estímulo para nosso testemunho.

Nelson Kilpp é especialista em Antigo Testamento, ministro da IECLB. Texto  publicado pela Revista Novo Olhar nº 41 cedido pelo autor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

AS MULHERES NA REFORMA PROTESTANTE

                                                          Revda. Sonia Mota
No calendário protestante, o dia 31 de outubro é uma data importante, pois é a data em que se comemora o dia da Reforma. Todo protestante com um mínimo de conhecimento de história da Igreja citará de cor reformadores como Martinho Lutero, João Calvino, João Knox, Ulrico Zwínglio, Filipe Melanchton e outros. Mas nesta lista está faltando uma parte importante desta história. Onde estão as mulheres que atuaram pela Reforma da Igreja,  defendendo, entre outros, a ordenação de mulheres? Que foi feito da memória delas e do trabalho que realizaram? Sabemos que ambos, homens e mulheres, tiveram papel relevante no movimento da Reforma. Mas lamentavelmente as  mulheres são geralmente esquecidas. No que segue, queremos dar visivilidade à importância da atuação de algumas destas mulheres, que inclusive tiveram que se defender dos próprios reformadores homens.

 

1. A

posição dos reformadores
     Na tradição reformada, embora o sacerdócio universal dos crentes fosse um tema amplamente difundido, ele não foi aplicado para garantir às mulheres o direito ao ministério ordenado. Se, na Idade Média, o ideal feminino era o de monja, na época da Reforma, o ideal era ser esposa e mãe.
    Lutero viu como apropriado para as mulheres o papel de ajudantes e companheiras dos homens, cabendo a elas o tradicional papel de esposa e mãe, permanecendo sujeitas aos maridos. Para ele, não existe nenhuma permissão divina para que elas exerçam papel de liderança. Mesmo as que são rainhas precisam de um conselho masculino para administrarem, pois só ao homem é dado o direito de mandar[1].
    João Knox é ainda mais radical, chegando até mesmo a ser grosseiro ao publicar um tratado intitulado “O primeiro clangor da trombeta contra o monstruoso regimento das mulheres” (1558), no qual anunciou a sua posição contra qualquer tipo de governo de mulheres, o que para ele significava contrariar a natureza da Escritura e usurpação da autoridade masculina. Mesmo reconhecendo que Deus colocou mulheres notáveis em posição de comando, ele afirma que as mulheres “são fracas, débeis, impacientes, vulneráveis e tolas; e a experiência tem demonstrado que elas são inconstantes, volúveis, cruéis e destituídas do espírito de deliberação e organização”[2]. Há quem justifique esta postura devido às experiências que este reformador teve com as rainhas.
    Calvino assume uma posição ambivalente. Segundo Jane Douglas[3], “Calvino é o único teólogo do século XVI que vê o silêncio das mulheres na Igreja como coisa ‘indiferente’, isto é, como matéria determinada pela lei humana e não pela lei divina”. Ele mesmo manteve contato e trocou correspondência com Marguerite de Angoulême. Calvino tratou do assunto sobre o silêncio das  mulheres, instituído por Paulo na Igreja, como matéria de ordem política. Examinou criticamente vários textos bíblicos, nos quais reconhece a participação e a importância da mulheres nas Escrituras Sagradas. No seu comentário sobre Gênesis, rompeu com a tradição escolástica ao afirmar que a mulher não foi dada para Adão para ter filhos, mas para ser sua companheira. No entanto, mantém a subserviência da mulher em relação ao homem[4].
Mesmo analisando os textos referentes à participação das mulheres na Bíblia, e até rompendo com a tradição em alguns escritos, o seu trabalho não trouxe conseqüências favoráveis ao papel das mulheres na liderança das Igrejas. Embora reconhecesse a existência de profetisas, admitia que seria um escândalo uma mulher ensinar ao seu marido pela pregação. Faltou aos reformadores coerência teológica, pois todas as pessoas, independentemente de raça, gênero ou condição social, estão incluídas no sacerdócio universal dos crentes. 
    Mas apesar dos posicionamentos das lideranças masculinas da Reforma, as mulheres buscaram ocupar seus espaços e muitas delas tornaram-se pregadoras.
2. As reformadoras
    Catarina von Bora (1499-1550), na Alemanha, talvez seja a mulher mais lembrada da Reforma, sendo hoje reconhecida por ter extrapolado o papel de “esposa de Lutero”. Além de excelente administradora dos bens familiares e da casa, conhecia os segredos da medicina caseira, utilizando seus conhecimentos para curar muitas pessoas. Além disto, havia sido monja e, mesmo antes de casar com Lutero, já conhecia o pensamento do reformador através dos seus escritos. Era uma mulher culta, que sabia ler e escrever. Com seus conhecimentos e por participar dos debates que aconteciam em sua casa, Catarina pôde opinar sobre assuntos referentes à Reforma. Em uma das cartas, Lutero informa a ela sobre o Colóquio de Marburg, que tivera com outros reformadores sobre a Santa Ceia, destacando-se dentre eles Zwínglio. Além do mais, foi ela quem incentivou Lutero a responder a Erasmo, quando este escreveu De Libero Arbitrio, ao que Lutero respondeu com o escrito De Servo Arbitrio[5].
    Catarina Schutz Zell[6] (1497-1562), de Estrasburgo, era uma mulher culta, leitora de Lutero; casou-se com um sacerdote que sofreu a excomunhão. Para defender o esposo, escreveu ao bispo cartas de protesto em defesa do casamento clerical:
Você me lembra que o apóstolo Paulo disse que as mulheres estejam caladas na Igreja. Eu desejo lembrar-lhe as palavras do mesmo apóstolo de que em Cristo não há mais macho nem fêmea, e a profecia de Joel: “Derramarei do meu espírito sobre toda a carne e seus filhos e suas filhas profetizarão”. Não pretendo ser João Batista repreendendo os fariseus. Não alego ser Natan censurando Davi. Só aspiro ser a besta de Balaão castigando o seu senhor[7].
    Recebia em casa muitos líderes da Reforma, entre eles Calvino. Além de acolher em casa pessoas perseguidas por causa da Reforma, Catarina Zell também escrevia muito, e em suas cartas incentivava as mulheres dos fugitivos a permanecerem firmes na fé. Estes escritos foram publicados como tratado de consolação. Escreveu também comentários sobre os Salmos 51 e 130, sobre a oração dominical e o Credo. Prestou serviços de acolhida a flagelados, exercendo o ministério da visitação. Intercerdeu por melhorias hospitalares. Pregou diversas vezes, inclusive na morte do esposo.
    Claudine Levet (1532...?) atuou em Genebra. As atividades desta mulher foram relatadas nas atas de Antoine Fromment, pastor protestante da época.
Quando se achava em um ajuntamento em que não havia ministros, os presentes pediam-lhe para explicar a Escritura, porque não podiam encontrar pessoa mais bem dotada com a graça do Senhor. Deixando para trás todas as suas pompas aplicou suas posses no socorro aos pobres, principalmente aos da família da fé, e os que haviam sido expulsos por causa da verdade, recebendo-os em sua casa[8].
    Através das informações registradas por Fromment, é possível concluir que Claudine Levet pregava publicamente em Genebra, antes mesmo da chegada de Calvino.
    Marie Dentière[9] também atuou em Genebra, não só pregando como publicando livros. Entre estes estão A Guerra e o Livramento da Cidade de Genebra (1536), sobre a Reforma genebrina entre 1504 a 1536, Defesa das Mulheres e Uma Carta Muito Útil (1539), duas cartas escritas para a rainha Marguerite de Navarra. Dentière conclui a carta Defesa das Mulheres fazendo um apelo à rainha para que interceda junto ao irmão, o rei da França, fazendo com que se elimine a divisão entre homens e mulheres, pois estas também receberam revelações que não podem ficar escondidas.
Embora não seja permitido a nós (mulheres) pregar em assembléias públicas e nas Igrejas, não obstante não nos é proibido escrever e admoestar uma a outra com todo o amor. Não somente para vós, senhora, desejei escrever esta carta, mas também comunicar coragem a outras mulheres mantidas em cativeiro, a fim de que todas elas não temam ser exiladas do seu país, parentes e amigos, como eu mesma, por causa da Palavra de Deus. Para que elas possam, de agora em diante, não ser atormentadas e afligidas em si mesmas, mas antes, rejubiladas, consoladas e estimuladas a seguir a verdade, que é o evangelho do Senhor Jesus Cristo. Até agora, este evangelho tem estado escondido, de sorte que ninguém ousa dizer uma palavra a respeito dele, e apareceu que as mulheres não deviam ler e entender nada dos escritos sagrados. É esta a causa principal, minha senhora, que me compeliu a escrever a V. Excia., esperando em Deus que no futuro as mulheres não serão tão desprezadas como no passado...em todo o mundo[10].
    O estilo literário de Dentière mostra que ela escreve como mulher para mulheres, utilizando mesmo o recurso inclusivo, não omitindo nos seus escritos as figuras femininas da Bíblia, alertando para o fato de que não foram as mulheres que traíram Jesus ou foram falsas profetisas. Quando analisa o encontro de Jesus com a mulher samaritana, destaca esta mulher como uma das maiores entre os pregadores. E quanto à ordem de Jesus para as mulheres que testemunharam sua ressurreição, ela conclui:
Se Deus deu então a graça a algumas boas mulheres, revelando-lhes, pelas Santas Escrituras, algo santo e bom, não ousariam elas escrever, falar e declará-lo uma à outra? Ah! seria uma audácia pretender impedi-las de fazê-lo. Quanto a nós, seria muita tolice esconder o talento que Deus nos deu[11]
    Uma calvinista inglesa, Rachel Specht, usou, em 1621, a parábola dos talentos para defender o direito das mulheres. Ela argumentava que as mulheres receberam corpo, alma e espírito de Deus. A alma, segundo ela, era o lugar onde habita a mente, a vontade e o poder. Para que Deus daria todos estes talentos a elas se não para serem usados? Não usá-los seria uma irresponsabilidade. As mulheres precisavam assumir o compromisso com o Evangelho, ou teriam que responder diante do Senhor pelo mau uso dos seus talentos. Rachel escrevia em forma de poesia e usava o próprio nome, em uma época em que as mulheres faziam uso de pseudônimos masculinos para permanecer no anonimato. As suas anotações eram abonadas por passagens bíblicas, o que revela seu conhecimento e capacidade de argumentação teológica[12].
    As denominações oriundas da Reforma levaram algum tempo para permitir a ordenação de mulheres. Ainda hoje, em alguns lugares e em determinadas denominações,  lamentavelmente ela não é permitida.
    Resgatar esta história é fazer justiça a estas mulheres que tiveram a coragem de fazer diferente, abrindo caminhos para que tantas outras pudessem assumir o púlpito e ser ordenadas ao ministério. Que o dia 31 de outubro seja também um espaço de comemorar todas estas reformadoras e de continuar lutando pelo nosso direito de exercer “o sacerdócio universal de todos os e todas as crentes”.


[1] Martim LUTERO. Obras selecionadas, v. 5, p. 160-169,
[2] John KNOX, The first blast of the trumpet against the monstruous regiment of women (1558), in: The works of John Knox, ed. David Laing, v. IV, p. 366-373, ap. J. D. DOUGLAS, op. cit., p. 103-104.
[3] ID., ibid., p. 26.
[4] George H. TAVARD, Woman in Christian Tradition, p. 176.
[5] Heloísa Gralow DALFERTH, Katharina von Bora, em especial p. 86.
[6] Alexander Duncan REILY, Ministérios Femininos em Perspectiva Histórica, p. 136-137.
[7] R. BAINTON, Women of the Reformation in Germany and Italy, p. 55, apud: J. D. DOUGLAS, op. cit. p. 101.
[8] Anthoine FROMMENT, Les Actes et gestes merveilleux de la cité de Genève, apud: J. D. DOUGLAS, op. cit., p. 110*.
[9] J. D. DOUGLAS, op. cit., p. 111-114.
[10] Apud J. D. DOUGLAS, op. cit., p. 112-113.
[11] Apud J. D. DOUGLAS, op. cit., p. 113.
[12] W. DEIFELT, op. cit., p. 365-366.

sábado, 15 de setembro de 2012

MEMÓRIAS DA DÉCADA DE 1960 (continuação - parte III)



III – SOBRE A PALESTRA DE MINHA AUTORIA 

A COMISSÃO ORGANIZADORA NACIONAL da Conferência convidou-me, com antecedência, para proferir uma palestra e deu-me o seguinte TEMA- “CONTEÚDO REVOLUCIONÁRIO DO ENSINO DE JESUS SOBRE O REINO DE DEUS”. Eu me senti muito honrado, e aceitei o convite para falar sobre a contribuição do Novo Testamento dentrodo tema da Conferência, já que antes de mim, falaria o meu ilustre colega e amigo, o biblista, Rev. Joaquim Beato sobre a contribuição do Antigo Testamento, focalizando os Profetas. Quando comecei a estudar o tema que a Comissão escolheu, fiquei tão impressionadocom a atualidade do assunto para a Realidade Brasileira, que sugeri que o tema fosse: “A REVOLUÇÃO DO REINO DE DEUS”-e que ficasse, como subtema: ‘CONTÉUDO REVOLUCIONÁRIO DO ENSINO DE JESUS SOBRE O REINO DE DEUS.” A Comissão concordou, apesar de alguns colegas e irmãos achassem que eu estivesse “radicalizando” ao usar a palavra ‘REVOLUÇÃO’ aplicando-a ao ensino e à ação de Jesus. Ainda hoje, nem todos concordam com a escolha para usar essa palavra. A última sugestão foi  a do teólogo batista, Dr. Jorge Pinheiro,em seu excelente livro “DEUS É BRASILEIRO” publicado em São Paulo,SP, em 2008.Ele sugeriu que eu devia usar a palavra transliterada da língua grega, “KAIRÓS”, em lugar de “Revolução”. Acho que a sugestão dele é boa, mas eu ainda não estou convencido, porque, consultando o texto grego de Atos dos Apóstolos 17. 6, quando relata o que aconteceu na cidade de Tessalônica como resultado da pregação do apóstolo Paulo e seu colaborador Silas, e com a participação de um grupo de novos convertidos, o historiador Lucas usa o verbo grego “ANASTATÓW”, que pode ser traduzido por: “transtornar”, “alvoroçar”, “virar de cabeça para baixo”, “virar pelo avesso”,e, até “revolucionar”. Foi o que aconteceu naquela cidade. Houve um alvoroço teológico, ético e social em Tessalônica relembrado por Paulo no 1º Capítulo de sua 1ª Epístola Aos Tessalonicenses. Também porque gosto muito das palavras  do grande historiador, doutorJ.H.MerleD’Aubigné em seu monumental livro ‘HISTORY OF REFORMATION”, quando declarou: “O Cristianismo e a Reforma são as duas maiores revoluções da História. Elas não foram limitadas a uma nação...mas se estenderam por várias  nações e seus efeitos são destinados a ser sentidos até os confins da terra.  Antes dessa declaração ele explica que usa essa palavra REVOLUÇÃO, referindo-se ao Cristianismo porque “ Uma Revolução  é uma mudança na vida total dos seres humanos. É alguma coisa nova que se desenrola no seio da humanidade...”Assim podemos dizer que o que aconteceu em Tessalônica foi uma Revolução porque, lá os cristãos praticaram um evangelização “REINOCÊNTRICA”  e não “ANIMOCÊNTRICA” porque apresentaram, como João Batista, Jesus e seus discípulos o “BASILEIAÉTERON”,“O OUTRO REI!”para a realidade total da pessoa humana e da sociedade., prescindindo qualquer outro CÉSAR deste mundo. Essa é  a ‘Revolução do Reino de Deus “ que o Brasil precisa. Naquela época, emtodo o Império Romano a religião dominante era o CULTO AO IMPERADORe os cristãos,  em todas as cidades e vilas, eram obrigados a cultuar as imagens do Imperador, e deviamacender o incenso para  adorar a estátua, chamando o Imperador de “DOMINUS, REX ET DEUS!”. Quem rejeitasse a fazer esse gesto religioso era sacrificado, como aconteceu com Policarpo (110 AD), o pastor de Esmirna, na Ásia Menor. Por isso o livro do APOCALIPSE tem uma mensagem atualíssima porque apresentou aos cristãos dos primeiros séculos, que havia um trono na terra, onde estava assentada a BESTA, ou a FERA, (Ap.13) que era CÉSAR, e outro trono onde estava assentado o “CORDEIRO que foi morto e reviveu.(Ap 5.1-13). O cristão está desafiado a escolher entre um e outro. Hoje temos assentado nos tronos da terra,  novos deuses, um deles é chamado: “DEUS DO MERCADO.”


(texto apresentado na ocasião das comemorações dos 50 anos da Conferência do Nordeste, em Vitória - ES, gentilmente cedido pelo Rev. João Dias de Araujo. Memórias que nos inspiram e desafiam...)

As mulheres na IPU: a experiência no PSVD


Mês de setembro é mês de comemoração na IPU.  Faz exatamente 34 anos que um grupo de homens e mulheres, alguns expulsos, outros perseguidos e ainda outros descontentes com a IPB, se uniram para recomeçar. Havia, naquele grupo, a firme vontade de iniciar “uma nova forma de ser igreja”, com outras propostas como: o compromisso ecumênico, o compromisso de se engajar em projetos e iniciativas por uma sociedade justa e o compromisso de que todas as pessoas  teriam igualdade de direitos e participação nas instâncias decisórias da igreja. Inaugurava-se, ali, um novo tempo para as mulheres presbiterianas, pois pela primeira vez elas teriam, de fato e de direito, participação plena em todas as instâncias decisórias da igreja e também ao ministério ordenado.
Neste artigo, gostaria de relembrar a conquista de espaço e a participação das mulheres na IPU, refletir sobre os passos que demos até aqui e, também, quais as conquistas que ainda precisamos alcançar. Quero deixar claro que me reporto, aqui, a alguns depoimentos de mulheres do âmbito do PSVD.
Compartilhando experiências
Quando escrevi a minha dissertação de mestrado e procurei pesquisar sobre a nossa história, fui surpreendida pela ausência das mulheres na historiografia oficial da Igreja Presbiteriana. Este fato era completamente estranho para mim, que fui criada em uma igreja onde as mulheres exerciam liderança e representavam a força de sustentação dos trabalhos.
A experiência que eu havia tido com as mulheres na igreja tornava estranho este silêncio. Foi pela voz de uma mulher que aprendi minha primeira oração e os primeiros cânticos religiosos. Foi também através dos ensinamentos de mulheres que conheci as histórias bíblicas e seus personagens fascinantes. Foi especialmente através do trabalho das mulheres que vi o templo presbiteriano da minha cidade no interior da Bahia ser erguido. Então, onde estava relatada a atuação das mulheres da Igreja? Por que os livros enalteciam o trabalho dos homens e as perseguições que eles sofreram, mas silenciavam as dores, lutas e resistência das mulheres? Por que elas estavam invisíveis?
Mesmo que os estatutos da IPB não permitissem às mulheres o direito de participar nas instâncias decisórias, elas sempre tiveram presença muito forte nas Igrejas. Ensinando na Escola Dominical ou atuando na SAF (Sociedade Auxiliadora Feminina), elas procuravam driblar os documentos normativos que não lhes permitiam acesso a cargos de comando. A elas era atribuída a função de “auxiliadoras”. Mas, a partir deste espaço que lhes era dado, elas se articulavam para se fazer ouvir. Uma liderança feminina de uma das igrejas do Recôncavo Baiano me revelou que, em algumas Igrejas no interior da Bahia, naquela época, muitas mulheres eram formadas em magistério, enquanto os seus esposos eram agricultores. Como não podiam participar das reuniões do Conselho da Igreja, elas ficavam do lado de fora escutando pela janela. Quando havia algum assunto mais difícil a ser resolvido, os esposos saíam da reunião e iam consultá-las. Geralmente acatavam a opinião delas.
“As Auxiliadoras Femininas”   
Enquanto a Igreja Presbiteriana do Brasil destinava às mulheres o papel de “auxiliadoras”, elas sabiam se articular bem e tomar suas próprias decisões. Tinham autonomia e buscavam ocupar seus espaços, cientes do trabalho que realizavam e da força que tinham.  A Presidente da SAF, na Bahia, na época da crise, me deu o seguinte depoimento:
            Recebi uma carta do Supremo Concílio avisando que o Presbitério do Salvador tinha sido dissolvido e que eu deveria me reunir com o Presbitério do Recife. Imediatamente fui até o Colégio Dois de Julho, onde se concentrava um grande número de pastores do nosso presbitério e mostrei a carta. Houve imediatamente uma convocação da mesa do presbitério e da nossa SAF e tomamos a decisão de não acatar a carta do Supremo Concílio...           
Foi resistência completa. Fui destituída do cargo de Presidente, mas nós resolvemos não tomar conhecimento e continuei a realizar todos os trabalhos de maneira normal (...) A SAF recebeu todo o apoio do Presbitério local para continuar seu trabalho. Naquela época, a Federação de Mulheres da Bahia já se reunia juntamente com a reunião da executiva do presbitério, embora não interferíssemos nas reuniões deles. Isto foi um exemplo citado no Congresso Nacional de Mulheres, que aconteceu no Rio de Janeiro. Nos outros presbitérios, a reunião de mulheres era realizada em dias diferentes
[1].
            Foi com esta atitude de quem sabe agir, mesmo não exercendo cargo de liderança dentro da instituição, que as mulheres reagiram quando chegaram as ordens do Supremo Concílio que dissolviam o Presbitério do Salvador, revelando grande disposição para exercer uma oposição ativa.

A força das mulheres nas igrejas locais
Como será que a transição IPB-IPU ocorreu junto às comunidades locais? Não se pode ter a ingenuidade de imaginar que todas as pessoas que participavam nas Igrejas locais soubessem da dimensão da crise que estava ocorrendo dentro da IPB. Algumas pessoas afirmam que “ouviam falar”, mas não tinham uma idéia clara do que estava ocorrendo. Nas rodas de conversa, durante reuniões da Igreja, é fácil comprovar esta afirmação. Alguém disse:
            Aconteceu com a gente o mesmo que aconteceu com o Brasil quando dormimos monarquistas e acordamos republicanos. Assim, também dormimos IPB e acordamos IPU.
Segundo o depoimento prestado por mulheres nas Igrejas do interior da Bahia, a resistência às ordens do Supremo Concílio também foi muito forte. Em junho de 1975, os pastores Josué Mello e Celso Dourado foram depostos do pastorado. Algumas mulheres ficaram sabendo da crise através do pastor local, algumas confessaram que não entendiam direito o que estava acontecendo, mas foram a favor da decisão do Conselho da Igreja em dar apoio aos pastores perseguidos, quando a Assembléia foi consultada.

            Toda a Igreja viu que não havia nenhum motivo para os pastores serem perseguidos. Toda a Igreja apoiou. Ninguém, mas ninguém mesmo teve reação contrária. Não deixou de ficar aquela expectativa: “que é que pode acontecer? Como vai ser depois?”. Mas todos aceitaram e demos total apoio aos pastores. Isso foi imprescindível, pois a gente reconhecia que, como pastores, eles não haviam dado motivo nenhum para serem perseguidos como estavam sendo nem havia motivo para todo aquele problema[2].
            É impossível escrever a história da Igreja sem incluir estes depoimentos e valorizar a participação das mulheres como sujeito histórico e decisivo do processo. Se a decisão foi para a Assembléia da Igreja, não se pode esquecer que elas sempre foram maioria, logo, o voto delas foi decisivo. O Presbitério também declara o não reconhecimento da deposição dos seus pastores, afirmando que os mesmos iriam continuar a exercer as funções pastorais. Muitas Igrejas não acompanharam os antecedentes da crise, mas, ao sentirem seus pastores serem atingidos, foram solidárias com eles.
 
A IPU e o compromisso com as mulheres
Foi no II Encontro do grupo de presbiterianos e presbiterianas que haviam sido expulsos ou que saíram da IPB, ocorrido em Belo Horizonte, em março de 1978, que o embrião de “uma nova forma de ser Igreja”[3] começou a ser gestado. Durante o encontro, uma comissão foi encarregada de estudar e apresentar propostas relativas à questão dos ministérios. Dentre as propostas enviadas pela comissão encarregada e apoiadas pelo plenário, merece destaque a seguinte proposta:
Que o trabalho da mulher na Igreja seja no mesmo nível de outros ministérios, com igual oportunidade de participação no ministério da Palavra, da administração e da diaconia. Que, segundo os exemplos da Igreja na época do Novo Testamento, haja uma fiel mordomia das atividades femininas dentro do contexto de cada comunidade[...][4]

Pela primeira vez, dentro do ramo presbiteriano no Brasil, as mulheres tinham a possibilidade de ser diaconisas, presbíteras e pastoras. Isso era apenas o reconhecimento de um trabalho que as mulheres já vinham realizando de fato.
São as próprias mulheres que contam como foi poder participar de Conselhos das Igrejas e das assembléias nacionais e poder ocupar cargos na estrutura administrativa:
            Na verdade, aqui na Igreja local, nós mulheres já trabalhávamos em tudo, só não participávamos do Conselho. Na hora das decisões eram os homens, mas nós dávamos nossas opiniões. Não tinha aquele machismo, todo mundo participava [...].
            Agora, na IPU, a diferença é grande, muito grande mesmo. Antes a gente só ia na reunião da SAF, apenas como 'auxiliadoras'. Das outras reuniões de decisão do Presbitério só os homens participavam. Agora eu tenho participado das reuniões do Presbitério e das assembléias e posso dar minhas opiniões, sugestões e vejo que estou contribuindo para a Igreja, vejo resultado. Sinto que alguma coisa estou fazendo em benefício da Igreja. Quando, nas reuniões, dividimos em comissões e eu faço parte de alguma, sinto que tenho liberdade de estar junto com os pastores, dou minhas opiniões e eu sei que isto ajuda. Sinto que sou respeitada, ouvida e algumas sugestões minhas são acatadas sempre que é para o bem da Igreja. Isto é bom[5].

            O depoimento revela como, na realidade, as mulheres já sempre opinavam e participavam nas decisões das Igrejas locais, mesmo que os estatutos da IPB tenham reservado um lugar e um espaço bastante reduzido para elas. Percebe-se que a depoente se sente como sujeito atuante na história da Igreja e valorizada por estar participando, junto com os pastores, das discussões da Igreja.
            Algumas mulheres, que não estavam acostumadas a participar destas Assembléias Gerais, estranharam este fato no início, mas logo se acostumaram a participar do poder:

            Olha, eu levei um tempo para me entrosar. Chegava nas reuniões e não entendia nada do que estava se passando, levei um tempo para entender. Mas aos poucos fui me sentindo à vontade. Participo, dou minhas opiniões, quando estou em alguma comissão que sinto dificuldade para entender o assunto, procuro alguém com mais experiência para me explicar. Já tive a honra de ser tesoureira do Presbitério. Hoje não quero perder nenhuma reunião[6].

As mulheres sempre participaram dos espaços internos de suas Igrejas. Agiam como professoras nas classes de escola dominical de crianças, jovens e adolescentes. Integraram a SAF. Agora sentem que estão ocupando outros espaços, onde é possível falar, opinar, discordar. Sentem-se visíveis na estrutura e veem que o que fazem pela Igreja é reconhecido. É impossível falar da história da IPU no PSVD sem lembrar as tantas mulheres que fizeram e ainda fazem a história da nossa igreja, atuando em todos os âmbitos. Evito citar nomes para não cometer a injustiça de esquecer algum. Deixo a cada leitor e leitora a tarefa de puxar no fio da memória e lembrar as mulheres que trabalharam e trabalham ainda hoje na igreja.

As mulheres hoje na IPU
Vimos que a IPU foi a primeira igreja da família presbiteriana a reconhecer a ordenação de mulheres para os diversos ministérios da Igreja: diaconal, presbiterial e pastoral. Imediatamente foram eleitas e ordenadas mulheres diáconas e presbíteras. A primeira pastora da IPU, no entanto, é de origem luterana: Maria Luísa Rückert. Ela se filiou, em 1992, à IPU, tornando-se, posteriormente, vice-moderadora e assumindo, mais tarde, por substituição, a moderação da igreja. Hoje, a IPU conta, em seu quadro, com 101 pessoas exercendo o ministério pastoral ordenado, das quais 16 são mulheres, ou seja, apenas 15,34%. Com exceção do biênio 1993-1995, sempre houve também presença de mulheres no Conselho Coordenador. Já tivemos uma Secretária Executiva, Elinete Wanderlei Paes, e duas moderadoras, Romélia Meyer e, atualmente,  Anita Sue Wright Torres. A ordenação feminina  talvez seja um dos pontos mais pacíficos dentro da IPU. Mas  não basta “dizer” ou “permitir” que as mulheres tenham espaço na Igreja. É necessária uma mudança de postura por parte da Igreja. Ainda há, na IPU, pouco espaço para a discussão das relações de gênero; a teologia e a hermenêutica feministas são quase que desconhecidas, se não olhadas com descaso e preconceito por parte de muitas pessoas. Ao fazermos 34 anos, é preciso avaliar o quanto avançamos e onde precisamos avançar ainda mais. Para as mulheres da IPU, especialmente para as que exercem cargos de liderança e a função pastoral, e para a igreja como um todo trago algumas perguntas para reflexão e autocrítica:
- Em que nós mulheres temos feito a diferença?
- Nos conteúdos das prédicas e nas lições de Escolas Dominicais a IPU tem incluído as reflexões de gênero?
- Que imagem de Deus estamos construindo na nossa comunidade?
-Em nossa reflexão teológica, temos procurado desconstruir conceitos e posicionamentos que inferiorizam as mulheres?
- A IPU tem se colocado contra todo e qualquer discurso que utilize a Bíblia para justificar a opressão da mulher?
- A linguagem inclusiva tem sido usada em seus documentos, liturgias e prédicas?
- Qual tem sido o nosso compromisso nas questões de direitos das mulheres e no combate à violência contra a mulher?
Uma Igreja que deu um passo tão importante há 34 anos deve continuar comprometida com seus princípios fundantes e, além disso, buscar atualizar-se sempre. Por isso, é necessário revisar e atualizar a teologia, quando houver discursos e linguagens patriarcais e sexistas, e acabar com qualquer tipo de violência institucional contra a mulher, não só fora, mas especialmente dentro do âmbito da própria igreja. Isso significa continuar na firme vontade de ser “uma nova forma de ser igreja”. 

Revda. Sônia Mota, 1ª pastora ordenada pela IPU.

.




[1] Depoimento da presbítera Lizete Miranda, em julho de 2002.
[2] Entrevista concedida por Ester Mota Lee, presbítera da Igreja Presbiteriana de Governador Mangabeira, em julho de 2002.
[3] Esta expressão se tornaria marca registrada da IPU.
[4] Boletim do II Encontro de Presbiterianos. Belo Horizonte, 24 a 26/03/1978.
[5] Depoimento de Ester Mota Lee, presbítera da Igreja Presbiteriana Unida de Governador Mangabeira, em agosto de 2002.
[6] Depoimento de Adalgisa Mota de Almeida, presbítera da Igreja de Muritiba, em agosto de 2002.